Entrevista | 11-10-2026 18:00

Nuno Azevedo quer tirar Coruche do esquecimento com obras há muito adiadas

Nuno Azevedo quer tirar Coruche do esquecimento com obras há muito adiadas
Nuno Azevedo defende como prioridades para Coruche a requalificação das escolas e travessias do Vale do Sorraia - foto O MIRANTE

O presidente da Câmara de Coruche quer preparar o concelho para o crescimento populacional e empresarial que acredita ser inevitável com o novo aeroporto de Benavente, apontando o IC13 como prioridade que o Estado deve encarar. Reconhece que a Lezíria do Tejo tem sofrido com a falta de investimento público, acreditando que pelo menos o IC13 não vai demorar muito mais tempo. O município vai avançar com requalificações financiadas de escolas, centro de saúde e habitação. Nuno Azevedo admite que a disputa eleitoral com Dionísio Mendes foi dura, revelando que a relação entre ambos é meramente institucional.

António Palmeiro e Pedro Trindade Sena

Nuno Azevedo ganhou a Câmara de Coruche aos 54 anos de idade. Está a fazer o primeiro mandato na primeira vez em que o PS não tem maioria absoluta no município. O responsável foi o antepenúltimo presidente eleito pelo mesmo partido que agora concorreu como independente e conquistou três lugares no executivo, os mesmos que os socialistas. O sétimo lugar é do PSD. Nascido em Janeiro, no dia 13, não é o número que lhe dá azar. O mesmo não pode dizer do líder da oposição, Dionísio Mendes, com quem se cruzou quando este era presidente e Nuno Azevedo secretário dos vereadores. Diz que o segundo mais votado nas eleições apenas tem conhecidos. Engenheiro mecânico de formação, trabalhou na manutenção do Hospital de Santarém, e entre 2017 e 2025 foi presidente da Junta da União de Freguesias de Coruche, Fajarda e Erra. Casado, sem filhos, gosta de pescar, de momentos com os amigos, mas diz que “infelizmente” tem praticado pouco. Para o concelho, tem a perspectiva de o preparar para o expectável crescimento populacional e empresarial potenciado pelo novo aeroporto, mas sem comprometer a qualidade de vida. Acredita que a construção do IC13 não pode continuar a ser adiada por muito mais tempo e diz que no prazo de um ano há empreitadas de 20 milhões de euros a decorrerem em Coruche.

Que impacto teve a passagem da presidência da junta de freguesia para a câmara? Apesar de já ter algum conhecimento da estrutura, esta é muito superior à da freguesia. O número de funcionários, de serviços, de competências é muito maior. Há que ter em conta que as autarquias receberam competências na área da saúde e da educação, por exemplo, que originam a necessidade de reforçar as equipas. As exigências administrativas também nos obrigam a estruturar e a robustecer as equipas para conseguirmos dar resposta.
Ou seja, tem muito mais que fazer… Procuramos fazer investimentos com vista ao desenvolvimento dos nossos territórios, gerindo o orçamento de uma forma equilibrada de modo a conseguirmos resolver as necessidades. Isso obriga-nos a ter técnicos especializados para fazer as candidaturas a financiamento de modo a termos alguma garantia que somos apoiados em muitos dos investimentos.
Como é que encontrou a câmara? Quem lidera tem sempre perspectivas diferentes da anterior liderança. Não é que esteja mal. Há questões que eu e a minha equipa entendemos que devem funcionar de outra forma, porque temos de pensar que a evolução dos tempos tem outras exigências, outras necessidades. São pequenos ajustes e questões de prioridades.
Então quais são as prioridades? As prioridades decorrem das necessidades e elas também foram alteradas devido às tempestades logo no início do mandato, mas não houve uma alteração radical, portanto, há aqui também alguma aposta na continuidade. Mas também é preciso ver que no mandato anterior havia um presidente e três vereadores da maioria e agora o PS tem menos um vereador. Ou seja, houve um reajuste daquilo que são as condições e a forma de trabalhar.
Mas afinal quais são as prioridades? é essa a questão… Estamos a falar das travessias do Vale do Sorraia, das pontes da Escusado Rebolo e da Amieira, que são da competência da Infraestruturas de Portugal. Estamos a priorizar também investimentos como a requalificação da escola secundária, na ordem dos 5,2 milhões de euros, na requalificação da escola EB2/3, superior a três milhões, bem como as escolas da Azervadinha e do Rebocho, com financiamento estatal, do Centro Materno Infantil do Couço. Prevemos também a requalificação do centro de saúde, num investimento de dois milhões e meio de euros. Provavelmente no próximo ano teremos a decorrer empreitadas com um valor próximo dos 20 milhões e acreditamos que teremos apoios de pelo menos 50% cento.
Quando se concretizarem estas obras ficam resolvidos os principais problemas de Coruche? Também há outra necessidade prioritária para este mandato que é a construção de 16 fogos habitacionais no edifício multifamiliar da Rua Júlio Maria de Sousa, para arrendamento acessível.
Estamos a falar de uma câmara rica que tem dinheiro para estas obras todas… A questão é se há uma boa gestão ou não e aproveitar os recursos para servir melhor a comunidade. Tendo a oportunidade que temos de financiamento para estes equipamentos vamos aproveitá-la.
A oposição referiu que no ano passado 60% do investimento ficou por realizar. Acha que agora há capacidade para fazer tantas obras? Os processos são morosos e os prazos nem sempre coincidem com os anos económicos e estamos sujeitos à disponibilidade do mercado para responder às necessidades. Há dificuldades em conseguir projectistas, porque não temos equipas próprias para fazer projectos com esta dimensão. O processo com vista à contratação também é moroso e ainda acrescem as dificuldades de mão-de-obra para os nossos fornecedores responderem a tempo. Por isso é que há um conjunto de concursos que ficam desertos. Ter execução financeira, a produzir efeitos, eventualmente só para o final do próximo ano. Estou consciente a partir dessa altura teremos uma excelente execução financeira.
Um concelho não é só obras. Qual é a sua estratégia para Coruche? O crescimento e preservação da qualidade de vida. Temos que nos preparar porque vamos crescer em residentes e em empresas. A construção do novo aeroporto no concelho vizinho de Benavente será um motor de desenvolvimento para toda esta região e queremos aproveitar essa oportunidade de excelência. Temos de ter mais serviços para dar resposta à população ao nível da educação e da saúde.
Acredita mesmo que existe muita gente com vontade de morar em Coruche? É uma inevitabilidade, potenciada pela construção do IC13 que acredito que vai avançar. Cabe-nos trabalhar naquilo que são as nossas condições, seja a nível do Plano Director Municipal, seja ao nível de novos serviços. É um processo paulatino e o concelho tem de se preparar para ser um concelho atractivo, mantendo a qualidade de vida e valorizando as condições naturais, a identidade que nos caracteriza. Vejo em Coruche uma oportunidade para viver e constituir família.

A relação meramente institucional com Dionísio Mendes

Estava à espera que o seu principal adversário e ex-presidente da câmara tivesse o resultado que teve, retirando a maioria absoluta, ficando a 2% da sua candidatura? Sabia que este processo eleitoral não iria ser fácil. O candidato que se apresentou com um movimento independente foi presidente de câmara pelo PS e estávamos nestas eleições na mesma área política.
Foi secretário dos vereadores numa altura em que o agora seu adversário político Dionísio Mendes foi presidente da câmara. Não conseguiram ficar amigos? Ele tem amigos? Ele não tem amigos, tem conhecidos. É uma evidência.
Estou a ver que existe uma animosidade entre vocês… Da minha parte não. Existe a proximidade que tem que existir naquilo que é o exercício das funções de cada um. É uma relação institucional.

Autarca tem "fé" na construção do IC13 fruto do novo aeroporto em Benavente - foto O MIRANTE

A necessidade de melhorar os serviços de saúde e os problemas de socorro

Recentemente teve uma reunião com a ministra da saúde. O que é que a população pode esperar? Falei com a ministra da questão das instalações. Houve uma transferência de competências e os espaços não estão nas melhores condições, porque ao longo de muitos anos não tiveram uma intervenção de fundo que permitisse mantê-los adequados ou actualizadas às necessidades. Estamos disponíveis para tratar do processo de requalificação, mas é importante que exista financiamento. Abordei também a necessidade de mais recursos humanos para manter os serviços a funcionarem mais tempo, 24 horas se possível. Não há noção das distâncias ao hospital de referência em Santarém ou outros estabelecimentos de saúde alternativos.
Como é que se consegue alterar a cada vez mais difícil capacidade do socorro no concelho? Para inverter esta situação só com mais recursos humanos, que também estão limitadas por questões legais, como é o caso do limite de 25 anos de idade para contratar novos bombeiros municipais. Temos andado nas escolas junto dos alunos do 11º e 12º anos a sensibilizá-los para a carreira de bombeiro.
Qual é a expectativa em relação à constituição de uma nova corporação de bombeiros voluntário no Couço? Vem dar um contributo importante para a capacidade de resposta, na medida em que é possível recrutar bombeiros voluntários com idades superiores aos 25 anos, o que não acontece com os municipais.
Mas o problema dos bombeiros municipais não será também falta de investimento ao longo dos anos? Não, porque houve concursos e não se conseguiu reforçar o efectivo. Num dos últimos concursos que abriu para quatro lugares, concorreram nove pessoas, a maioria foi excluída pela idade e acabou por entrar um único candidato.
Já pensou quanto é que vai ter que gastar com a nova corporação de bombeiros voluntários? Estamos a preparar um dossier sobre a estrutura e um estudo económico-financeiro e também de meios. Neste momento não temos um valor exacto.
Depois tem mais meios para socorrer, mas continua sem ter um serviço de urgência intermédia que possa colmatar a grande distância para o hospital. Era importantíssimo. Houve essa proposta para termos um serviço de urgência básica, foram feitas obras na altura no centro de saúde e desistiu-se da ideia. Acho que foi uma questão da estratégia da estrutura da saúde na região. Muitas vezes os decisores não têm a consciência do que são estas distâncias. Temos zonas no concelho que ficam a cerca de 70 quilómetros do Hospital distrital de Santarém.
Não se percebe porque é não se faz pressão, não se faz barulho… Há coisas que não se resolvem com barulho e com pressão. O assunto tem sido falado. Das reuniões que houve com a ministra da Saúde sempre foi referida esta questão e a necessidade de haver uma ambulância SIV (Suporte Imediato de Vida) do INEM, que por aquilo que nos disseram estaria a funcionar nesta altura, mas já percebemos que só será no início do próximo ano. Foi referida a necessidade de termos um serviço a trabalhar mais horas e com mais médicos, até porque temos uma faixa significativa da população sem médico de família. Estamos disponíveis para colaborar, para atrair mais médicos e dar mais condições ao espaço.

A fé no IC13, o papel da comunidade intermunicipal e a falta de investimento

A construção do IC13 anda a ser falada há 20 anos. Acredita que será feito antes de completar meio século de intenções? Não podemos ver as coisas nessa perspectiva. Se vai avançar a construção do novo aeroporto têm de ser criadas infraestruturas que alimentem este grande investimento. O IC 13 já existe entre Portalegre e Alter do Chão. Para aquele que é o maior troço que liga Montijo a Alter do Chão e passa por Coruche já foi lançado o estudo prévio pela Infraestruturas de Portugal e tem uma estimativa de dois anos. A gente tem de acreditar em alguma coisa.
Está muito optimista… Tenho de fazer fé, porque é importante para toda esta região. Já devia ter sido feito? É verdade. A nova travessia do Vale do Sorraia já devia ter sido feita, é verdade. Mas se algo que está a ser feito para que isso se concretize, também acredito que sim.
Acha que o poder em Lisboa quer saber de pessoas que vivem em territórios afastados, de interior, como Coruche? Não se sente abandonado? Não temos essa perspectiva. Mas reconheço que essa toda esta região tem tido pouco investimento público nos últimos anos, sobretudo ao nível da rede viária estruturante. Mas é necessário e tem que ser feito e é isso que temos feito sentir aos governantes. Temos que enquadrar que há investimentos como este que não são de um concelho, são de uma região, seja na rodovia, seja na ferrovia. E temos expressado uma força conjunta.
Acha que a Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo tem tido uma postura activa quando não se vê qualquer posição pública sobre situações que prejudicam os municípios? Ainda recentemente houve um conjunto de reuniões com os presidentes de câmara e com alguns governantes. Agora a forma como é feito, se é com mais ruído ou com menos ruído, depende da perspectiva de cada um.
A comunidade intermunicipal, enquanto entidade que deve defender uma sub-região, não devia ter uma atitude mais proativa e de maior comunicação pública relativamente às necessidades das populações? As pessoas estão mais preocupadas com o trabalho da sua câmara e pouca gente está preocupada com o trabalho da comunidade intermunicipal, porque sabe que é uma entidade agregadora. Se pode ser diferente, qualquer coisa pode ser sempre diferente.
A mudança que acabou com a hegemonia do PS na presidência da comunidade intermunicipal mudou alguma coisa? Não sei como era antes. Não era presidente de câmara.
Mas era presidente de junta. Não acompanhava a política regional? Neste momento acompanho o trabalho da comunidade presidida pelo presidente da Câmara de Santarém e pode sempre ser feito mais, todos desejamos mais. É verdade que a nossa região tem tido ao longo do tempo muito pouco investimento público estatal. Foram vários governos da direita e da esquerda, foram vários líderes da comunidade intermunicipal, várias gerações de autarcas e é um facto é que se passaram décadas sem investimento na região. Agora temos que exigir que se faça.

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