Entrevista | 27-10-2026 15:00

Ota quer libertar-se das marcas deixadas pelo projecto do aeroporto

Ota quer libertar-se das marcas deixadas pelo projecto do aeroporto
André Texugo quer envolver a população no dia-a-dia de Ota e criar comunidade - foto O MIRANTE

Durante décadas, a expectativa de um aeroporto condicionou a construção e o desenvolvimento de Ota. A freguesia aguarda agora o novo Plano Director Municipal de Alenquer para poder crescer, mas o presidente da junta, André Texugo, não esconde que quer preservar as características rurais do território.

A expectativa criada em torno de um novo aeroporto, que chegou a estar previsto para a freguesia de Ota, teve consequências concretas, nomeadamente ao nível da construção e do crescimento populacional. Durante anos, a construção esteve condicionada em áreas que ficaram abrangidas pelas perspectivas de instalação da infraestrutura aeroportuária o que “bloqueou a freguesia 20 ou 30 anos”, sublinha o presidente da junta, André Texugo (PS).
O autarca faz questão de esclarecer, no entanto, que é pessoalmente contra a instalação de um aeroporto em Ota. “Eu não sou a favor do aeroporto na Ota. Eu gosto desta ruralidade e gostava que se mantivesse esta ruralidade”, defende. O futuro da freguesia está dependente do novo Plano Director Municipal (PDM) de Alenquer que pode abrir portas a novas zonas de construção, incluindo áreas actualmente classificadas como agrícolas ou rústicas.
Apesar das limitações, o presidente da junta considera que Ota atravessa actualmente um período de crescimento populacional. A freguesia tem 1.049 eleitores, segundo André Texugo, mas o número de residentes deverá rondar os 1.600, excluindo a população da Base Aérea. Muitas casas estão arrendadas ou encontram-se em obras para serem transformadas em habitação, num crescimento de população também relacionado com a pressão imobiliária na Área Metropolitana de Lisboa. Para o presidente da junta, a freguesia apresenta várias condições atractivas para quem procura residência, incluindo a escola e a qualidade de vida associada a um território de características rurais. O problema, diz, continua a ser a falta de casas.

Creche é uma das principais necessidades
Entre os equipamentos que considera necessários para a freguesia está uma creche. Ota dispõe de pré-escolar e jardim infantil, escola primária e prolongamento de horário, mas não tem resposta para crianças com idades entre os 4 meses e os 3 anos, o que seria importante para responder às necessidades de famílias que vivem na freguesia e trabalham fora.
A mobilidade é outra das preocupações apontadas pelo autarca. Para além da insuficiência dos transportes públicos, persistem problemas de mobilidade pedonal entre alguns núcleos da freguesia. Uma das intervenções mais recentes foi o passeio pedonal sul, uma obra que resolveu um problema que, durante anos, obrigava os moradores a circular pela estrada para chegar ao supermercado, à farmácia e a outros serviços, num percurso onde chegaram a ocorrer atropelamentos e mortes.
Continua ainda por resolver a ligação pedonal entre as Arroteias e o núcleo central de Ota. Quem pretende deslocar-se a pé tem de utilizar a estrada nacional, sem uma passagem pedonal adequada. André Texugo dá o exemplo de um morador que está a perder a visão e que, para manter alguma autonomia, precisa de utilizar os transportes públicos para se deslocar. Para chegar aos transportes, este morador é obrigado a atravessar a estrada. A junta está a acompanhar o caso em articulação com a Infraestruturas de Portugal e a Câmara de Alenquer para encontrar uma solução que possa também servir outras pessoas, incluindo crianças.

“A minha grande obra é criar uma comunidade”
Para André Texugo, o principal desafio da presidência da Junta de Freguesia de Ota não se resume a obras ou equipamentos. “O meu principal propósito na freguesia é criar comunidade”, vinca. O presidente, que é natural da freguesia e vive em Ota há 36 anos, diz ter acompanhado a transformação da população local e a capacidade que a comunidade teve, no início dos anos 2000, para integrar uma vaga de imigração proveniente sobretudo do Brasil e dos países de Leste.
Estima que, nessa altura, a imigração tenha representado entre 10 e 15 por cento da população. Recorda essa fase como um período particularmente importante da sua vida, por ter permitido o contacto com pessoas de diferentes países e culturas. “Deram-me mundo”, afirma. Segundo André Texugo, muitas dessas pessoas chegaram sem falar português, algumas sem condições materiais, e acabaram por se integrar nas associações e na vida da freguesia. Algumas já deixaram Ota, por opção, mas o presidente diz manter com várias delas uma relação de proximidade e considera-as parte da comunidade.
O actual cenário é, na sua perspectiva, diferente. Apesar do aumento populacional, uma parte significativa dos novos residentes faz de Ota dormitório e não participa na vida da freguesia. Esta realidade é visível no movimento associativo. O Centro Social, Recreativo e Desportivo de Ota passou por uma comissão de gestão por falta de pessoas disponíveis para assumir a liderança. O Futebol Clube Ota, que no passado chegou a envolver centenas de crianças, encontra-se também com uma comissão de gestão. A freguesia chegou a ter escuteiros, mas hoje já não existem.
Ainda assim, André Texugo vê sinais de renovação. Refere a entrada de novos órgãos sociais no Centro Social, Recreativo e Desportivo de Ota, a constituição de um novo executivo na junta e a mudança do padre e da comissão de festas como sinais de uma nova dinâmica.

Junta tem poucos recursos
A Junta de Ota tem apenas três trabalhadores administrativos que asseguram também serviços como os CTT e dois trabalhadores operacionais no terreno, existindo ainda uma funcionária ligada à área da limpeza das ruas. “Somos uma junta de freguesia com muito poucos recursos, sobretudo humanos”, afirma.
A dimensão territorial de Ota agrava as dificuldades. A freguesia é uma das maiores do concelho de Alenquer em área e possui cerca de uma centena de caminhos vicinais que necessitam de intervenção. As tempestades agravaram ainda mais o problema. A junta teve de aplicar cerca de 500 a 600 toneladas de tout-venant na recuperação de caminhos, recorrendo à contratação de serviços externos porque não dispõe de maquinaria própria suficiente.
O equipamento existente também não ajuda. A junta possui um dumper que, segundo o presidente, está obsoleto e passa mais tempo na oficina. A falta de meios leva o autarca a defender uma maior colaboração dos moradores. Para o presidente, a freguesia só conseguirá responder aos seus problemas se houver participação dos habitantes.

Ota volta a ter multibanco após 15 anos

Após 15 anos sem uma caixa multibanco, depois de o equipamento que existia ter sido assaltado, Ota conta agora com um novo equipamento inaugurado esta semana. A reposição do serviço foi uma das principais promessas das forças políticas durante a campanha para as autárquicas de 2025 e é agora uma realidade. A solução surgiu através do Banco Montepio, que apresentou a proposta “mais razoável” depois de a junta ter enviado pedidos a várias instituições bancárias. A intenção é que o equipamento não sirva apenas os moradores, mas também contribua para trazer pessoas para o centro urbano da freguesia.

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