“É Maio, migo, é Maio”: Azambuja vive a festa que une gerações e celebra a alma ribatejana
A Feira de Maio volta a transformar Azambuja num palco vivo de tradição, reencontros e orgulho ribatejano. Entre tertúlias, toiros e campinos, fandango, memórias e reencontros, a festa centenária mostra porque continua a ser o coração do concelho e um património colectivo vivido de dentro para fora.
“É Maio, migo, é Maio”. A frase ecoa pelas ruas de Azambuja nos dias da Feira de Maio e resume bem a forma como os azambujenses vivem uma festa que não cabe apenas no calendário. Até segunda-feira, 1 de Junho, a vila transforma-se num grande palco de tradição ribatejana, reencontros, orgulho colectivo e memória. As janelas engalanadas, as camisolas coloridas dos tertulianos, os cavalos, os toiros e os campinos, o som dos bombos da fanfarra dos bombeiros e os abraços de quem volta à terra para viver estes dias fazem da festa centenária um dos momentos mais marcantes da identidade do concelho. Muitos tiram férias nesta altura, outros regressam de países estrangeiros onde estão emigrados. Em Azambuja, Maio é também tempo de família, de amigos e de pertença.
Na inauguração da Feira de Maio, na quinta-feira, 28 de Maio, o presidente da Câmara de Azambuja, Silvino Lúcio, sublinhou precisamente essa dimensão afectiva e comunitária. “Estes não são apenas mais cinco dias no calendário. São dias especiais, dias que se vivem de forma diferente, dias que mexem connosco, despertam memórias, unem gerações e reforçam o orgulho da nossa terra”, afirmou, considerando a Feira de Maio “verdadeiramente o coração do concelho”. O autarca destacou as raízes históricas e culturais de uma feira que atravessou gerações, mudanças sociais, dificuldades e transformações, sem perder a essência. Uma essência que vive nas tradições taurinas, na ligação ao cavalo, ao campino, ao mundo rural e à cultura ribeirinha, mas sobretudo nas pessoas: nas tertúlias, nos comerciantes, nas associações, nas famílias e em todos os que fazem desta festa um património colectivo.
Essa força da memória e da tradição ganhou corpo no espectáculo “Isto é Azambuja”, que juntou a alegria e o ritmo festivo das sevilhanas ao fado, ao fandango e ao folclore. Entre os momentos mais simbólicos esteve a presença de Vítor Lourenço, filho de Sebastião Mateus Arenque, etnógrafo, poeta popular, homem da cultura e caçador de tradições que dá nome a um museu em Azambuja. Aos 73 anos, Vítor dançou o fandango e declamou o célebre poema “Fandango Ribatejano”, escrito em 1959 pelo pai, figura maior da cultura ribatejana. A obra, que imortaliza a bravura dos campinos, terminou ao som do acordeão e de um fandango dançado com uma energia que continua a emocionar quem assiste.
No final do espectáculo, em declarações a O MIRANTE, Vítor Lourenço falou do orgulho e da responsabilidade de representar o legado familiar. No palco esteve também a filha, Sónia Mota, que cantou “Borda d’Água dos Meus Olhos”, também a partir de um poema de Sebastião Mateus Arenque, e a neta Maria Gomes, que participou nas sevilhanas. “Se há coisa que adoro é dançar este tipo de danças folclóricas. Gosto muito do meu Ribatejo e andei 50 e tal anos no folclore”, contou, recordando décadas de ligação a ranchos e grupos etnográficos.
Para Vítor Lourenço, dizer o poema do pai é revisitar “tudo um pouco do nosso Ribatejo”: o campino, os toiros, a dança e a harmonia de uma cultura enraizada na vida do povo. Sebastião Mateus Arenque trabalhou no campo até aos vinte e poucos anos, mas soube recolher e preservar uma riqueza etnográfica que deixou marca nos ranchos, nos desfiles, na gastronomia, nos filmes e na memória colectiva da terra. “O meu pai foi uma pessoa espectacular”, sublinhou, lembrando-o como um agregador capaz de mobilizar freguesias, grupos nacionais e internacionais e transformar Azambuja num palco vivo da tradição.
Apesar do orgulho, Vítor Lourenço reconhece que manter este património vivo é hoje um desafio. Considera que é preciso aproximar os jovens do folclore, não como quem lhes impõe uma peça parada no tempo, mas explicando-lhes o sentido do que representam. Porque a tradição, defende, só continua viva quando é compreendida, sentida e praticada. Tal como antes, lembra, quando bastava um acordeonista começar a tocar para a dança nascer naturalmente numa sala.


