Campino Daniel Silva homenageado na Feira de Maio em Azambuja
A Feira de Maio voltou a prestar tributo à figura maior do Ribatejo, numa cerimónia marcada pela memória, pela identidade ribatejana e pela homenagem a Daniel Silva, homem do campo cuja vida ficou profundamente marcada por um acidente em 2022, mas que continua a ser exemplo de coragem, dignidade e respeito pelas tradições.
A Praça do Município de Azambuja foi palco, na manhã de 31 de Maio, de um dos momentos mais simbólicos da Feira de Maio: a homenagem ao campino. Entre os Paços do Concelho, a Igreja Matriz e o Pelourinho, o concelho voltou a afirmar a sua ligação profunda à cultura ribatejana, prestando tributo a uma figura que continua a representar a coragem, o trabalho rural e a identidade da lezíria.
A cerimónia teve como ponto forte a homenagem a Daniel Silva, figura ligada ao mundo campino e à Casa Agrícola Monte Novo. O seu percurso começou nas tarefas mais humildes e exigentes do campo, como a colocação de brincos em bezerros bravos, crescendo depois na experiência e no conhecimento da campinagem. Mais tarde acompanhou Mário Gordo a apartar e fechar touros para corridas, ao lado do amigo Rodrigo Filipe, cuja memória guarda com saudade. Daniel Silva foi ainda maioral do gado bravo na ganadaria Lampreia, função que desempenhou com orgulho e dedicação, e viria depois a ser convidado para maioral de uma vacada mansa na herdade de Monte Novo. Um percurso feito sem necessidade de protagonismo, mas com a presença, a responsabilidade e o respeito que lhe valeram a admiração de todos os que com ele privaram.
A vida de Daniel mudou de forma trágica a 14 de Agosto de 2022, nas festas de Coruche, durante as provas de cabrestos. O cavalo que montava embateu no boi da guia da casa agrícola do seu patrão, provocando uma queda violenta. Seguiu-se um mês de coma, uma recuperação longa e difícil e sequelas graves. Reformado por invalidez, Daniel Silva continua a ser apresentado como um homem de coragem e dignidade, alguém que nunca deixou que a adversidade lhe roubasse o respeito conquistado ao longo de uma vida no campo. Com o apoio da família, dos amigos e de todos os que o acompanham, Daniel mantém vivo o sonho de voltar a montar o seu cavalo castanho. A sua colaboração com a Associação Cultural “A Poisada do Campino” foi também destacada como fundamental para a preservação das tradições ribatejanas.
O presidente da Câmara de Azambuja, Silvino Lúcio, sublinhou que aquele momento constitui uma homenagem “carregada de significado, de memória e de sentimento”. Para o autarca, homenagear o campino é homenagear “não apenas uma profissão, mas um modo de vida”, feito de dedicação, resistência e respeito pela terra e pelos animais.
Silvino Lúcio lembrou que é impossível falar da identidade ribatejana sem falar do campino, do cavalo, do pampilho, do colete encarnado, da lezíria e do toiro bravo. Imagens que, afirmou, fazem parte da memória colectiva do país e continuam a projectar Azambuja e o Ribatejo para além das suas fronteiras. Mas fez questão de realçar que, por detrás desse símbolo, existe “uma vida exigente e muitas vezes bem dura”, marcada por madrugadas, intempéries, longas jornadas no campo, sacrifício e enorme responsabilidade.


