Identidade Profissional | 20-03-2022 20:59

“O Estado devia apoiar mais a maternidade”

Isabel Barroso esteve ligada ao ensino da enfermagem durante mais de 30 anos

Isabel Barroso, 60 anos, administradora do serviço de Acção Social no Instituto Politécnico de Santarém.

Isabel Barroso é natural de Vila Nova da Barquinha e reside no Entroncamento. A enfermeira, professora e administradora do serviço de Acção Social do Politécnico de Santarém defende a qualidade do ensino da enfermagem em Portugal e o que mais lhe custa é ver alunos a desistir dos estudos por carências económicas. Ser mãe transformou a sua vida mas lamenta que a maternidade continue a ter impacto negativo no crescimento profissional das mulheres.

Os enfermeiros portugueses são muito cobiçados lá fora devido ao nosso desenvolvimento no ensino da enfermagem. Temos um curso de quatro anos em que 50% do ensino é feito em contexto de trabalho com acompanhamento dos professores e que tem tido um grande desenvolvimento na capacidade de investigação.
Não me chocaria se os enfermeiros tivessem que trabalhar no SNS durante algum tempo. Funcionaria como retorno do investimento que é feito na sua formação, pois, apesar de não termos um ensino superior gratuito, o que os alunos pagam não suporta nem de perto a despesa do curso. A saída destes profissionais para outros  países acontece e vai acontecer em virtude dos salários mais altos e maior reconhecimento pelo seu trabalho.
Faço parte de uma família que acreditava que as mulheres tinham que ter um papel diferente na sociedade. Hoje olho para trás e sinto-me muito grata pelos pais que tive e pela educação que me proporcionaram numa época em que a maioria das mulheres tinha menos oportunidades. Tinha 26 anos quando me tornei professora na Escola Superior de Enfermagem de Santarém, ainda o curso era profissional. Na altura éramos oito professores, hoje são 40. A escolha pela área da saúde vem da influência de uma tia paterna que era enfermeira.
Aos 18 anos fui dar aulas de Matemática para a Secundária de Coruche enquanto esperava pela abertura do curso de enfermagem. Fui muito bem acolhida por todos os professores e esta experiência fez com que me apaixonasse ainda mais pela docência. Estou há 34 anos no ensino.
Participei na transferência do hospital velho para o actual Hospital Distrital de Santarém. Trabalhei lá cinco anos, numa altura em que os serviços tinham muito poucos recursos e os enfermeiros eram escassos. Fui e serei professora toda a vida. Neste momento trabalho como administradora do serviço de Acção Social do Instituto Politécnico de Santarém. Um serviço com autonomia financeira que gere as bolsas de estudo e de colaboração, residências, alimentação, prevenção social, desporto e cultura.
A verba que o Governo atribui para bolsas de estudo não é suficiente. Custa-me que haja jovens que não ingressam no ensino superior por falta de meios financeiros mas custa-me ainda mais os que vejo desistir pelo mesmo motivo.
Portugal é muito burocrata. Como não o sou e porque acho que posso ajudar pela experiência que tenho no ensino, deixei a parte académica para ser administradora. O meu objectivo passa por criar as melhores condições possíveis para que todos se sintam bem no IPS. Estamos a criar mais camas para juntar às 281 já existentes e a estudar um apoio na área da saúde para alunos e colaboradores.
Continua a haver discriminação entre universidades e politécnicos. Cabe a nós mostrar que somos tão bons ou melhores que as universidades e apostar na qualidade e inovação no ensino e no desenvolvimento de parcerias. Era directora da Escola Superior de Saúde de Santarém quando pusemos Santarém no mapa. Em 2011 fomos o primeiro instituto politécnico a ter aprovado a nível europeu o projecto Master Mundus, que dá oportunidade a pessoas com pouco acesso ao ensino superior.
Os dias mais importantes da minha vida foram os dos nascimentos dos meus filhos. Foi uma experiência transformadora que me fez valorizar ainda mais os meus pais e sentir que estava a dar continuidade à minha própria vida. O meu marido tem sido a pessoa que mais me apoia em todos os desafios que tive ao longo da vida. Sempre dividimos tarefas. Nunca houve tarefas de homem e de mulher. Sou muito ligada à minha família.
A mulher continua a abdicar do seu crescimento profissional por estar sobrecarregada com tarefas domésticas e da maternidade. Não porque quer mas porque é obrigada a isso. A sociedade tem muito que caminhar, a começar pelo Estado que devia apoiar mais a maternidade.
Considero-me um ser relacional que gosta de conviver e conhecer pessoas novas. Fico de pé atrás com pessoas que não olham nos olhos quando falam. Não suporto mentiras nem aqueles que vivem centrados em si próprios e levam a vida a gabar-se. Acredito que todas as pessoas têm coisas boas se forem trabalhadas. Sou muito observadora e rapidamente percebo quem tenho comigo ou contra mim. Penso em tudo o que digo e nem sempre digo tudo que penso.
Sou ribatejana de nascimento e beirã por herança dos meus pais. Nasci há 60 anos em Vila Nova da Barquinha, onde vivi até terminar o liceu. Vivo no Entroncamento mas não me identifico com a cidade. Faço mais vida entre Santarém e Lisboa, onde residem a minha mãe e o meu filho.
Não sou de ir à Igreja mas tenho a minha fé. A morte do meu pai e da minha sogra foram os momentos mais difíceis da minha vida. Hoje consigo dizer que já superei essas perdas, mas não foi fácil. Terminar o meu doutoramento vai-me trazer uma enorme satisfação pessoal. É o maior objectivo que me falta cumprir na vida.

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