“É preciso começar a responsabilizar quem gere mal as associações”

A vida de José Nunes, histórico dirigente associativo de Castanheira do Ribatejo, dava um filme: começou a trabalhar aos 14 anos numa mina de gesso, foi pára-quedista, bombeiro voluntário e é motorista de passageiros na Câmara de Vila Franca de Xira. Fez do serviço à comunidade a sua bandeira e foi sob sua liderança que a Associação de Promoção Social mais cresceu e se desenvolveu. A O MIRANTE revela que vai, em Dezembro de 2024, deixar o cargo de presidente.
Os dirigentes que tomem más decisões de gestão nas associações e as deixem em profundas crises financeiras têm de ser chamados à responsabilidade pelos actos praticados. A opinião é de José Nunes, 66 anos, presidente da direcção da Associação de Promoção Social (APS) de Castanheira do Ribatejo.
O dirigente, que diz ter sempre mantido com as equipas que o acompanham uma gestão ao cêntimo para que a associação, ao dia de hoje, tenha uma contabilidade saudável e sem dívidas, lamenta que a legislação ainda beneficie os infractores. “É justo que os dirigentes que pratiquem uma má gestão tenham de pagar pelos seus actos. Alguém devia andar mais atento. Obviamente que quem herda uma situação complicada não pode ser responsabilizado, mas devia chamar-se a atenção a quem tomou decisões que deixam estas casas em verdadeiros apertos, mesmo que já tenham saído do cargo”, defende.
José Nunes confessa ficar triste que a Segurança Social acabe, indirectamente, por premiar quem pratica uma gestão danosa das instituições através do chamado fundo de socorro. “As associações que deixam para trás bastantes dívidas por má gestão são ressarcidos pelo fundo de socorro que, no fundo, lhes dá um bónus. E associações como a nossa, que tem feito uma gestão rigorosa e ao cêntimo para que nada falhe aos trabalhadores, crianças e ao Estado, ninguém reconhece”, critica a O MIRANTE.
José Nunes nasceu em Maçãs de Dona Maria, Alvaiázere, e começou a trabalhar aos 14 anos numa mina de gesso. Ainda jovem mudou-se sozinho para Lisboa para tentar fazer pela vida e começou a trabalhar numa empresa de construção civil até se ter dado como voluntário para os pára-quedistas, onde esteve dois anos.
Acabar com o serviço militar obrigatório foi um erro
Diz que a vida militar fez dele o homem que é hoje incutindo os valores da disciplina e do rigor. “Nunca trancava o meu cacifo e tinha lá dentro uma G3 com 500 munições e nunca nada desapareceu”, recorda. Não tem dúvidas em dizer que acabar com o serviço militar obrigatório foi um erro para as novas gerações. “Dava-nos uma tarimba e responsabilidade exemplares”, defende. Nunca tinha andado de avião até ter entrado nos pára-quedistas. Foi ao quarto salto – dos seis obrigatórios para ganhar a boina – que teve noção dos riscos envolvidos. Até aí, confessa, nada disso lhe passou pela cabeça.
“O curso é tão intenso e duro que queremos é saltar. A pressão psicológica era muito intensa. Só ao quarto salto olhei para o pára-quedas para ver se estava tudo bem ou com algum rasgão. Nos primeiros saltos tinha um pára-quedas às costas mas se não tivesse saltava à mesma. A pressão psicológica levava-nos a isso”, confessa. Acabou por sair da vida militar e arrependeu-se. Voltou à construção civil e decidiu ser motorista de pesados de passageiros. Candidatou-se à Câmara de Vila Franca de Xira e lá está até hoje. Recusa reformar-se por não ser capaz de estar parado e sentado no banco de jardim.
Quando se mudou para Castanheira do Ribatejo e se casou foi bombeiro voluntário na vila. Fez três mandatos como tesoureiro na junta de freguesia e há trinta anos que é presidente da APS, associação que tem hoje 600 crianças, 130 trabalhadores e um orçamento de dois milhões de euros. Quando chegou à colectividade, recorda, “não havia nada”, nem sequer bancos para todas as crianças se sentarem. A instituição cresceu, modernizou-se e é hoje um exemplo no concelho. José Nunes acredita, por isso, ter chegado a hora de sair.
“Está decidido que nas próximas eleições (em Dezembro de 2024) não voltarei a candidatar-me. As coisas têm todas um ciclo e este está a fechar-se. Temos de ser realistas. Está na hora de outras pessoas novas se chegarem à frente”, anuncia. Confessa-se uma pessoa que gosta de praticar o bem e reger a sua vida pelos valores da honestidade e sinceridade. A sua profissão de sonho era ter sido advogado. “Para a vida futura só quero continuar a ter saúde. O resto vem por acréscimo”, conclui.