Identidade Profissional | 21-03-2023 15:00

“É preciso tornar a agricultura atractiva e estabilizar preços”

“É preciso tornar a agricultura atractiva e estabilizar preços”
IDENTIDADE PROFISSIONAL
Miguel Santos viu no Ribatejo uma oportunidade de expandir a empresa familiar ao abrir uma filial na freguesia de Samora Correia

Miguel Santos é gestor comercial da Frusantos, que conta com uma filial e uma loja no Porto Alto.

Ao leme da empresa de comercialização e distribuição de produtos hortícolas desde os 21 anos enfrenta novos desafios como a inflação, preocupações com o desperdício alimentar e redução do uso do plástico. Defende a valorização do produto nacional e diz que é incompreensível como é que o Estado permite a instalação de painéis solares em solo agrícola.

O percurso escolar terminou quando percebeu que a falta de mão-de-obra era um problema que o seu pai enfrentava diariamente. Aos 16 anos Miguel Santos tomou a decisão de pousar os livros e entregar-se ao trabalho na Frusantos, empresa de produção, comercialização e distribuição de produtos agrícolas, fundada pelo seu pai há 41 anos em Sernancelhe, na região Centro. Nessa altura viajava diariamente até Lisboa numa carrinha carregada de frutas e legumes comprados a pequenos produtores para fornecer as bancas das mercearias e mercados da capital. Hoje o modelo de negócio é diferente, com as grandes superfícies a dominarem a recepção dos produtos comprados a agricultores certificados.
“Tivemos de nos adaptar à evolução. Os hipermercados dominam e são o nosso cliente principal seguindo-se a exportação, que representa cerca de 40% do volume de negócio, para países como o Canadá, Dinamarca, França, Suíça, Brasil, Estados Unidos da América e Itália”, diz a O MIRANTE, acrescentando que a castanha é o produto de maior peso na empresa que, além do pólo sede em Sernancelhe tem uma filial no Porto Alto, concelho de Benavente, e emprega, no total, 42 pessoas.
Para Miguel Santos deixar cair o negócio da família, no qual também participa o seu irmão mais velho, nunca foi opção, nem mesmo quando, aos 21 anos, devido ao falecimento do pai teve de segurar as rédeas da empresa. “Nunca pensei desistir. O meu pai dedicou muito a esta empresa e esta foi a forma que encontrei para o deixar orgulhoso e perpetuar o legado”, afirma. Foi também para homenagear o pai, João Santos, que foi criada, há quatro anos, a Saudade, marca de produtos hortícolas de “extrema qualidade” que chega, por via da exportação, aos emigrantes portugueses mas que também pode ser encontrada em hipermercados, nacionais e na loja da Frusantos no Porto Alto.

“Este país não aproveita as suas potencialidades agrícolas”
Reconhecendo que a redução do uso de plástico se afigura como necessária para a protecção do ambiente Miguel Santos refere que a Frusantos tem vindo a trabalhar nesse sentido com a aquisição de maquinaria que embala em papel. Mas, lamenta, a conversão total não é uma medida fácil de cumprir para as pequenas e médias empresas uma vez que têm investido milhares de euros em máquinas preparadas para embalar os produtos em plástico. Por isso, defende, deveria haver incentivos e linhas de apoio para que essa reconversão pudesse acontecer sem pôr em causa a sustentabilidade das empresas.
Praticamente todos os dias contacta com agricultores de todo o país, onde predomina a produção de batata, cebola, melão e melancia e de uma coisa tem a certeza: “Há cada vez menos agricultores e maioritariamente não são jovens”. Defendendo que “é preciso tornar a agricultura mais atractiva e estabilizar preços”, o empresário diz que “este país não aproveita como devia as suas potencialidades agrícolas. Não se percebe como se permite a instalação de painéis solares em terrenos agrícolas”, diz, salientando que menos compreensível é quando o Estado dispõe de terrenos baldios sem utilidade.
Sobre a valorização do que é produzido por cá Miguel Santos é peremptório: “Valorizamos pouco o produto nacional. Veja-se que quando termina o nosso produto automaticamente os preços disparam, o que demonstra uma falta de organização na qual deveria actuar o Governo para proteger os nossos agricultores”. No caso da batata, diz a título de exemplo, o preço disparou cerca de 60% este ano quando o país deixou de ter batata nacional e passou a vender importada. “Se organizássemos melhor a nossa produção não precisávamos de importar tanto”, destaca.
Trabalhar para a redução do desperdício alimentar tem sido também um dos objectivos de Miguel Santos evitando a perda ao vender, na loja do Porto Alto, inaugurada em 2021, apenas produtos a granel e com a adesão à aplicação To Good To Go que permite ao consumidor comprar cabazes de frutas e hortícolas da Frusantos que não foram vendidos por um preço reduzido.

“Pessoas não têm capacidade para sobreviver a estes aumentos”
Num ano em que o preço dos bens alimentares continua em rota ascendente e a pesar no orçamento das famílias Miguel Santos coloca-se ao lado dos agricultores ao defender que este sector tem sido muito prejudicado e não é o responsável pela subida da inflação. “Há produtos cujos preços estão a triplicar. As pessoas não têm capacidade para sobreviver a estes aumentos”, afirma, revelando que este ano a sua empresa sentiu-se na obrigação de “ajudar agricultores descapitalizados” fornecendo-lhes a semente sem cobrar nada para que o acerto seja feito apenas na altura da colheita. “Estamos em Samora Correia há 16 anos, trabalhamos com 350 agricultores de todo o país e temos a consciência que não conseguimos crescer se não estivermos ao lado deles”, diz.
Miguel Santos define-se como alguém que não desiste dos seus objectivos e que se coloca ao lado dos seus trabalhadores numa relação de proximidade e entreajuda. Ambiciona continuar a fazer crescer a Frusantos e conseguir entrar com os seus produtos em todos os hipermercados do país que, defende, precisam de “dar espaço a mais fornecedores para que estes possam, por sua vez, alimentar os agricultores com os quais trabalham”.

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