João Oliveira: o médico ortopedista que cresceu entre o andebol e o mini-mercado do pai

João Oliveira cresceu em Benavente, entre jogos de futebol e andebol e madrugadas a ajudar o pai no mini--mercado, mas sempre com o sonho de se tornar médico. Hoje, com 36 anos, é especialista em Ortopedia e Traumatologia e gere, com o irmão Jorge, a clínica Oliveira Saúde, em Benavente.
João Francisco Oliveira, natural de Benavente, carrega desde a infância a convicção de que a medicina seria o seu destino. As educadoras de infância recordam-no a afirmar, aos seis anos, que queria ser médico, e a previsão confirmou-se. Mestre pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, especializou-se em Ortopedia e Traumatologia no Centro Hospitalar Médio Tejo e, anos mais tarde, abriu uma clínica em parceria com o irmão Jorge, fisioterapeuta.
Passou a infância a jogar futebol na rua com os amigos, andebol e a ajudar o pai no mini-mercado com um talho, mas desde cedo soube que o seu futuro passaria pela medicina. A disciplina imposta pelos pais e o incentivo ao estudo foram determinantes para concretizar esse objectivo. “Recordo-me dos meus amigos, de jogar futebol na rua, que na altura era normal. Jogar no ringue, horas, até ficar de noite. Às oito da noite, em ponto, tinha que estar em casa, porque era a altura em que o jantar era servido”, relata. Mas não era apenas o futebol que preenchia os seus dias. Desde cedo ajudava o pai no pequeno negócio da família, uma experiência que, segundo conta, acabou por ser decisiva na sua escolha profissional.
O pai tinha um mini-mercado com um talho e desde cedo ajudou-o. Percebeu desde tenra idade a importância do trabalho e dos estudos, recordando-se das madrugadas em que acompanhava o progenitor ao trabalho. “Os meus pais diziam muito isso, que para não levar aquela vida de trabalho, em que às vezes me levantava às seis ou às sete da manhã para o ajudar, tinha que estudar”, conta.
A influência materna foi igualmente crucial. “A minha mãe é professora e sempre me mostrou a importância de estudar e de levar a escola a sério. Tudo isso, junto, fez com que conseguisse aquele meu objectivo profissional”, afirma. O sonho de ser médico era algo que, segundo familiares, manifestava desde criança. Uma das histórias que melhor ilustra essa vocação foi recordada recentemente por uma tia de coração, que esteve a recuperar de uma cirurgia cardíaca. “Ela disse-me, na altura, quando chegou lá a casa, que de facto sempre lhe tinha dito que queria ser médico para tratar dela quando fosse mais velho. Não me recordo dessas frases que ela refere com muito orgulho, mas de facto sempre gostei de ajudar os outros”, partilha.
Estudos levaram-no a deixar o andebol
O percurso académico de João Oliveira, 36 anos, teve momentos de altos e baixos, com uma breve fase de desinteresse durante a adolescência. No oitavo e nono anos, “por causa das hormonas”, perdeu um pouco o foco, admite. Mas o sonho de ser médico falou mais alto e, no 10.º ano, retomou a dedicação aos estudos, conseguindo entrar em Medicina.
A infância em Benavente foi também marcada pelo andebol, modalidade que praticou na Associação Desportiva e Cultural de Benavente (ADCB). Chegou a disputar duas fases finais nacionais e eliminou grandes emblemas como o Sporting Clube de Portugal, o Sport Lisboa e Benfica ou o Futebol Clube do Porto. Recebeu um convite para jogar no Sporting, mas a incompatibilidade de horários com a universidade levou-o a abdicar da modalidade. Hoje continua a praticar desporto até porque o recomenda aos seus pacientes, nomeadamente natação duas vezes por semana, uma prática que combina com corrida ou musculação.
Foi na faculdade que encontrou o gosto pela Ortopedia, influenciado pela paixão pela anatomia e pela proximidade com o irmão, que estudava Fisioterapia. “Passava todas as horas vagas a estudar anatomia e acabou por ser convidado para monitor da disciplina durante três anos. A transição para a Ortopedia foi natural, atraído pela combinação entre medicina e cirurgia. “A Ortopedia desafia-nos diariamente, porque cada paciente e um caso diferente”, explica.
O internato foi realizado no Centro Hospitalar Médio Tejo, complementado por vários estágios em hospitais de referência, como o Hospital de São José e o Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra, abrangendo áreas como cirurgia da mão, coluna, ortopedia infantil e tumores do aparelho locomotor. Em 2017, quando ainda era interno de 5.º ano, decidiu abrir uma clínica em Benavente com o irmão. “Ele era mais avesso ao risco, mas eu gosto de enfrentar desafios”, diz. O crescimento foi gradual e sustentado. “Começámos com um fisioterapeuta e hoje temos cinco. Os pacientes têm confiado no nosso trabalho e isso tem-nos permitido crescer”, conta.
A procura crescente na Oliveira Saúde, em Benavente, tem levado a equipa a ponderar um alargamento das instalações, de modo a continuar a garantir um atendimento de qualidade. João Oliveira recusa tratar os doentes como clientes. “Continuamos a chamá-los pacientes ou utentes, porque o nosso papel é ajudar e não prestar apenas um serviço”, sublinha.
“A saúde precisa de uma boa coexistência entre o público e o privado”
Sobre o equilíbrio entre o sector público e privado na saúde, considera que ambos são necessários para dar resposta à crescente procura por serviços de qualidade, especialmente numa população envelhecida e cada vez mais exigente. “A saúde precisa de uma boa coexistência entre o público e o privado. O SNS é um grande avanço, mas não consegue dar resposta a tudo”, defende.
Quanto ao futuro da medicina, acredita que a Inteligência Artificial (IA) terá um papel crescente, mas sem substituir os médicos. “Ainda estamos longe de ter IA a fazer diagnósticos complexos. Na cirurgia, existem avanços, como o robô Da Vinci, mas sempre como assistentes e não substitutos dos cirurgiões”.
Actualmente a viver em Leiria, João Oliveira divide-se entre a vida profissional e familiar. Casado e com duas filhas, de três e cinco anos, tem mais um filho a caminho. Com cada vez menos tempo livre, o xadrez é a actividade a que mais se dedica. A escolha da cidade de Leiria prendeu-se com a busca por qualidade de vida, longe dos custos elevados de Lisboa, mas mantendo a dinâmica urbana. Considera Leiria uma cidade jovem e em crescimento, onde se sente integrado.
Não se desliga de Benavente, vila pela qual nutre especial carinho e onde regressa uma vez por semana por motivos profissionais. É apaixonado pela lezíria e pela qualidade de vida que se mantém preservada em Benavente. Olhando para o percurso, não tem dúvidas: valeu a pena o esforço de anos de estudo e dedicação. “A motivação diária é essencial para fazermos um bom trabalho. E enquanto os pacientes confiarem em nós, continuaremos a trabalhar para dar a melhor resposta”.