Partos em ambulâncias contribuem para o descrédito do SNS
O comandante dos Bombeiros de Arruda dos Vinhos construiu o seu percurso ao longo de décadas assumindo responsabilidades crescentes no socorro, enfrentando desafios humanos, operacionais e estruturais. Hoje, tem uma visão realista sobre as dificuldades do sistema, a importância do compromisso e o papel dos bombeiros na protecção diária da comunidade.
O Serviço Nacional de Saúde (SNS) está cada vez mais doente e quando começam a nascer tantas crianças em ambulâncias, por falta de disponibilidade das urgências de obstetrícia e ginecologia do Hospital Vila Franca de Xira e de outras unidades de saúde, algo está mal e precisa de ser melhorado. O lamento é de Pedro Pereira, comandante dos Bombeiros Voluntários de Arruda dos Vinhos, que considera particularmente grave a realidade de bebés a nascerem em ambulâncias. Embora situações pontuais sempre tenham existido, a frequência actual é, na sua opinião, inaceitável, contribuindo para o descrédito crescente no Serviço Nacional de Saúde e empurrando muitas pessoas para o sector privado.
“É impossível continuarmos com o SNS desta forma. Recebemos constantemente a mensagem de que a obstetrícia em VFX está fechada. A quantidade de serviços que transferimos para Santarém, Lisboa, Torres Vedras empata os nossos veículos e os nossos homens. Um serviço de 45 minutos passa a demorar mais de duas horas, causando grandes transtornos”, lamenta a O MIRANTE.
Pedro Pereira tem 46 anos, é de Alenquer, terra onde vive, mas já se considera um arrudense. A sua vida profissional esteve ligada ao ramo automóvel, um sector pelo qual sempre teve interesse e no qual trabalhou durante vários anos, passando por diferentes concessionárias. No entanto, paralelamente a esse percurso profissional, existia já um compromisso profundo com o voluntariado e o serviço público.
Em 1997 entrou para os Bombeiros Voluntários de Alenquer. A decisão não nasceu de um “chamamento”, no sentido romântico da palavra, mas sim de um gosto pessoal muito claro: a vontade de prestar serviço público e de contribuir para a salvaguarda de pessoas e bens. Para Pedro Pereira ser bombeiro começa na paixão pelo que faz. Diz que é necessário ter espírito de dedicação, vontade cívica e uma motivação genuína para ajudar os outros.
Perder um familiar quando se está ao serviço
Ao longo dos anos enquanto bombeiro, viveu momentos marcantes, felizes e infelizes. Para o comandante, as histórias felizes no mundo dos bombeiros estão quase sempre ligadas ao sucesso no socorro. Uma das mais marcantes aconteceu quando conseguiu reanimar uma senhora com mais de 70 anos, um feito raro, que ganhou ainda mais significado pelo agradecimento sincero que recebeu da família.
Contudo, a realidade do socorro traz também experiências profundamente dolorosas, como o dia em que, em 2010, estava de serviço como voluntário e recebeu a notícia de que a própria mãe se encontrava em paragem cardiorrespiratória. Nesse caso, não conseguiu reverter a situação, uma experiência devastadora que evidencia o peso emocional da profissão e a necessidade de um grande “estofo mental” para lidar com a dor, sobretudo quando envolve familiares. “Este é um trabalho desafiante e preocupante ao mesmo tempo. Sobretudo porque existe muita dificuldade no recrutamento”, explica.
Para o comandante de Arruda dos Vinhos, os bombeiros sentem, sofrem e carregam as experiências do trabalho e da vida consigo. No seu dia a dia, o que mais o revolta é ver o Serviço Nacional de Saúde a não funcionar da forma que deveria. A constante falta de condições, os encerramentos frequentes de serviços hospitalares, como a obstetrícia e as urgências pediátricas do Hospital Vila Franca de Xira criam enormes constrangimentos.
Esta realidade é particularmente difícil para uma associação de bombeiros de dimensão média, como a de Arruda dos Vinhos, que não dispõe de recursos ilimitados. A ausência de meios obriga frequentemente a pedir reforços a outras corporações, explica. Para Pedro Pereira, o problema não é pontual nem local, mas sim nacional. Trata-se de uma crise estrutural que afecta todo o país e que não se resolve “fazendo omeletes sem ovos”.
Profissionalização é o caminho
Pedro Pereira está ligado à corporação de Arruda dos Vinhos há cerca de 13 anos e, no último ano e meio, assumiu o cargo de comandante, após ter sido adjunto de comando e comandante interino, na sequência da saída do anterior comandante por este ter atingido o limite de idade. Assumir o comando representou um desafio significativo. Um trabalho que antes era mais operacional passou a envolver uma secretária cheia de papéis, preocupações constantes com recursos humanos, recrutamento, viaturas e sustentabilidade financeira.
Com o aumento do custo de vida e das responsabilidades pessoais, tornou-se mais difícil atrair voluntários, defendendo a necessidade crescente de profissionalização dos bombeiros. E isso só é possível se existirem condições dignas, salários justos e reconhecimento da profissão como altamente desgastante - física, psicológica e emocionalmente.


