Genestal Ferreira está há 45 anos no comércio de carros usados
Chegou a vender 49 automóveis num mês, mas com as mudanças no mercado o ritmo foi abrandando. Já a vontade com que serve cada cliente continua a mesma. Genestal Ferreira tem 75 anos, está há 45 anos no ramo e este mês de Janeiro comemora três décadas à frente do stand Taxocar, no Cartaxo.
Genestal Ferreira, proprietário há 30 anos do stand de automóveis Taxocar, em Pontével, no Cartaxo, olha para o sector automóvel, ao qual está ligado há 45 anos, com a sabedoria e experiência de quem já atravessou diferentes fases do mercado. “Hoje, o cliente procura mais carros novos, de gama alta”, o que contrasta com a altura em que chegava a vender 30 automóveis usados num mês. “Houve um ano, pelo Natal, em que me propus a vender 50 e cheguei aos 49 carros vendidos”, recorda dos tempos em que geria um stand em Lisboa. “Todos os dias chegava alguém a Santa Apolónia para ir comprar um carro, vendia-se muito”, recorda.
Também os veículos eléctricos, prossegue, são agora a escolha de muitos. E, quanto a estes, tem as suas reservas. “Acabar com a gama dos diesel e gasolina para entrar pelos eléctricos não sei se será uma boa opção. Repare-se que já não é tão barato, como no início, comprar um eléctrico”, adverte, sublinhando que a autonomia e o número de postos de carregamento disponíveis revelam falta de preparação para essa transição.
Do que não duvida é que há carros que duram uma vida. “Claro que também tem a ver com as manutenções que se fazem, mas não duvido que os carros mais antigos são mais resistentes e duram muito mais do que os novos. Estes, por qualquer coisa, acendem uma luz e é um problema”, afirma. Da Rua dos Capeludos, com vista para a Estrada Nacional 3, Genestal Ferreira costuma reparar na quantidade de reboques que ali passam com carros seminovos avariados. “Olhe, olhe, está a ver? Ali vai mais um carregado deles”, atira enquanto aponta pelo vidro da autocaravana onde nos instalou para esta conversa, a dias de se assinalar o 30º aniversário da Taxocar, a 6 de Janeiro.
Aos 75 anos, Genestal Ferreira continua a vibrar quando concretiza uma venda, que é por si entendida como sinónimo de ver sair do seu stand um cliente satisfeito. Honestidade é, como diz, o seu nome do meio. “Era incapaz de enganar alguém ou de esconder algum defeito que o carro tenha”, garante. É por isso que sempre que compra um automóvel para pôr à venda o testa durante um tempo, “para saber em que condições está e resolver problemas” caso existam. “Nunca enganei ninguém”, vinca.
O mesmo não pode dizer de alguns clientes no passado que não cumpriram com as suas obrigações. “Tenho 170 mil euros na rua, por receber. Isso deixa-me triste, mas sei que é dinheiro que não vejo mais. Essas pessoas agora passam por mim na rua e nem me conhecem”, diz. Foi pelos “facilitismos” do passado que há uns anos mudou as regras. “A pessoa só leva o carro se trouxer dinheiro na mão. Se tem, óptimo. Se não tiver, que vá ao banco fazer um crédito ou eu também o faço aqui, através de uma financeira”, explica, vincando que pôs fim ao “pode levar o carro e vai pagando todos os meses”.
Dos leilões às provas de perícia
Em 45 anos de profissão muitas mudanças se deram e uma das que lhe deixa mais saudades é a dos leilões a que ia para comprar carros. Havia, descreve, uma certa magia no processo de licitar presencialmente, ladeado de outros vendedores que não entendia como rivais. “Havia bom ambiente, ninguém se chateava se não conseguia levar o carro. Comprei muitos assim, em leilões, e, graças a Deus, não fiquei com nenhum. Hoje em dia, os leilões são por computador, mas não percebo nada disso. Não compro carros online, porque não sei e porque gosto de ver o que compro”, refere. Reconhecendo que actualmente é importante a presença no digital, conta com a ajuda de um dos netos que, “de vez em quando”, publicita automóveis ou motas na página do stand, numa conhecida rede social.
Antes de se estrear no ramo automóvel, Genestal Ferreira, natural do Cartaxo, esteve empregado em empresas onde trabalhou como torneiro mecânico. Numa delas, em Setúbal, esteve 18 anos, até ao seu encerramento. Foi, aliás, com a indemnização que recebeu que investiu nos automóveis, num stand em Lisboa e, mais tarde, abriu um café em Lisboa, que era gerido pela sua esposa. Foi campeão nacional de provas de perícia, o seu passatempo de eleição que lhe permitiu conhecer o país de lés-a-lés. “Foram 44 anos a correr” que deixam “saudade”. Deles ficam as boas memórias, os amigos que se fizeram e um Mini amarelo, estacionado na frente do stand. Embora a vontade de se retirar cresça a cada ano, Genestal Ferreira garante que tem vontade de continuar a servir bem os clientes.


