Identidade Profissional | 21-01-2026 07:00

Ana Carvalho: “Trabalhar e estudar ensinou-me a não baixar os braços”

Ana Carvalho: “Trabalhar e estudar ensinou-me a não baixar os braços”
IDENTIDADE PROFISSIONAL
Ana Carvalho desempenha funções administrativas na empresa agrícola Borrego Leonor & Irmão, em Almeirim - foto O MIRANTE

Num sector onde o contacto com a terra continua a ser essencial, há funções que se fazem longe dos campos, mas sem as quais nada acontece. É nesse território menos visível que Ana Carvalho construiu o seu percurso profissional, conciliando rigor, empatia e capacidade de decisão ao serviço de uma empresa com mais de meio século de história no Ribatejo.

Ana Catarina Montez Carvalho nasceu a 2 de Junho de 1984, nas Abitureiras, freguesia rural a norte de Santarém onde a agricultura fazia parte do quotidiano familiar. Cresceu entre hortas, colheitas e tarefas partilhadas com pais, avós, irmãos e primos. “Lembro-me de semear batatas, de apanhar azeitona, de plantar feijão”, recorda, sublinhando que esse contacto precoce com a terra nunca teve um carácter profissional, mas deixou marcas na forma como encara hoje o trabalho e o esforço.
A mudança para Almeirim aconteceu mais tarde, já por razões profissionais. Pelo meio ficou um percurso escolar marcado pela responsabilidade e pela autonomia. Ana Carvalho descreve-se como uma aluna aplicada, consciente desde cedo de que estudar era o seu principal trabalho. “Nunca me lembro de os meus pais me mandarem estudar. Eu sabia que tinha de ser assim”, afirma, reconhecendo a influência da mãe na forma pragmática como encara as tarefas: se é para fazer, faz-se.
Concluído o ensino secundário, sabia que o seu caminho académico passaria por Santarém. A opção por uma licenciatura em Gestão de Empresas, na Escola Superior de Gestão e Tecnologia de Santarém, foi acompanhada por uma realidade exigente, a de estudar e trabalhar em simultâneo para garantir o pagamento das propinas. “Trabalhar e estudar fazia com que me empenhasse, porque queria acabar o curso o mais cedo possível”, recorda. Durante vários anos conciliou aulas com dois part-times, um numa grande superfície comercial e outro em funções administrativas. As férias coincidiam com épocas de exames, e o tempo livre era praticamente inexistente. “Ou estava a trabalhar ou estava a estudar”, resume.
Esse período moldou não só a sua ética de trabalho, mas também a sua relação com o risco. Apesar dos conselhos prudentes dos pais, que privilegiavam a estabilidade, Ana Carvalho optou muitas vezes por arriscar quando sentia que podia evoluir. “Se tinha de arriscar, tinha de ser naquela altura”, explica, reconhecendo que essa postura implicava receios, mas também oportunidades.
O seu percurso profissional passou essencialmente pela área da gestão de stocks, primeiro no retalho e mais tarde em funções de maior responsabilidade. Foi já nesse contexto que surgiu, quase por acaso, a ligação à Borrego Leonor & Irmão S.A.. A empresa procurava alguém para apoiar a administração na gestão de encomendas, fornecedores e stocks, num momento de crescimento e reorganização interna, incluindo a abertura de novas lojas e a consolidação da presença no Ribatejo e no Alentejo.
Ana Carvalho lembra com clareza a reunião em que lhe foi apresentada a proposta. A necessidade de substituir temporariamente uma colaboradora da administração, aliada à sua experiência anterior, acabaram por ser determinantes. Aceitou também por uma razão pessoal. Depois de muitos anos de atendimento ao público e gestão de equipas, sentia necessidade de um trabalho menos exposto e mais analítico.
A entrada numa empresa agrícola trouxe surpresas. Apesar de alguma familiaridade com o sector - o marido trabalha na área -, impressionou-a a dimensão do número de produtores dependentes da actividade agrícola na região e o grau de organização interna de uma empresa familiar com mais de 50 anos.

A gestão de pessoas é o maior desafio de qualquer empresa
No apoio à administração, Ana Carvalho lida diariamente com decisões que exigem ponderação e visão global. Actualização de tabelas de preços, contactos com fornecedores, gestão de produtos com prazos de validade ou sujeitos a restrições legais fazem parte da rotina. A componente técnica da agricultura não é a sua área de formação, mas o contacto permanente com a legislação e os produtos obrigou-a a aprender uma nova linguagem: herbicidas, fertilizantes, substâncias autorizadas ou interditadas, exigências ambientais impostas pela União Europeia.
“Antes de tomar uma decisão, é preciso pensar nos prós e nos contras”, sublinha, reconhecendo que muitas vezes a resposta certa não é imediata. Para além disso, considera que a gestão de pessoas continua a ser o maior desafio de qualquer empresa. “Lidar com pessoas é sempre o mais complexo”, diz, defendendo a importância de manter serenidade mesmo nos dias mais complicados.
A expansão da empresa para diferentes regiões do país trouxe novos desafios logísticos. As realidades do Ribatejo e do Alentejo nem sempre coincidem, e dar respostas rápidas em períodos de campanha agrícola exige um permanente “jogo de cintura”, seja na distribuição, na assistência técnica ou na articulação com oficinas e equipas no terreno.
Apesar de se situar num ponto intermédio entre colaboradores mais antigos e gerações mais recentes, Ana Carvalho vê o seu papel como o de alguém que ajuda a fazer a ponte entre experiências, facilitando a adaptação à mudança sem perder a identidade da empresa. Reconhece que o crescimento traz benefícios, mas também “dores”, sobretudo para quem viveu outras fases da organização.
Olhando para trás, não fala em grandes conquistas, mas em coerência. Orgulha-se de não ter ficado “perdida”, de se ter feito à vida, de ser uma “menina esforçada” com os meios disponíveis e de ter sabido mudar quando foi necessário. Aos mais novos, e aos próprios filhos, deixa um conselho simples. Se não é possível ter tudo, é preciso procurar caminhos e não baixar os braços.
Residente em Fazendas de Almeirim, considera que a região oferece boas condições de vida, embora reconheça haver desafios na conciliação entre trabalho e família, nomeadamente nas respostas fora dos horários escolares. No futuro quer voltar a estudar, aprofundar conhecimentos em contabilidade e, talvez, em sociologia, uma área que sempre a fascinou.

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