Identidade Profissional | 04-02-2026 21:00

Um historiador a dar os primeiros passos na política em Alenquer

Um historiador a dar os primeiros passos na política em Alenquer
IDENTIDADE PROFISSIONAL
Filipe Rogeiro defende que quem apostar no património só terá ganhos políticos - foto O MIRANTE

Filipe Rogeiro, 56 anos, é historiador e trabalha na Câmara de Alenquer desde 1993, nas áreas da História e do Património. Dirigiu o Museu Municipal Hipólito Cabaço e é actualmente responsável pelo Arquivo Histórico Municipal. É autor de várias monografias e artigos publicados no âmbito da História e do Património, mantendo uma intervenção activa na vida cultural e cívica do concelho. Politicamente, é vereador eleito pelo movimento TODOS, vogal da Liga dos Amigos de Alenquer e, entre outras participações, membro da Comissão de Festas do Império do Divino Espírito Santo.

Filipe Rogeiro escolheu a Igreja de São Pedro, na vila de Alenquer, para conversar, por razões profundamente pessoais. Foi ali baptizado com apenas 24 dias, a 24 de Dezembro de 1969, naquela que descreve como a sua primeira apresentação pública, além de ter sido também naquela igreja que casaram os seus pais. É católico, mas não frequenta a missa. O seu cepticismo leva-o a olhar para as coisas com base em factos, mais do que em transcendência. Indiferente a provocações, dorme tranquilamente e preocupa-se permanentemente com a consciência e com as repercussões que os actos pessoais têm na vida dos outros.
Natural de Alenquer, desde a infância se interessou pela maior figura do concelho: Damião de Góis. Criado entre as avós, ouvia histórias dos antepassados e convivia com objectos antigos que alimentaram ainda mais a curiosidade pelo passado familiar e pela própria terra onde cresceu e estudou. Da juventude, o historiador recorda que o Sporting Clube de Alenquer era a sua segunda casa. À falta de equipamentos que existia à época juntou-se o fecho do cinema de Alenquer, quando tinha 13 anos, e as brincadeiras faziam-se na rua, no rio, na Lapa dos Morcegos, nas casas abandonadas e nas matas.

Imprensa local e participação cívica
A ligação à imprensa local nasce também na infância. Filipe Rogeiro recorda os tempos em que via fazer jornais de bairro, acompanhando revisões de provas tipográficas e a dactilografia dos textos enviados pelos colaboradores. Cresceu, literalmente, a olhar para a imprensa local, passando a encará-la como uma das expressões mais nobres da vida cívica. Chegou a fundar um jornal, O Clarim, em Arruda dos Vinhos, e traz também uma herança familiar ligada ao jornalismo: o pai foi director do Jornal de Alenquer durante nove anos e colaborou com títulos como O Ecos de Alenquer e o Nova Verdade.
O primeiro passo na vida associativa deu-se na Escola Secundária Damião de Góis, quando integrou uma lista para concorrer à associação de estudantes. Já estava a trabalhar na Câmara de Alenquer quando participou na fundação da Associação de Estudos Alenquerenses.
Questionado sobre episódios marcantes e esquecidos da história do concelho, Filipe Rogeiro sublinha que, mais do que grandes revelações, importa recuperar figuras e contextos que caíram no esquecimento. Um exemplo é Bento Pereira do Carmo, figura do liberalismo, amigo de D. Pedro IV, antigo chefe do governo e autor de um manuscrito sobre a história local, hoje praticamente desconhecido apesar de dar nome a uma rua da vila.

Território, património e ordenamento
Para o historiador, um dos maiores problemas do concelho é a dispersão do território e o desordenamento urbanístico, sobretudo na zona sul, onde se misturam de forma quase indiscriminada áreas agrícolas, industriais e urbanas. Considera que a ausência atempada de instrumentos de ordenamento teve consequências difíceis de inverter. “Há falta de instrumentos para tratar os centros históricos, não só de Alenquer, mas de Meca, Aldeia Galega, Merceana, e que correm muito mais riscos de se descaracterizar e de desaparecer, se não houver preservação”, sublinha.
Defende que quem apostar no património só terá ganhos políticos. “Podemos tentar promover Alenquer fora de portas porque tem coisas muito boas, mas as pessoas hoje têm muito mais sensibilidade e capacidade crítica, visitam outros sítios e percebem a diferença entre as localidades onde se investiu no património. Fazem comparações, é inevitável”, refere, acrescentando que “houve alheamento político” ao não se olhar de forma uniforme para toda a mancha urbana da área antiga de Alenquer.
Entre as várias investigações em que esteve envolvido, destaca a identificação da casa onde Damião de Góis morreu. Um trabalho que demorou cerca de 20 anos, baseado na análise exaustiva de documentos notariais e confrontações de propriedades. Esteve também ligado à criação do Museu Damião de Góis e das Vítimas da Inquisição, no âmbito da adesão de Alenquer à Rede de Judiarias.

Política e renovação do poder
Filipe Rogeiro garante que nunca se sentiu desconsiderado e que nunca ambicionou mais do que ser um prestador de informação, desde logo no arquivo histórico ou no museu municipal. Após 33 anos a trabalhar na Câmara de Alenquer, assegura que já não há assuntos de história local que não tenham passado por si. Com vários artigos históricos publicados e outras tantas participações em livros e na imprensa, não quer deixar no sótão uma vida de trabalho. Espera, por isso, vir a ter tempo para organizar o arquivo pessoal e partilhá-lo com as pessoas.
Sem filiação partidária, integra o projecto político do TODOS, por acreditar na alternância e na renovação do poder. Desde as últimas autárquicas é vereador da oposição na Câmara de Alenquer, mas admite que devia ter enveredado por uma participação política muito mais cedo do que fez, aos 55 anos. “Acho que podia ter mudado a minha vida e a da minha comunidade. Mas entendi que, do ponto de vista deontológico, não devia andar a misturar as coisas. Cheguei à conclusão de que a vida tem um prazo e que, se queremos verdadeiramente influenciar, temos de batalhar por um lugar onde possa, de facto, fazer-se essa influência. E achei que do outro lado já não conseguia”, sublinha.

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