Isaltina Gomes: o rosto por detrás do supermercado-pastelaria que une a vila do Tramagal
Com um percurso marcado pelo trabalho desde cedo, Isaltina Gomes é hoje o rosto da Pastelaria-Supermercado A Vila, um espaço que se tornou parte da vida quotidiana do Tramagal.
Quando, há quatro anos, abriu um minimercado no Tramagal, Maria Isaltina Gomes não imaginava que dali nasceria a Pastelaria-Supermercado A Vila que, após dois anos de vida, é um ponto de encontro diário e um exemplo de como o comércio de proximidade continua a ser bem-sucedido, sobretudo em meio rural.
Com o sonho de infância de um dia ter a sua própria pastelaria, a ideia de juntar supermercado e pastelaria surgiu quase de forma intuitiva, no momento em que viu o edifício onde hoje funciona o estabelecimento. O espaço parecia-lhe demasiado grande para ser apenas um mercado e rapidamente começou a imaginar outra dinâmica: um café com pastelaria, onde as pessoas pudessem tomar o pequeno-almoço ou beber um café antes ou depois das compras.
O imóvel tinha também uma forte carga simbólica, tendo funcionado ali um dos primeiros supermercados do Tramagal, encerrado há mais de 50 anos, despertando hoje memórias antigas em muitos clientes. A empresária afirma que o nome ‘A Vila’ traduz a ligação do espaço ao território e a proximidade à população, com um supermercado e um café ao serviço de todos, “onde ninguém é estranho” e onde o objectivo é “servir todas as pessoas da vila, porque isto é o supermercado da Vila e o café da Vila”.
Natural de São Miguel do Rio Torto, Isaltina Gomes cresceu numa família simples, sendo a filha do meio de uma mãe empregada doméstica e de um pai paraquedista, cujos ensinamentos continuam presentes na sua vida, sobretudo o optimismo do pai, já falecido, cuja fotografia mantém emoldurada no estabelecimento, em sua memória. Começou a trabalhar cedo, aos 14 anos, num café, restaurante e hotel em Tomar, onde viveu num quarto partilhado com cinco raparigas. Uma experiência que recorda com carinho e que marcou o início do sonho que viria a concretizar mais tarde.
Aos 16 anos emigrou sozinha para a Suíça, onde tinha familiares e trabalhou a cuidar de crianças, tendo ao longo da vida passado por vários empregos e concluído o ensino secundário em aulas nocturnas, depois de ter interrompido os estudos para trabalhar. Contudo, foi a experiência de mais de dez anos como auxiliar de acção directa no Centro Social Paroquial Nossa Senhora da Oliveira que mais marcou a forma como hoje se relaciona com as pessoas. “Esse trabalho ensinou-me muito da vida e, por causa dele, as pessoas conhecem-me e confiam em mim, o que ajuda muito o meu negócio. Há idosos que ainda me vêm ver e perguntam-me quando é que eu volto”, conta, entre risos.
Desafios, risco e paixão pelo trabalho
O caminho até à situação actual não foi isento de receios. O investimento e o risco associados ao primeiro minimercado trouxeram medo e incerteza, mas a resposta positiva da comunidade acabou por ser positiva e deu-lhe confiança para avançar para um espaço maior, que hoje encara como uma conquista, construída passo a passo. Na Pastelaria-Supermercado A Vila encontra-se um pouco de tudo, desde alimentos e produtos de higiene e limpeza, a gás, refeições simples e serviço de café e pastelaria. Há atendimento à mesa, take-away e ainda um ponto de recolha de encomendas para várias transportadoras, um serviço que a proprietária considera uma mais-valia, por também atrair clientes de localidades vizinhas.
A proximidade com os clientes, sobretudo os mais idosos, é uma das grandes marcas do negócio, sublinhando Isaltina Gomes que esse factor “marca toda a diferença”. “Aqui apoiamos os idosos e ajudamos sempre que precisam de algo. Há muitos que nunca tinham ido a um café, mas como me conhecem, vêm, tomam um chá e conversam um bocado, o que é muito bom”, explica. Empreender numa vila tem também as suas particularidades e reconhece que, em meios pequenos, “vive-se muito a vida do outro”, o que exige cuidado na forma de estar, apontando ainda a carga fiscal e o aumento do custo de vida como entraves a pequenos negócios. “Conseguir fechar o mês com tudo pago, incluindo salários, já é uma vitória”, sublinha.
“Não se deve ter medo de arriscar”
Fora do trabalho, o tempo é escasso. Ainda assim, cuida da sua quinta e dos seus animais, guardando pequenos momentos para si, como as escapadelas de Verão a Monte Gordo com o filho ou um fim-de-semana de spa por ano. O maior desafio do dia-a-dia para si é a dificuldade em encontrar funcionários disponíveis para um ritmo de trabalho intenso, com abertura diária, fins-de-semana e feriados incluídos, mas salienta que a equipa que tem funciona num espírito de entreajuda, sem hierarquias rígidas.
Aos 46 anos já começa a sentir o desgaste físico, com dias longos que começam cedo e terminam já noite dentro, mas a proprietária afirma que o gosto pelo contacto com as pessoas fala mais alto e mantém-na motivada. Para o futuro, os planos passam por algumas renovações no espaço, mas mantém os pés bem assentes na terra, sendo o maior orgulho destes quatro anos “ter ultrapassado as dificuldades e dar trabalho a quem precisa”. No fundo, espera que quem entra no espaço se sinta bem atendido e confortável, defendendo que não se deve ter medo de arriscar, porque “a vida é feita de riscos e, se não arriscamos, nunca vamos saber”.


