Pedro Duarte: uma vida entre a indústria, o karaté e a formação de pessoas
Pedro Duarte, 52 anos, natural de Alverca, trabalha há três décadas na metalomecânica mas é conhecido na comunidade por ser sensei de karaté. Fundador de uma associação criada em plena pandemia, lidera hoje uma escola com cerca de 90 atletas, dos 3 aos 57 anos, e tem um percurso marcado pela disciplina, respeito e formação humana.
Não há uma fórmula única para formar campeões, sendo essencial perceber quem são os atletas, quais os seus objectivos e potenciar as melhores características de cada um. A convicção é de Pedro Duarte, treinador de karaté da Póvoa de Santa Iria que já formou dezenas de campeões internacionais e é um rosto conhecido da modalidade no concelho.
Nem todos os atletas da escola treinam para competir ao mais alto nível, confessa, já que muitos praticam karaté apenas por gosto, saúde ou formação pessoal. No entanto, um dos principais objectivos é criar um ambiente de família, onde os alunos se sintam bem e seguros. Pedro Duarte nasceu em Alverca, onde cresceu e mantém fortes ligações pessoais e profissionais. Tem 52 anos e trabalha há cerca de 30 anos na área da metalomecânica na Sandometal.
O seu percurso profissional começou cedo, através de um curso de aprendizes que conciliava trabalho durante o dia com estudos à noite. O primeiro emprego foi na extinta Previdente, também no Sobralinho, onde a mãe trabalhava e que marcou profundamente a realidade industrial da região. Pedro Duarte recorda-a como uma unidade enorme, empregadora de muitas famílias. Mais tarde, frequentou um centro de formação e concluiu a formação em metalomecânica. Quando era criança sonhava ser futebolista. Jogou futebol federado e chegou a viver uma fase mais séria na modalidade, próxima do contexto quase profissional.
No entanto, apesar de gostar da modalidade, nunca se sentiu verdadeiramente motivado. “O futebol é demasiado violento. Pela falta de respeito que há, dentro e fora do campo, não se adequa à minha maneira de estar na vida. Apesar de gostar muito de jogar futebol não gostei da experiência de jogar quase a nível profissional. Nisso o karaté é muito diferente. Há respeito pelo próximo, pelos mais velhos. Há valores e comportamento a seguir”, explica a O MIRANTE.
Nunca é tarde para abraçar novos desafios
O karaté surgiu por acaso, ainda na adolescência. Tinha colegas da escola secundária que praticavam a modalidade e um dia assistiu, da janela de casa, a uma demonstração em Alverca. A organização, o rigor e a postura dos praticantes impressionaram-no. Decidiu procurar aulas e iniciou-se em Alverca, aos 17 anos, numa idade que apesar de tardia reforça um dos seus lemas de vida: nunca é tarde para começar uma nova caminhada pessoal e profissional.
Evoluiu até cinturão negro e encontrou na modalidade valores que o marcaram profundamente: respeito, disciplina, organização, saber estar e consideração pelo outro. Para si, estes princípios contrastam com o que vê actualmente na sociedade, onde sente falta de empatia e de civismo e de pequenos gestos de bondade no quotidiano. A certa altura, na Filarmónica de Alverca, começou a dar aulas de karaté e rapidamente abraçou meia centena de alunos. Em 2020, em plena pandemia, decidiu criar uma associação dedicada exclusivamente a ensinar karaté, a EKSPD - Escola de Karaté Shotokan Pedro Duarte, na Póvoa de Santa Iria, que hoje tem 90 atletas a competir, com idades entre os 3 e os 57 anos. Alguns alunos acompanham-no desde a infância e são hoje adultos.
Ao longo dos anos, a escola formou campeões nacionais, europeus e mundiais, estimando entre 15 e 20 títulos internacionais de maior relevo já obtidos. Actualmente dois atletas da escola vão representar Portugal no Campeonato da Europa no Chipre. Pedro Duarte já integrou ao longo dos anos várias equipas técnicas e acredita no desporto como ferramenta educativa, sobretudo para retirar os jovens do excesso de ecrãs. Destaca a importância de aprender a perder, a gerir emoções e a enfrentar desafios reais. Observa mudanças no comportamento das crianças, desde pequenos hábitos de organização até melhorias na escola. “O acto de saudar os presentes à entrada do dojo, por exemplo, é um gesto simples que transporta valores para toda a vida”, exemplifica.
Tira-o do sério a falta de respeito, o egoísmo e a incapacidade de reconhecer o espaço do outro. No karaté, defende que não se ensina a atacar mas sim a resolver problemas, a compreender situações e a agir da forma mais adequada, incluindo a prevenção do bullying. Se for necessário defender-se, o atleta saberá fazê-lo, mas esse não é o objectivo central. “Ao longo dos anos temos tido um grande apoio da Câmara de Vila Franca de Xira, através do programa de apoio ao movimento associativo e isso é importante para a sustentabilidade da associação, que vive essencialmente das quotas e mensalidades dos pais e dos atletas”, refere.


