Marcos Esteves ajuda a combater o medo da Matemática
Tem 27 anos, é natural de Castelo Branco mas considera-se filho de Samora Correia. Licenciado em Gestão, Marcos Esteves abriu há três anos o Centro de Explicações Alpha e assume uma missão clara: a de provar que a matemática não é um bicho-papão e que muitos dos bloqueios dos alunos nascem mais do sistema do que da falta de capacidade. Ensinar, refere, é gratificante, mas exige mais do que saber a matéria.
Quando fala de números, os olhos brilham. Quando fala de educação, a voz ganha firmeza. Marcos Filipe Cleto Esteves nasceu a 10 de Abril de 1998, em Castelo Branco, passou por Oleiros e Sesimbra, mas foi em Samora Correia que cresceu a sério. “Todos os meus hábitos, os meus costumes, são Samora”, garante. Foi aí que fez amizades, que brincou “ao boi”, que se tornou aluno aplicado e que, anos mais tarde, decidiu investir no seu próprio projecto educativo.
Enquanto estudante, sempre se destacou nas áreas científicas. Matemática, Físico-Química e Ciências eram terreno confortável. O português foi o “calcanhar de Aquiles”, admite, mas nunca comprometeu o desempenho global. “Sempre fui bom aluno”, resume. Curiosamente, nunca frequentou explicações, por limitações financeiras dos pais e por opção própria. No 12.º ano também decidiu preparar-se sozinho para os exames nacionais.
Essa autonomia viria a marcar-lhe o percurso. Desenvolveu métodos próprios de estudo, rotinas e estratégias que, mais tarde, transformaria em ferramenta pedagógica. Hoje, no Centro de Explicações Alpha, um dos objectivos é precisamente esse: ensinar os alunos a deixarem de depender do explicador. “Já me aconteceu chegarem ao fim de um ou dois anos e dizerem: Marcos, já não preciso disto. E eu digo: perfeito”.
A matemática tornou-se paixão no 9.º ano, graças a uma professora, Teresa Pinto. “Ela gostava mesmo de ensinar”, recorda. Ao início estranhou-lhe o entusiasmo; depois, percebeu que aquele gosto genuíno fazia a diferença. A partir daí, a relação com a disciplina mudou para sempre. No secundário, mesmo com professores que considera menos marcantes, manteve-se “agarrado à matemática” e acabou por seguir Gestão na faculdade.
A entrada no ensino superior trouxe alguma desilusão. Esperava aprofundar o empreendedorismo, mas sentiu que o discurso se centrava demasiado no lucro e pouco no acto de criar. “Passei de querer aprender, para querer despachar cadeiras”, confessa. Ainda assim, concluiu a licenciatura e começou a dar explicações para ganhar “uns trocos”. A experiência profissional numa empresa da região não correu bem, e o regresso ao ensino, como explicador, ganhou força.
Foi há cerca de quatro ou cinco anos que “o chip mudou”. Percebeu que reunia três factores decisivos: gosto pelos números, capacidade para ensinar e bases sólidas de gestão. A abertura do Centro Alpha, em Fevereiro de 2023, foi consequência natural. As competências adquiridas na faculdade revelaram-se, afinal, fundamentais para estruturar o negócio e evitar erros comuns.
O crescimento do centro tem sido sustentado, muito por recomendação boca-a-boca. Marcos Esteves não esconde que a fragilidade do ensino público tem alimentado a procura. “Não acredito numa turma com 10 ou 15 negativas a Matemática. Para mim, isso é falha do sistema, não dos alunos”. Defende que todos têm capacidade para atingir pelo menos uma nota de passagem até ao 9.º ano, desde que exista acompanhamento adequado.
Aponta a falta de orientação vocacional precoce como um problema estrutural. Considera que os alunos deveriam, ainda no básico, ter contacto prático com diferentes áreas profissionais. A literacia financeira, agora introduzida no secundário, é um exemplo positivo, mas insuficiente. “A educação precisa de reestruturações profundas. E rapidamente”, alerta, prevendo o agravamento da escassez de professores num horizonte de 10 a 15 anos.
O próprio chegou a ser convidado para leccionar na Escola Secundária de Benavente, mas a falta de créditos específicos em Matemática impediu a contratação. A experiência deixou-lhe uma reflexão: poderão existir profissionais com vocação e competência que ficam de fora por rigidez administrativa, enquanto outros, menos motivados, permanecem no sistema.
No Centro de Explicações Alpha, o foco principal é a matemática, com extensão à Físico-Química e Biologia no secundário. Mais do que subir notas, Marcos quer mudar mentalidades. “O que me dá mais prazer não é ter um 18. É um aluno que chega ao final do 9.º ano a dizer que vai para Humanidades para não ter Matemática e, depois, opta por um curso de Ciências ou Economia”. Para ele, cada desvio motivado pelo medo da disciplina pode significar um talento perdido. “Às vezes, por causa da Matemática no ensino básico não ter sido bem ensinada, estamos a perder potenciais engenheiros, potenciais gestores ou políticos porque se desviam para outras áreas”, lamenta.
Assume que dirigir um centro de explicações implica equilibrar pedagogia, gestão, expectativas familiares e crescimento sustentável. “O dia em que o dinheiro for mais importante do que o sucesso dos alunos está tudo mal”, diz. Reconhece que é uma batalha interior constante, num projecto que nasceu para servir a comunidade onde vive.
Aos 27 anos, olha para trás e admite que lhe faltava maturidade no início da juventude. Aos jovens que ponderam seguir a área da Educação, deixa um conselho simples. “É preciso gostar mesmo. Ter paciência. Ter cabeça”. Porque ensinar, garante, é gratificante, mas exige mais do que saber a matéria. No final da conversa, a convicção mantém-se intacta: a matemática pode ser difícil, mas não é um destino inevitável de fracasso. E enquanto houver alunos dispostos a tentar, Marcos Esteves continuará a fazer contas, não apenas às notas, mas às oportunidades que podem nascer de cada equação bem resolvida.


