“Muita gente só se lembra dos bombeiros quando precisa”
Virgílio Anágua começou a trabalhar ainda adolescente para construir a sua vida. Passou pelos Estados Unidos da América e sempre sentiu que era um empreendedor, tendo, por exemplo, sido dos primeiros a abrir uma “loja dos 300” em Vila Franca de Xira. Com um percurso marcado pela iniciativa e pela ligação à comunidade de Castanheira do Ribatejo, a sua terra do coração, olha hoje para o associativismo com preocupação, defendendo que há cada vez menos disponibilidade das pessoas para assumir responsabilidades e participar activamente na vida das colectividades.
Virgílio Anágua, presidente da direcção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Castanheira do Ribatejo, é um rosto conhecido de Castanheira do Ribatejo, terra onde cresceu, trabalhou e construiu a sua vida. As suas origens familiares vêm de Arruda dos Vinhos mas viveu desde criança em Castanheira do Ribatejo. Profissionalmente começou a trabalhar cedo. “Todas as minhas férias da escola, com 13, 14 anos, aproveitava para ir para a Metal Portuguesa trabalhar. Com 15 anos chamaram-me para trabalhar no laboratório, onde ajudava na investigação de cerâmica, controlo de qualidade e outros trabalhos técnicos”, recorda a O MIRANTE.
Esse foi o primeiro emprego do dirigente, que não vê mal nenhum os adolescentes começarem cedo a trabalhar. “Ajudava a ganhar independência e a sabermos desenrascar-nos”, admite. Apesar de trabalhar desde novo não sente que tenha perdido a juventude. Havia os bailaricos e o futebol. Chegou a jogar como médio-direito ou defesa-direito, mas uma lesão no joelho acabou por afastá-lo do futebol quando já era sénior, numa altura em que não havia seguros nem apoios à doença como hoje. Entretanto entrou no sector da cerâmica e chegou a montar a sua própria fábrica, onde tinha 15 empregados. Produzia sobretudo loiça decorativa, principalmente bases de candeeiros, chegando a ter cerca de 50 modelos diferentes.
Mais tarde decidiu emigrar para os Estados Unidos da América, para a zona de Newark, mesmo ao lado de Nova Iorque, com vista para o rio Hudson. Montou um negócio por conta própria na América, com uma carrinha oficina para trabalhar ao domicílio, fazendo tudo o que os clientes precisassem, de assentar azulejo a reparar torneiras. Quando um dia voltou de férias a Portugal, um amigo mostrou-lhe um negócio que o fez mudar de vida e ficar definitivamente em Portugal. Era um comércio do tipo “loja dos 300”. Ficou impressionado com o movimento e decidiu abrir uma loja em Vila Franca de Xira, no bairro do Bom Retiro. “Foi um grande negócio, chegava a fazer 500 contos por dia”, recorda. Mais tarde, com o aparecimento das lojas chinesas e a concorrência mais barata, o negócio deixou de ser viável e acabou por se dedicar sobretudo à construção civil, área onde trabalhou muitos anos e onde ainda hoje faz trabalhos. Teve também uma loja de pesca na Castanheira do Ribatejo, que ficou a cargo da mulher.
Treze anos na direcção dos bombeiros
A ligação aos bombeiros surgiu através de um convite para integrar uma lista para a direção da associação. Inicialmente foi vice-presidente e, após a morte do presidente, passou a presidente. Já vai com 13 anos de serviço associativo. Fala das dificuldades de gerir a associação, sobretudo a falta de dinheiro e de voluntários. “Isto não é fácil. Dá muitos problemas. A falta de dinheiro é um problema constante”, avisa. Ainda assim, durante a sua liderança, foram compradas muitas viaturas. “Já comprámos dez carros novos. Três ou quatro ambulâncias, um carro de comando, um veículo de apoio logístico. E conseguimos pagar”, explica. A associação ainda tem um empréstimo de cerca de 20 mil euros de um autotanque, mas no geral as contas estão controladas.
Sobre o associativismo, considera que hoje é difícil envolver e chamar as pessoas. “As pessoas hoje não se interessam por nada. E, infelizmente, dos bombeiros só se lembram quando precisam. Já fizemos várias assembleias para encontrar novas direcções e ninguém aparece, o que me preocupa quanto ao futuro destas casas”, refere.
Virgílio Anágua defende que deveria haver mais profissionalização no socorro, embora o voluntariado continue a ser essencial. Admite que já não se irrita tanto como antigamente e que aprendeu a relativizar os problemas, sobretudo desde que separou melhor as funções de comando e direcção dentro da associação. O seu maior sonho hoje é simples: ter saúde. Teve problemas cardíacos no passado, o que o levou a reformar-se antecipadamente e a fechar a sua empresa, mas mesmo reformado continua a trabalhar em pequenas obras porque diz não conseguir estar parado.
O sonho de ampliar o quartel
Um dos seus sonhos para a associação é conseguir um terreno ao lado do quartel para poder ampliar as instalações, porque o quartel é bonito por fora mas pequeno por dentro e a associação tem cada vez mais viaturas e equipamentos.
As comemorações dos 50 anos da associação, que arrancaram este mês e prolongam-se até Maio, são importantes não só para os bombeiros mas para toda a população, famílias e antigos bombeiros. “Na Castanheira poucas associações fazem actividades para a população. Raramente acontece alguma coisa e normalmente são os bombeiros e o Juventude a organizar. A vila mudou muito, há muita gente nova que apenas vem dormir porque trabalha longe, e as pessoas cada vez participam menos na vida comunitária”, lamenta.
O dirigente deixa uma visão algo crítica da sociedade actual, dizendo que as pessoas estão desanimadas, que a vida está cara, que há dificuldades económicas e que isso faz com que as pessoas se afastem do associativismo e da participação comunitária.


