Identidade Profissional | 22-04-2026 21:00

Lina Simão: da psicologia à literatura infantil inspirada no que a vida lhe deu e ensina

Lina Simão: da psicologia à literatura infantil inspirada no que a vida lhe deu e ensina
IDENTIDADE PROFISSIONAL
Lina Simão reside no Entroncamento e trabalha como psicóloga educacional na Golegã - foto O MIRANTE

Lina Simão, psicóloga educacional na Golegã e escritora, defende um regresso à infância ao ar livre, aos livros e à literacia emocional. Autora de uma obra literária infantil que parte das suas vivências, venceu este ano um prémio com A Minha Avó e o Sol que tem conquistado uma dimensão intergeracional, unindo seniores e crianças à volta do livro e da leitura.

Psicóloga educacional na Golegã e escritora de literatura infantil, Lina Simão fala com a serenidade de quem observa a escola por dentro, mas também com a inquietação de quem vê a infância a mudar depressa demais. Aos 52 anos, a autora, natural de Abrunheira, no concelho de Figueiró dos Vinhos, leva para a escrita as memórias felizes do campo e para a prática profissional a convicção de que é preciso intervir cedo, antes de os problemas se instalarem. Pelo meio, deixa um alerta: a dependência dos ecrãs está a roubar tempo à leitura, à imaginação, à brincadeira e ao crescimento salutar das crianças.
Foi numa aldeia pequena, entre ribeiros, árvores, animais e liberdade, que construiu as memórias mais felizes da infância. Lina Simão cresceu em Abrunheira até sair para Coimbra, onde estudou Psicologia. Essa ligação ao mundo rural permanece viva e tem servido de inspiração para a sua escrita. O livro O Pinhãozinho, por exemplo, nasce dessas raízes e da riqueza simbólica de uma infância passada ao ar livre, em contacto directo com a natureza. “Para mim, desde pequena, sempre foi fácil imaginar, porque brincava muito com a natureza. Por exemplo, os bugalhos dos carvalhos, que são uma personagem n’O Pinhãozinho, eram as minhas ovelhas e as minhas cabras. As plantas eram massa ou arroz, havia, digamos, espaço para cada elemento da natureza ser algo”, conta.
Residente no Entroncamento há 13 anos, trabalha desde 2014 como psicóloga educacional no Agrupamento de Escolas de Golegã, Azinhaga e Pombalinho. E é a partir dessa experiência que defende uma mudança de foco no trabalho feito em meio escolar. Mais do que responder a problemas já instalados, acredita na prevenção e numa intervenção precoce que deve começar no pré-escolar. Para a psicóloga, é fundamental investir em competências socioemocionais e ajudar as crianças a reconhecerem aquilo que sentem. Identificar e nomear emoções é, diz, o primeiro passo para que se consigam autorregular e lidar melhor com a frustração, a tristeza ou a ansiedade.
Lina Simão considera que ainda há um défice significativo de literacia emocional entre crianças e adolescentes, constatando que muitas não conseguem ir além de expressões básicas como “estou triste” ou “estou feliz”, sem ferramentas para compreender o que realmente lhes acontece. Na sua opinião, esse trabalho deve ser feito desde cedo e de forma continuada, envolvendo toda a comunidade escolar, olhando, por isso, com reservas para os rácios de psicólogos nas escolas, considerando longe a meta de haver um profissional para 500 alunos como foi recentemente legislado. Além de que o “trabalho em equipa é sempre mais frutuoso”.

Defensora de um regresso às raízes onde o brincar e o imaginário coexistiam
Mas é quando fala da relação das novas gerações com a tecnologia que o discurso de Lina Simão se torna mais categórico. Não esconde a preocupação com o impacto dos ecrãs no desenvolvimento infantil e juvenil. “A dependência das crianças às tecnologias está a aumentar de forma assustadora”, diz dando exemplos que, para si, já se banalizaram como bebés com tablets à frente em restaurantes, crianças pequenas com telemóveis na mão no supermercado, adolescentes cada vez menos tolerantes à frustração e mais habituados à lógica do estímulo imediato.
Na sua perspectiva, esta realidade está a comprometer a atenção, a capacidade de espera, a leitura e até o prazer de imaginar. A recompensa rápida dos ecrãs, alerta, torna mais difícil o esforço exigido por tarefas como ouvir, estudar ou ler um livro. Mãe de um filho de 10 anos, admite que também sente essa pressão no dia-a-dia, até porque o uso do telemóvel entre pares se tornou quase uma norma. “Existe muito pouca consciencialização dos adultos para as graves consequências que podem existir no desenvolvimento das crianças neste sentido. O sistema de recompensa das crianças e jovens fica alterado, porque no ecrã a recompensa e o estímulo são imediatos. E depois já não há vontade de estar atento nas aulas ou de ler um livro, por isso os problemas de desatenção estão tão elevados”.
E com essa escalada para o mundo digital o que se perde, diz, é precisamente aquilo que mais importa na infância: tempo para brincar, para inventar, para estar na rua, para cair, para se sujar, para contactar com o mundo real. Lina Simão defende um regresso às raízes, não num sentido nostálgico, mas como resposta a um desequilíbrio evidente. “Há hoje mais perigos, é verdade, mas não nos podemos esconder atrás disso. Na sociedade estamos todos demasiado protectores dos nossos filhos”, afirma.

Livros que nascem de vivências e carregam mensagens
Foi pelos livros que entrou cedo no universo da imaginação. Numa família com poucos recursos e com pais com baixo nível de escolaridade, começou por ler as “histórias, os poemas dos manuais de Português dos irmãos” mais velhos. Mais tarde, já no quinto ano, descobriu a biblioteca da escola e os livros de príncipes e princesas, que a fascinavam pelos finais felizes. Essa ligação às palavras cresceu e ainda na adolescência venceu um concurso literário na escola, embora a timidez a tenha impedido de ir levantar o prémio. Anos depois, na fase adulta, ganhou dois prémios da Associação Portuguesa de Poetas, em 2004 e 2005, numa fase em que, estando desempregada, encontrou na escrita um caminho firme. Foi então que começou a escrever contos infantis, alguns dos quais viriam a transformar-se em livros. Além de O Pinhãozinho, publicou A Minha Avó e o Sol e Jasmin, o Sonho de Voar. Escreve também poesia e crónicas e não esconde a vontade de explorar outros géneros literários.
Em A Minha Avó e o Sol, lançado em Fevereiro de 2025, tocou num tema especialmente sensível: a solidão na velhice. O livro nasceu da sua própria experiência com a mãe, que ficou mais isolada na aldeia depois da morte do seu pai. A obra acabaria por ganhar uma dimensão intergeracional, com apresentações em escolas acompanhadas por idosos do Centro de Convívio do Entroncamento, num projecto que procura “unir gerações” em torno da leitura. Em Fevereiro deste ano, o livro valeu-lhe o prémio de Melhor Obra da editora Cordel D’Prata, através da chancela Meialonga. Um reconhecimento que a autora recebe com gratidão, mas que não supera aquilo que mais valoriza: o contacto com as crianças, as perguntas que fazem, o entusiasmo com que escutam as histórias e a forma como entram nelas com a sua própria imaginação.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias