Teresa Cabral: uma vida a construir pontes entre a terra e as pessoas
Do trabalho na cooperação internacional ao regresso aos negócios da família, a sócia-gerente da Tratotejo, em Alpiarça, defende uma forma de estar assente na proximidade, no compromisso e numa ligação profunda à agricultura e às suas raízes.
O percurso de Teresa Cabral dificilmente caberia num currículo convencional. Sócia-gerente da Tratotejo, em Alpiarça, soma experiências em áreas tão distintas como a qualidade e segurança alimentar, a cooperação internacional, a agricultura, o empreendedorismo e, mais recentemente, o comércio de tractores usados e equipamentos agrícolas. Mas há três linhas que atravessam toda a sua vida: a família, Alpiarça e uma vontade persistente de ajudar os outros. Começou por estudar Medicina Veterinária, mas percebeu a meio do caminho que não era ali que queria ficar. Mudou para a área da Qualidade e Segurança Alimentar e, pelo meio, dava explicações de inglês em Alpiarça, experiência que ainda hoje recorda com carinho, sobretudo quando antigos alunos a reconhecem na rua. A partir daí, o trajecto deixou de ser linear. Trabalhou numa fábrica, passou por uma exploração pecuária e chegou a Cabo Verde, onde contactou com uma realidade totalmente diferente, ligada à pesca, à segurança alimentar e ao desenvolvimento rural.
Foi em Cabo Verde que consolidou uma vertente mais técnica e científica, trabalhando com o Ministério do Desenvolvimento Rural e envolvendo-se em vários projectos. Esse percurso abriu-lhe as portas da Oikos – Cooperação e Desenvolvimento, onde esteve seis anos e viveu uma das fases mais marcantes da sua carreira. Trabalhou em projectos ligados à agricultura, ao empreendedorismo jovem e, mais tarde, ao papel das mulheres no sector agrícola em Portugal. “Foi, de facto, o trabalho da minha vida. Sabemos que não vamos ganhar um ordenado extraordinário nem ter todos os recursos, mas estamos ali a lutar para que as coisas aconteçam. E isso dá um reconhecimento pessoal enorme”, afirma a O MIRANTE.
A vida, no entanto, impôs-lhe outro rumo. A morte do irmão mais velho levou-a a regressar a casa e a assumir uma presença mais constante na empresa familiar, a Tratotejo, criada pelo pai e pelos irmãos em Alpiarça. Hoje, Teresa Cabral é sócia-gerente da empresa e encontra no quotidiano familiar uma forma de reconstrução. “Agora almoçamos praticamente todos os dias juntos e tentamos apoiar-nos uns aos outros, porque há coisas que não se ultrapassam, aprende-se é a viver com elas”, partilha. Com cerca de oito anos de actividade, a Tratotejo está consolidada no sector da venda de tractores usados, comercializando cerca de 35 unidades por ano, além de alfaias e outros equipamentos agrícolas. Teresa Cabral trabalha na empresa há quatro anos e, para si, o sucesso não se mede apenas em números. Mede-se, sobretudo, na confiança construída, na palavra dada e nos pequenos gestos que fazem a diferença.
O seu dia-a-dia divide-se entre a gestão burocrática, o contacto com clientes e a resolução de problemas inesperados. É uma rotina exigente, que obriga a adaptação constante e a uma grande capacidade de gerir expectativas. Num sector tradicionalmente masculino, a sua presença não passa despercebida. Mas também não a intimida. Habituada desde cedo ao trabalho no terreno e ao mundo agrícola, reconhece que ainda existe, por vezes, alguma surpresa inicial quando uma mulher assume a dianteira num negócio ligado à agricultura e à maquinaria.
Teresa Cabral reconhece os desafios de um sector envelhecido e pouco atractivo para muitos jovens. Ainda assim, acredita que há uma nova geração disposta a investir, desde que encontre condições, apoio e perspectivas de futuro. Para si, o caminho passa por valorizar quem trabalha a terra, modernizar processos e criar oportunidades reais para quem quer continuar ligado ao sector agrícola. Filha, neta e bisneta de empresários, cresceu com o negócio “dentro de casa”, mas garante que nunca sentiu pressão para seguir esse caminho. Pelo contrário, o pai sempre a incentivou a sair, experimentar e conhecer o mundo. “Quando voltares, isto está aqui”, dizia-lhe. Hoje, Teresa percebe a importância dessa liberdade e olha para o futuro da empresa e da família com o mesmo espírito. “Gostava que os meus filhos e o meu sobrinho viessem a enveredar por aqui por vontade própria, após também explorarem aquilo que gostam e que os apaixona”, confessa.
Apesar de se imaginar ligada à Tratotejo a longo prazo, Teresa Cabral não se limita a um único projecto. Mantém outras actividades, entre elas a criação responsável de cães Rottweiler com a sua esposa, que iniciou esse negócio. “Vejo-me para sempre nesta empresa, mas esta empresa não tem que ser a única coisa que eu faço e não o é”, afirma. A sua identidade profissional constrói-se nessa combinação de persistência, versatilidade e sentido de missão. Define-se como alguém que não desiste enquanto o trabalho não está feito, que se adapta às circunstâncias e que procura sempre ajudar quem tem à sua volta. “O meu objectivo é continuar a trabalhar, a ajudar e a potenciar a agricultura. Há muito caminho ainda por percorrer e não vou parar até achar que o mundo ficou de facto transformado para melhor”, resume.


