É cada vez mais difícil segurar trabalhadores nas instituições sociais
Aos 62 anos, Paulo Mata continua a viver os dias com a intensidade de quem nunca aprendeu a ficar parado, porque gosta de se sentir útil. Militar de carreira na Força Aérea durante várias décadas, dirigente associativo e instrutor de cycling, acredita que o sentido de missão não termina com a passagem à reserva. Hoje, o seu principal desafio é a gestão da Associação Popular de Apoio à Criança, instituição da Póvoa de Santa Iria onde é presidente.
Natural de Sacavém, Paulo Mata cresceu nessa cidade e prosseguiu os estudos no Colégio Bartolomeu Dias, em Santa Iria de Azóia, terminando o ensino secundário na Escola Padre António Vieira, em Alvalade. Filho de um antigo militar da Força Aérea e ex-preso político, admite que o pai acabou por influenciar o seu percurso. Candidatou-se à Força Aérea, foi admitido e entrou para a carreira militar em 1982. Fez o curso de Mecânica de Electrónica, ingressando inicialmente como praça. Mais tarde passou a cabo especialista e frequentou a especialização de Electrónica na Escola Militar de Electromecânica, em Paço de Arcos.
Foi colocado nos Açores, na Base das Lajes, onde permaneceu até Outubro de 1984. Regressou depois ao continente, sendo colocado no Montijo. Foi ali que decidiu concorrer ao curso de sargentos, conseguindo entrar e regressando posteriormente à mesma base aérea. Integrou a Falcon 50, a esquadra responsável pelo transporte do Presidente da República. Acabou por atingir o topo da carreira e foi convidado para assessor do comandante do Aeródromo de Trânsito n.º 1, cargo que desempenhou durante três anos.
Vida militar deixou marcas
Casado desde 1988, com um filho de 28 anos, e actualmente na reserva, considera que a vida militar deixou marcas profundas na sua maneira de encarar o dia-a-dia. “A questão da hierarquia, a questão do respeito e, acima de tudo, a questão dos horários. Para o militar, o horário é sagrado”, afirma. Ao olhar para trás, considera que a carreira militar lhe deu sobretudo conhecimento humano e boas amizades.
Paulo Mata acompanha com preocupação o actual contexto internacional, nomeadamente os conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente, defendendo que Portugal deve manter uma posição equilibrada e concertada com a ONU. “Não nos podemos deixar levar por aquilo que são os deslumbramentos. O que não faltou por aí, ao longo de décadas e décadas, foram ditadores com a mesma forma de estar. É pensar que há alguns que agora tentam governar o mundo à sua maneira, sempre pela lei das armas e pela lei do mais forte. É isso que a mim me preocupa muito”, vinca.
O desafio da APAC
Na APAC - Associação Popular de Apoio à Criança, um dos principais entraves está relacionado com a licença de utilização das instalações da Rua Américo Costa. A proximidade à Quinta Municipal da Piedade, imóvel classificado, obriga ao cumprimento de exigências legais específicas. Segundo explica o dirigente, desde 2020 deixou de existir a figura da autorização provisória de funcionamento, o que criou dificuldades acrescidas.
A situação tem implicações directas na relação com a Segurança Social. A APAC consegue manter os acordos já existentes, mas está impedida de criar novas respostas sociais ou alargar projectos. “Nem sequer conseguimos aumentar vagas na Creche Feliz. Quando chegamos à plataforma da Segurança Social, pedem a licença de utilização. Sem esse documento, o processo não avança.” Este é um problema, acrescenta, que pode ter solução com o apoio da Câmara de Vila Franca de Xira.
Para o dirigente gerir pessoas é o mais difícil. A APAC emprega cerca de 130 funcionários, entre pessoal docente e não docente. Os baixos salários dificultam cada vez mais a retenção de trabalhadores. “Quase 90 por cento do pessoal não docente não leva para casa mil euros limpos”, lamenta. No caso das educadoras de infância, o problema agrava-se devido à diferença salarial e de condições face ao ensino público.
Uma vida sempre em movimento
Durante 20 anos Paulo Mata foi fumador, até tomar uma decisão radical aos 35 anos, quando soube que ia ser pai. Largou o vício e começou a correr. Nunca mais parou e corre todos os dias de manhã bem cedo. Além disso, fez formação e é instrutor de cycling no CPCD e num ginásio no Parque das Nações. Ao longo dos anos organizou dez maratonas de cycling no concelho de Vila Franca de Xira e colabora também na maratona solidária dos Bombeiros de Vialonga.
A rotina diária continua intensa. Divide os dias entre a APAC e o CPCD, onde há seis anos desempenha funções de tesoureiro. “Acho que a pior coisa que pode acontecer a uma pessoa é passar pela vida e perguntar: o que é que fiz?”, sublinha.


