Beatriz Silvestre: quatro décadas na Cáritas de VFX ao serviço de quem mais precisa
Natural de Alenquer e funcionária há quatro décadas da Cáritas de Vila Franca de Xira, Beatriz Silvestre construiu uma vida ligada ao serviço social, ao voluntariado e à fé. Entre múltiplas funções, o contacto diário com as pessoas que mais precisam tornou-a numa figura conhecida da cidade que sempre dispensou ser o centro das atenções. Com uma trajectória marcada pelo compromisso, pela lealdade e pela defesa dos valores humanos, mantém intacta a ligação à missão solidária que a acompanha desde a infância.
Beatriz Silvestre tem 60 anos e uma vida inteira marcada pela dedicação aos outros. Natural de Alenquer, chegou a Vila Franca de Xira com apenas 20 anos, sem imaginar que aquela mudança temporária se transformaria numa ligação de mais de quatro décadas à Cáritas. A sua história na instituição de Vila Franca de Xira começou de uma forma muito particular. Os tios faziam parte da fundação da Cáritas de Vila Franca, criada na sequência das cheias de 1983, quando membros da Cáritas Diocesana de Lisboa ofereceram roupas e alimentos para apoiar as famílias desalojadas na cidade.
Aos 10 anos já fazia voluntariado nos chamados “escritórios de rua” da Cáritas. Foi nessa altura que nasceu a paixão pelo voluntariado e a solidariedade, algo que viria a acompanhar toda a sua vida. Curiosamente, esse mesmo espírito acabaria por passar para a filha, hoje directora técnica de uma instituição social do concelho. A própria Beatriz recorda com emoção que a primeira paragem da filha, depois de sair do hospital com apenas três dias de vida, foi precisamente na Cáritas de Vila Franca de Xira.
Mais tarde, com a entrada de Portugal na Comunidade Europeia, surgiu um projecto de formação profissional da instituição que precisava de uma funcionária administrativa. Havia, porém, uma condição difícil: a pessoa teria de trabalhar vários meses sem a garantia de vir a receber ordenado, dependendo da aprovação do projecto. “Estava desempregada e a terminar os estudos e decidi arriscar”, conta a O MIRANTE. O projecto acabou por ser aprovado, os salários foram pagos e Beatriz Silvestre nunca mais saiu. Hoje soma 40 anos de casa e é a funcionária mais antiga da instituição.
Uma mulher dos sete ofícios
Embora seja oficialmente funcionária administrativa, numa instituição pequena como a Cáritas já fez de tudo um pouco para ajudar a vida dos utentes: trabalhou na cozinha, foi ajudante de acção directa, motorista, fez limpezas, lavou casas de banho e desempenhou praticamente todas as tarefas possíveis dentro da colectividade. Em tom de brincadeira diz que a única função que ainda não teve foi trabalhar na lavandaria.
Beatriz Silvestre vive na zona do Carregado, num local tranquilo e calmo rodeado de vivendas, onde gosta da proximidade com o campo. O marido é agricultor na zona de Alenquer, o que também ajudou a manter a família por ali. Valoriza muito o facto de conseguir separar a vida profissional da vida pessoal, estando suficientemente perto de Vila Franca de Xira para trabalhar, mas longe o bastante para “desligar” quando chega a casa. Quando era criança sonhava ser contabilista, uma área de que sempre gostou, sendo que o seu primeiro emprego foi numa loja de brinquedos.
Ao longo de décadas de trabalho social, milhares de pessoas passaram pela sua vida. Muitos chegaram através dos cursos de formação profissional organizados pela Cáritas - cursos que chegaram a reunir centenas de formandos em simultâneo - e outros procuraram apoio social em momentos difíceis. Hoje, é frequentemente reconhecida na rua por antigos utentes ou formandos, que a cumprimentam com carinho. Para Beatriz esse reconhecimento é profundamente gratificante.
Muitos dos que passaram pela instituição conseguiram reconstruir as suas vidas. E são precisamente essas histórias que lhe dão força para continuar. Entre as memórias mais marcantes, fala dos idosos do centro de dia, que considera parte da família. Sempre que um deles morre sente que “um bocadinho de nós vai embora”.
Mas há também histórias felizes que nunca esquece. Recorda particularmente uma utente que chegou à instituição com uma depressão gravíssima, incapaz até de abrir os olhos enquanto caminhava. “Hoje participa em todas as actividades da casa, fala com todos e até desfila na passerelle de ouro”, recorda. Ver essa transformação humana é precisamente uma das maiores recompensas do trabalho social, considera Beatriz Silvestre. A injustiça é aquilo que mais a revolta. Não suporta a mentira e considera a lealdade um dos pilares fundamentais da vida. Acredita que só sendo leal é possível viver em paz consigo própria e “deitar a cabeça na almofada com tranquilidade”.


