Identidade Profissional | 17-06-2026 10:00

Telmo Ferreira: “o folclore não é o parente pobre da cultura”

Telmo Ferreira: “o folclore não é o parente pobre da cultura”
IDENTIDADE PROFISSIONAL
Telmo Ferreira trabalha no Gabinete de Imprensa, Relações Públicas e Imagem da Câmara Municipal de Coruche e é presidente da direcção do Rancho Folclórico da Fajarda - foto O MIRANTE

Telmo Ferreira cresceu na aldeia da Fajarda, trabalhou no campo, cumpriu o serviço militar e envolveu--se no associativismo. No serviço público encontrou uma escola de vida. Funcionário da Câmara de Coruche, é também conhecido pela sua dedicação ao Rancho Folclórico da Fajarda, a que preside. Uma vida de serviço público, memória colectiva e afecto por uma terra que conhece, como se conhece a família.

Telmo Ferreira costuma dizer que é “filho da liberdade”. Nasceu a 29 de Junho de 1975, no antigo hospital de Coruche, numa altura em que ainda não se sabia antecipadamente o sexo dos bebés. Quando nasceu o segundo rapaz da família, a mãe brincou dizendo que já tinha “um Mário Soares” em casa e que acabava de nascer “um Álvaro Cunhal”. O nome acabou por ser outro, sugerido pelo padrinho: Telmo. Hoje, em Coruche e na Fajarda, muitos conhecem-no como o “Telmo da Câmara” ou o “Telmo do Rancho”.
Natural de Coruche e residente na Fajarda, cresceu numa aldeia humilde, pacata e comunitária, muito perto da avó, dos tios e dos pais. A mãe trabalhou na agricultura, o pai foi pedreiro e também passou pela Câmara Municipal de Coruche. Da infância guarda as idas à vila na carroça do tio, as searas, a televisão a preto e branco em casa de familiares e a chegada faseada da luz eléctrica à aldeia, celebrada rua a rua. “Foi uma infância muito feliz”, recorda. A prima, que viria a ser também sua professora primária, ensinou-lhe a comer com faca e garfo e ajudou-o a chegar à escola já a saber algumas letras. Dos pais recebeu o essencial: humildade, respeito e a preocupação de ser boa pessoa.
Em criança não sonhava ser funcionário público. Queria ser padeiro. Fascinava-o o homem que vendia pão de porta em porta, de moto, com os cestos carregados. Com humor, admite que, pela conversa fácil, talvez hoje vendesse pão a clientes que só o comeriam ao jantar. Antes de chegar à Câmara de Coruche, houve muito trabalho pelo caminho. Nas férias escolares apanhou tomate, tirou bandeira ao milho, trabalhou no melão e conheceu a dureza das campanhas agrícolas de Verão. O dinheiro servia, muitas vezes, para comprar roupa ou ir às festas. Trabalhou também na Tabaqueira, passou por programas ocupacionais ligados ao desemprego e teve uma experiência administrativa na Junta de Freguesia da Fajarda.
O percurso escolar ficou pelo 12.º ano, concluído já entre a vida activa e o serviço militar obrigatório. A tropa, primeiro em Mafra e depois em Elvas, marcou-o profundamente. Recorda a Escola Prática de Infantaria como uma verdadeira escola de vida, onde aprendeu camaradagem, disciplina e sentido de grupo. Em Elvas chegou a dar instrução a jovens da sua idade e até mais velhos.
A entrada na Câmara de Coruche aconteceu em 1999, depois de um concurso para o então Serviço de Informação. Na altura trabalhava como vendedor numa empresa de produtos hoteleiros, percorrendo restaurantes da região. No dia em que recebeu uma carrinha nova da empresa, recebeu também a chamada a informar que tinha sido seleccionado para trabalhar na autarquia. A decisão não foi fácil, mas escolheu a autarquia. Assinou contrato a 14 de Junho de 1999.
Desde então passou mais de duas décadas no gabinete de comunicação da autarquia, que ao longo dos anos mudou de nome, funções e exigências. Telmo Ferreira continua a ser assistente técnico, função que assume “com muito orgulho”, mas o trabalho nunca se resumiu a secretária e papéis. Fotografou, filmou, acompanhou eventos, fez protocolo e esteve no terreno em incêndios, cheias, iniciativas culturais e acontecimentos de todo o tipo.
“Sabemos que às nove horas vamos para lá, mas não sabemos como é que vai ser o nosso dia”, resume. Para ele, o gabinete de comunicação foi a sua “licenciatura”. Foi ali que aprendeu a escutar, a perceber o funcionamento da autarquia, a lidar com diferentes executivos e a conhecer melhor o concelho. O cansaço existe, porque a comunicação municipal não acaba às cinco da tarde nem pára ao fim-de-semana, mas reconhece que a dinâmica do serviço tem muito a ver consigo. “Monótono não é”, afirma.
Coruche é outro dos seus amores confessos. Considera-se um cidadão activo e defende que não é preciso estar na política para fazer alguma coisa pela terra. Gosta da vila, do sossego, do rio, do montado e da qualidade de vida. Mas aponta fragilidades, sobretudo nas acessibilidades, que considera um dos grandes problemas do concelho. A estrada entre a Fajarda e Salvaterra, diz, mantém praticamente a mesma largura do tempo em que vinha à vila de carroça.

Presidente do Rancho da Fajarda
A outra grande dimensão da sua vida é o Rancho Folclórico da Fajarda. Entrou no grupo em 1992, quando um conjunto de jovens da terra ajudou a reanimar o rancho após um período de paragem. Sempre gostou de dançar e recorda os bailes da Fajarda, onde dançava noites inteiras. O rancho tornou-se uma escola de amizade, pertença e responsabilidade. Hoje é presidente da direcção e elemento do rancho, embora admita que, por vezes, gostasse apenas de chegar, vestir o traje e dançar. Gerir pessoas, associações, orçamentos, deslocações, músicos e trajes é uma tarefa exigente. Ainda assim, emociona-se sempre que o grupo é anunciado em palco e ouve o nome da Fajarda, de Coruche ou do Vale do Sorraia.
Para Telmo Ferreira, o folclore não é o “parente pobre da cultura”. É a memória de um povo: o linguajar, o trajar, as cantigas, as danças, as histórias de trabalho, de festa e de comunidade. Por isso, insiste que mesmo quem não gosta de folclore deve respeitá-lo. Nos últimos anos, o grupo tem procurado continuar o trabalho de recolha junto dos mais velhos, embora reconheça que muitas fontes se vão perdendo.
Pai de Eduardo e Gabriel, tenta passar aos filhos esse sentido de pertença e participação. O mais novo ainda anda no rancho e Telmo acredita que o associativismo deixa sempre marcas positivas: ensina a trabalhar em grupo, a respeitar os outros e a fazer parte de algo maior do que cada um.

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