Susana Ponciano, psicóloga: pedir ajuda é um acto de coragem e de cuidado connosco próprios
Aos 47 anos, a psicóloga clínica Susana Ponciano olha para o seu percurso profissional como uma sucessão de experiências que a ajudaram a descobrir o que realmente queria fazer: cuidar e ajudar as pessoas.
Com um percurso profissional marcado por várias experiências profissionais, Susana Ponciano descobriu no seu percurso profissional aquilo que realmente queria fazer, cuidar e ajudar pessoas. Hoje é psicóloga clínica e responsável pela SP Clínica, em Almeirim, mas antes de encontrar a sua verdadeira paixão passou por escritórios, perfumarias, promoção comercial e até chegou a trabalhar em feiras. “Fiz muitas coisas na minha vida. Fui agarrando as oportunidades que apareciam e isso ajudou-me a perceber melhor quem era e o que queria fazer”, recorda.
Natural de Santarém, sempre teve uma ligação especial à língua e cultura inglesas. O irmão, cinco anos mais velho, estudava e trabalhava no Reino Unido e acabou por ser uma inspiração para seguir o mesmo caminho. Quando decidiu ingressar no ensino superior, escolheu Inglaterra e partiu para uma aventura que viria a marcar profundamente a sua vida pessoal e profissional.
Passou por Manchester, Bolton e outras cidades inglesas, onde estudou Psicologia e contactou com diferentes formas de pensar, trabalhar e encarar a vida. Longe da família e dos amigos, aprendeu a valorizar ainda mais as relações humanas. “Foi difícil estar longe dos meus pais e dos meus amigos, mas ajudou-me a crescer. Aprendi a adaptar-me a pessoas muito diferentes de mim e a olhar para o mundo com uma mente mais aberta”, explica.
A escolha da Psicologia surgiu quando se viu dividida entre duas paixões, Direito e Psicologia. Acabou por optar pela segunda, uma decisão de que nunca se arrependeu. “Percebi que, de formas diferentes, ambas tinham algo em comum, ajudar pessoas”, conta.
No regresso a Portugal, construiu um percurso diversificado. Trabalhou em centros de reabilitação, colaborou com associações de apoio psicológico, passou pelo Hospital Distrital de Santarém, exerceu funções em instituições da região e chegou mesmo a trabalhar em contexto prisional, uma das experiências mais exigentes da sua carreira. Foi precisamente nesse ambiente que encontrou algumas das histórias que mais a marcaram. Histórias de sofrimento, exclusão e vidas difíceis que lhe exigiram grande capacidade emocional. “Ouvi relatos de vida que faziam qualquer pessoa chorar. Foi um trabalho muito desafiante, mas ensinou-me a olhar para cada ser humano para lá dos seus erros”, afirma.
“Um psicólogo nunca deixa de aprender”
A necessidade constante de aprender é outra das características que define o seu percurso. Ao longo dos anos realizou diversas especializações e continua a investir em formação contínua. “Um psicólogo nunca deixa de aprender. Quanto mais conhecimento temos, melhor preparados estamos para ajudar quem nos procura”, defende.
Foi em Almeirim que decidiu fixar o seu projecto profissional e a escolha não foi por acaso. Sempre gostou da cidade e do ambiente de proximidade que encontrou na comunidade. “Gosto do facto de as pessoas se cumprimentarem, de haver uma relação mais próxima. Faz-me lembrar algumas coisas da minha infância”, diz.
Na SP Clínica acompanha sobretudo adolescentes, jovens adultos e adultos. A ansiedade é actualmente uma das problemáticas mais frequentes entre os pacientes que recebe. “A sociedade está cada vez mais exigente. Há muita pressão, muito isolamento e dificuldades crescentes nos relacionamentos interpessoais, sobretudo entre os mais jovens”, observa.
A psicóloga acredita que as tecnologias trouxeram benefícios inegáveis, mas alerta para a necessidade de equilíbrio, defendendo a prática desportiva e as actividades extracurriculares como ferramentas importantes para o desenvolvimento emocional e social das crianças.
Apesar de notar uma maior abertura das novas gerações para falar sobre saúde mental, considera que ainda persistem muitos preconceitos. “Continua a existir a ideia errada de que procurar ajuda psicológica é sinal de fraqueza. A saúde mental é tão importante quanto a saúde física. Somos um todo e temos de cuidar de todas as partes de nós”, sublinha.
Ao longo de mais 20 anos de profissão, guarda histórias de superação que lhe confirmam diariamente que escolheu o caminho certo. Os momentos mais gratificantes surgem quando vê alguém recuperar o equilíbrio e seguir a vida sem precisar do seu acompanhamento. “Quando dou alta a uma pessoa fico feliz. Significa que está bem e que já não precisa de mim. É para isso que trabalho”, afirma.
Questionada sobre como gostaria de ser recordada pelos pacientes e pelas comunidades com quem trabalhou, a resposta é fácil: “Gostava que me vissem como alguém cuidadora. Porque é isso que tento ser todos os dias: uma pessoa que cuida dos outros quando eles mais precisam”.


