Da agricultura ao imobiliário: o percurso improvável de Afonso Claudino
Aos 30 anos, Afonso Claudino lidera a Elysium, uma imobiliária no centro histórico de Santarém criada com o objectivo de fazer diferente, apostando na proximidade e na confiança dos clientes.
Quando fala do seu percurso profissional, Afonso Claudino afirma humoristicamente que “foi uma grande confusão”. Aos 30 anos, o empresário natural de Alpiarça lidera a imobiliária Elysium, em Santarém, mas antes passou pela economia, engenharia agrónoma e remodelação de imóveis, num percurso marcado por mudanças de rumo, mas também por uma vontade constante de construir algo próprio.
A primeira vez que empreendeu foi quando decidiu criar uma estufa de hidroponia. Um projecto em que investiu enquanto ainda estudava e que acabou por ser um dos maiores ensinamentos da sua vida. “A produção corria muito bem, o desperdício era baixo, mas no fim não havia dinheiro. Perguntava-me como era possível estar tudo aparentemente certo e o negócio não ser rentável”, recorda. Aprendeu que uma empresa não pode apenas sobreviver e tem de ser sustentável e com rendimento suficiente para justificar o investimento e esforço. “Comecei a perceber que muita gente olha para um negócio e acha que é viável, mas nunca faz realmente as contas. Esse foi o meu primeiro grande abre olhos no mundo dos negócios”, recorda.
Mais tarde também integrou a empresa familiar, a Tratotejo, antes de entrar no sector da remodelação de casas, tendo essas etapas contribuído para o empresário que é hoje e convergido na criação da Elysium. Em 2022, juntamente com um sócio, começou a recuperar habitações para posterior venda e, ao tratar da comercialização desses imóveis, percebeu que havia margem para fazer diferente. No Verão de 2025 abriu a Elysium, mantendo a actividade de reconstrução, mas alargando a mediação a imóveis de outros proprietários. “Queria criar algo com identidade própria e uma imobiliária que valorizasse mais o cliente e fosse minuciosa ao máximo”, explica, acrescentando que essa preocupação se traduz numa filosofia de trabalho diferente de muitas imobiliárias.
Liderar com responsabilidade
Nunca trabalhou por conta de outrem e desde cedo esteve ligado a empresas da família ou a projectos próprios. E isso influenciou a forma como encara a liderança. Para si, uma empresa deve funcionar por objectivos e não apenas por horários rígidos. “Se uma pessoa consegue acabar o trabalho às quatro da tarde, por que é que tem de ficar até às seis só porque o horário diz isso? O importante é a eficiência”, defende.
Na Elysium procura transmitir aos colaboradores precisamente essa liberdade, mas acompanhada por um elevado sentido de responsabilidade. “As pessoas têm de ser responsáveis pelas próprias decisões. Se forem, não precisam que esteja constantemente alguém atrás delas a dizer o que fazer”, afirma, considerando ainda que liderar uma equipa significa pensar primeiro nos outros e só depois em si próprio.
Com esses princípios em mente, a Elysium ainda não completou um ano de actividade, mas já mudou de instalações três vezes devido ao crescimento da equipa. Actualmente conta com cerca de dez consultores e três pessoas a trabalhar diariamente no escritório. Depois de um arranque tímido, com cinco ou seis escrituras nos primeiros meses de actividade em 2025, a Elysium acelerou o ritmo este ano e já concluiu cerca de duas dezenas de negócios. Contudo, o gestor mede o crescimento para além dos números, valorizando a evolução dos consultores, a autonomia que conquistaram e a estabilidade alcançada pela empresa.
Entre a proximidade e a inovação
Afonso Claudino instalou a Elysium no centro histórico de Santarém, pois gosta do ambiente mais próximo entre comerciantes e moradores e acredita que estes espaços continuam a ter uma identidade própria. “Aqui, quem entra vem com tempo, conversa e olha com atenção”, diz, acrescentando que o mercado imobiliário da região também mudou profundamente depois da pandemia. “Três em cada quatro casas que vendemos nesta zona são para pessoas que vêm de fora à procura de melhor qualidade de vida, nomeadamente de Lisboa”, afirma. Rejeita também a ideia de que Santarém seja uma cidade dormitório, salientando a instalação de cada vez mais empresas e que o distrito está a ganhar importância económica e logística.
A tecnologia é outra das apostas da Elysium, que está a implementar visitas virtuais em 360 graus recorrendo a óculos de realidade virtual, permitindo aos compradores conhecerem os imóveis antes da deslocação ao local. O objectivo é poupar tempo aos clientes e evitar visitas desnecessárias a casas ainda habitadas. Entre escrituras, papelada e reuniões, sobra pouco tempo livre, não sendo incomum começar a trabalhar às quatro da manhã para tratar da parte burocrática antes do telefone começar a tocar.


