Identidade Profissional | 22-07-2026 21:00

Ana Marques fez da mercearia um projecto de vida e uma casa de confiança na Carregueira

Ana Marques fez da mercearia um projecto de vida e uma casa de confiança na Carregueira
IDENTIDADE PROFISSIONAL
Ana Marques prova que uma mercearia é, além de um negócio, um lugar de confiança e encontro - foto O MIRANTE

Começou a trabalhar no campo ainda criança, vendeu pão porta-a-porta e, com vontade de empreender, construiu um negócio que hoje emprega quatro mulheres da terra. Aos 50 anos, Ana Marques continua a ser a primeira a chegar e a última a sair. Na Loja da Ana, na Carregueira, vendem-se carne, fruta, pão e mercearia, mas também se ouvem desabafos e constroem-se amizades.

Ana Marques nasceu e cresceu na Carregueira, concelho da Chamusca, e aprendeu cedo o peso do trabalho. Aos 12 anos já acompanhava os pais na agricultura e ajudava na apanha do tomate, numa época em que se ganhava à peça. “Sempre fui uma mulher de trabalho”, resume. A escola acabou por ficar para trás demasiado cedo, reconhece hoje, lamentando a decisão precipitada.
Aos 18 anos, por insistência da mãe, foi ajudar o irmão na venda de pão porta-a-porta. Começava de madrugada e trabalhava sete dias por semana. Ao sábado saía de casa por volta das quatro da manhã e só terminava a meio da tarde. “As pessoas alimentavam-se muito de pão. Era para o campo, para os miúdos, para toda a gente”, recorda. E, embora não gostasse da dureza desse trabalho, foi aí que perdeu a timidez e aprendeu a lidar com o público. “Era um bicho do mato, não sabia comunicar”, confessa.
Quando surgiu a oportunidade de ocupar o espaço onde ainda hoje funciona a Loja da Ana, decidiu abraçar o desafio. Começou com uma pequena loja ligada à marca Galinha Gorda, juntou charcutaria, fruta e mercearia e foi crescendo sem parar. Em 2006 fez a primeira remodelação. Em 2013 aderiu ao grupo Amanhecer, tornando-se uma das primeiras lojas da rede, mas preservou o nome pelo qual todos a conhecem. Em 2019 avançou para a maior transformação do espaço, instalando painéis solares e equipamentos frigoríficos mais eficientes. Hoje a loja tem talho, charcutaria, fruta, legumes, padaria, pastelaria, congelados e produtos de mercearia.

Clientes são como família
Com Ana trabalham quatro mulheres jovens, todas da Carregueira. “Já somos cinco comigo”, diz, orgulhosa de um negócio que emprega mulheres da freguesia e oferece oportunidades numa localidade onde as alternativas são escassas. É também na relação com os clientes que a Loja da Ana reforça a sua dimensão humana. Muitas pessoas idosas vão ali várias vezes por semana, não apenas para comprar, mas para conversar. Algumas vivem sozinhas, outras têm os filhos longe ou deixaram de conduzir. “Somos como uma família alargada. As pessoas desabafam, partilham”, conta. Quando alguém que costuma aparecer todos os dias deixa de ir, nota-se a ausência e tenta-se perceber se está tudo bem com a pessoa.
Na Loja da Ana ainda se vende fiado. Ana Marques conhece quem ajuda e sabe distinguir uma dificuldade passageira de um incumprimento sem justificação. Há clientes, explica, que pagam quando recebem a reforma e outros que pedem para adiar mais um mês porque apareceu uma despesa inesperada. “Temos de calçar um bocadinho os sapatos do outro. Não estamos aqui só para vender e receber”, afirma. Para trabalhar ao balcão, defende, é preciso humildade, simpatia e disponibilidade para ouvir.
A rotina começa às 07h30, com um café e a organização da fruta, que faz questão de apresentar impecável. Depois passa grande parte do dia no talho, área que assumiu devido à dificuldade em encontrar trabalhadores especializados. A carne é cortada na hora e muitos produtos chegam de fornecedores com quem mantém relações antigas. A qualidade, garante, é a principal arma para competir com as grandes superfícies.
Ana Marques rejeita a ideia de que os hipermercados são sempre mais baratos. Ainda assim, reconhece que o comércio local enfrenta uma pressão crescente. Desde a pandemia, considera, os preços subiram e o poder de compra diminuiu. “Há dias do mês em que os clientes entram apenas para comprar pão e pouco mais”, nota. Ao mesmo tempo, salários, seguros, Segurança Social, electricidade e impostos pesam cada vez mais.

O desejo de voltar a estudar
Aos 50 anos, a empresária continua a pensar em novos equipamentos, em reduzir consumos e em melhorar a loja. A filha Mariana, de 25 anos, estuda Gestão e trabalha no espaço, embora reconheça que a sucessão não pode ser imposta. Há também um desejo pessoal que ganhou força: voltar a estudar, já que largou cedo a escola e sente que lhe falta formação nas áreas da gestão ou do marketing. Não procura apenas uma equivalência, mas conhecimentos que possa aplicar no negócio. “Quero aprender mais, sinto essa necessidade”, afirma.
Férias são raras e resumem-se, muitas vezes, a uma semana por ano. Mesmo assim, quando sai, garante que consegue desligar porque confia na equipa. A reforma ainda parece distante pela dificuldade de imaginar uma vida sem horários apertados, encomendas e clientes. “Faz-me confusão não ter nada para fazer”, admite a empresária, que acredita que “o comércio local tem futuro, desde que seja bem trabalhado e assente na qualidade, no dinamismo e na proximidade”.

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