Joaquim Perdigoto Ramos: a vida entre o volante do autocarro e o associativismo
Aos 54 anos, Joaquim Ramos continua a dividir os dias entre o volante de um autocarro e a gestão do CPCD da Póvoa de Santa Iria. O dirigente fala das mudanças na profissão, da legionella que o atacou, da desilusão com a política e dos desafios de manter viva uma colectividade que está prestes a completar meio século.
Há quase 30 anos que Joaquim Perdigoto Ramos transporta passageiros pelas estradas da Área Metropolitana de Lisboa. Ao longo desse tempo ouviu reclamações, pedidos de informação, desabafos e até insultos. A experiência ensinou-lhe uma regra simples: nem sempre vale a pena responder. “A culpa é sempre do motorista”, diz, sem alterar o tom de voz. “Se o autocarro avaria, a culpa é do motorista. Se há trânsito e chegamos atrasados, a culpa é do motorista. Aprendi a contar até dez”, conta.
Aos 54 anos, o presidente da direcção do Centro Popular de Cultura e Desporto (CPCD), na Póvoa de Santa Iria, fala da profissão com a mesma naturalidade com que fala da colectividade que dirige desde 2016. São duas responsabilidades diferentes, mas que têm algo em comum: ambas exigem paciência, capacidade para ouvir e alguma resistência ao desgaste.
Natural de Rosmaninhal, no concelho de Idanha-a-Nova, chegou à Póvoa de Santa Iria com apenas 16 anos. Como tantos outros jovens do interior do país nas décadas de 1980 e 1990, procurava trabalho e melhores condições de vida. A vila que encontrou pouco se parece com a cidade de hoje. Os primeiros anos foram passados em vários empregos. Trabalhou na assistência técnica de máquinas de café, foi estofador e contínuo numa universidade privada. O gosto pelos autocarros surgiu por influência de um amigo. “Tinha um colega que trabalhava na EVA e um dia levou-me a conhecer um autocarro. Fiquei apaixonado. Parece uma coisa simples, mas foi assim que começou”, conta.
Na altura ainda não podia seguir a profissão. A legislação obrigava a esperar alguns anos para obter as cartas necessárias. Quando finalmente chegou a idade certa, não hesitou. Hoje acumula 28 anos de serviço na Rodoviária de Lisboa e diz que assistiu a uma transformação profunda da profissão. “Quando comecei havia mais respeito. As pessoas entravam e diziam bom dia. Hoje nota-se mais impaciência. Só estamos ali para os servir; por vezes, nem mostram o passe”. Apesar disso, continua a gostar do que faz. O que o desgastou verdadeiramente foram os horários. “Fiz muitos anos noites e madrugadas. É um grande desgaste. Desde os 45 anos que só faço as madrugadas até ao meio-dia”, conta.
Do associativismo à política
Se a profissão o ensinou a lidar com pessoas, o associativismo ensinou-o a trabalhar para elas. Entrou no movimento associativo pela mão do sogro, no Grupo Desportivo Bragadense. O gosto pela música popular portuguesa levou-o a integrar um grupo de cavaquinhos e mais tarde assumiu responsabilidades no rancho folclórico e começou a participar na gestão da colectividade. Quando fala desse período surgem inevitavelmente os nomes de Joaquim Baião, no Bragadense, e de Manuel Alfaiate, no CPCD, duas referências do associativismo local. “Foram pessoas que me marcaram muito. Aprendi muito com eles”, recorda.
Pelo meio ainda passou pela política. Foi eleito na Assembleia de Freguesia da Póvoa de Santa Iria pelo Bloco de Esquerda, uma experiência que terminou em 2013. “Acho que os partidos políticos são um bocado complicados. Desiludi-me muito com a política”, sublinha. De 2009 a 2013, fez parte dos órgãos sociais do ATL da Bolonha e acompanhou a construção e inauguração do edifício que é hoje o principal da IPSS.
CPCD espera devolução do IMI pago
Em 2016, Joaquim Perdigoto Ramos participou numa assembleia-geral do CPCD. O então presidente estava de saída e não aparecia ninguém disposto a assumir a liderança do clube. Desafiou os pais dos jogadores da equipa de futsal em que o filho também jogava e apresentaram uma lista. O que era para ser um contributo temporário transformou-se numa década de trabalho. Hoje o CPCD vive um dos momentos mais importantes da sua história. As obras do pavilhão estão na fase final e devem ser inauguradas nos 50 anos do CPCD em Novembro deste ano.
Nem tudo correu sem sobressaltos. Um dos problemas mais complicados surgiu quando o edifício passou a estar registado em nome do CPCD, porque estava cedido pela câmara em direito de superfície e não pagava IMI. Pouco depois chegaram cobranças de IMI relativas a anos anteriores, num valor próximo dos 45 mil euros, e que foram pagas, mas contestadas. “A câmara foi espectacular. O advogado explicou a situação e fez uma carta de recomendação, mas as Finanças só gostam é de receber”, lamenta.
O dirigente destaca a obtenção do estatuto de utilidade pública em 2024 como uma das conquistas da colectividade e a capacidade de atrair dirigentes mais jovens para a vida associativa. “Em Março do ano que vem vamos a eleições, ainda não sei se me recandidato ou não. Mas, se me for embora, vou deixar aqui um milhão de euros em património para quem vier”, explica.
Enquanto a data não chega, continua a ter como passatempo tocar cavaquinho no grupo de música portuguesa do clube e a seguir os conselhos da esposa, que o acompanha em tudo. “Não quero ser recordado por ninguém. Faço isto porque gosto e porque é a minha maneira de estar”, afirma. Entre os projectos que gostaria de concretizar estão a criação de campos de padel e o desenvolvimento de uma pista de motocross, uma ideia ainda em fase de estudo e que poderá vir a localizar-se na zona ribeirinha da Póvoa de Santa Iria.
Sofreu com a legionella e criou associação
Um dos momentos mais difíceis da sua vida aconteceu em 2014. Foi uma das vítimas do surto de legionella que atingiu o concelho de Vila Franca de Xira e esteve internado 17 dias. A experiência levou-o a criar e depois a assumir a presidência da Associação de Apoio às Vítimas do Surto da Legionella, onde durante anos acompanhou processos judiciais, reuniões e reivindicações de centenas de pessoas afectadas. Foi uma luta que considera justa, mas que o deixou desgastado. “Acho que as fábricas deviam ter assumido a culpa. Em Portugal há justiça para ricos e para pobres e o Estado português consegue cansar o cidadão comum da da classe média ou pobre, porque o rico arranja advogados e esta sempre salvo”, reitera.


