Três sócios, um carro velho e uma empresa que cresceu
Acácio Sousa, fundador da Acessomatic, em Alverca, tem 72 anos e está reformado, mas continua a entrar diariamente na empresa que criou em 1999. Começou com dois antigos colegas, pouco dinheiro e um carro velho transformado a gás para visitar clientes. Hoje a empresa tem cerca de 38 trabalhadores e factura cerca de 10 milhões de euros. O fundador prepara uma saída gradual, mas já pensa num novo desafio ligado à construção civil.
Aos 72 anos, Acácio Sousa continua a entrar diariamente na Acessomatic, empresa que fundou em 1999, em conjunto com dois antigos colegas. Está reformado, mas a reforma não o afastou da empresa que começou com três pessoas, pouco dinheiro e um carro velho transformado a gás para visitar clientes. Hoje são cerca de 38 trabalhadores e a facturação ronda os 10 milhões de euros. Quase três décadas depois, o fundador continua a gostar do desafio de encontrar soluções e já pensa numa nova etapa, ligada à construção civil.
Acácio Sousa não estava propriamente a pensar criar uma empresa quando nasceu a Acessomatic. Trabalhava como comercial numa empresa da mesma área e, depois de alguns anos, fartou-se. Um dia desabafou que se ia embora. Dois colegas ouviram-no e acabaram por lhe propor que criassem uma empresa juntos. Foi assim que, em 1999, os três avançaram. Sem grandes meios financeiros, mas com vontade. Acácio tinha algum dinheiro, mais do que os outros dois, mas não havia capital abundante para começar. Havia, contudo, um carro velho. “Começámos sem dinheiro, com aquilo que tínhamos. Tinha um carro já velho, antigo, e transformei-o a gás para poder andar a visitar clientes. Foi assim que a empresa começou”, conta.
A Acessomatic começou no Bairro da Fraternidade e mais tarde mudou-se para Alverca. Actualmente tem também dois armazéns nos Casais Novos, no Carregado, onde as máquinas estão instaladas desde Maio de 2025. A necessidade de mais espaço esteve na origem da mudança. Acácio Sousa diz que nunca houve um momento específico que possa apontar como o grande marco da sua carreira. Tudo foi acontecendo naturalmente. Mesmo quando foi necessário mudar de instalações e fazer investimentos significativos, avançou porque era preciso. “Fui sempre muito poupado e quis sempre pôr um travão por causa do investimento que era preciso fazer. Mas ainda bem que as pessoas estavam comigo e avançámos”, diz.
“Gosto muito de vencer na vida”
O que considera ter sido determinante nos primeiros anos da empresa é mais simples de explicar: a vontade. “Eu gosto muito de vencer na vida, em tudo aquilo que faço e em que me meto. Não consigo imaginar que perco”. É uma característica que reconhece em si próprio e que, diz, continua presente. Quando entra numa coisa é para que resulte. A isso junta a facilidade de relacionamento com as pessoas e uma experiência profissional que já vinha de trás.
A engenharia industrial ocupou uma parte importante do seu percurso profissional e esteve sempre ligado às máquinas. A experiência comercial veio depois, quando foi trabalhar para outra empresa. Foi nessa combinação entre conhecimento técnico e contacto com os clientes que encontrou uma das bases para fazer crescer a Acessomatic. A empresa continuou a crescer mesmo em períodos particularmente difíceis. O empresário recorda, por exemplo, que em 2010, durante a crise financeira, a Acessomatic continuou a crescer.
A área em que trabalha também mudou profundamente. Quando a empresa começou, em 1999, a automatização já existia, mas a tecnologia evoluiu muito desde então. Dá como exemplo os autómatos utilizados nos sistemas de automação, que antigamente podiam ter dimensões muito maiores do que os equipamentos actuais. “A evolução foi enorme. A robótica veio trazer muita coisa”, afirma.
Fazer à medida do cliente
Acácio Sousa também conhece bem as diferenças entre trabalhar em Portugal e noutros países. Na sua perspectiva, a principal diferença não está necessariamente na capacidade das pessoas, mas nos recursos disponíveis para desenvolver novas soluções. “As diferenças são simples: eles têm muito mais dinheiro para desenvolvimento e nós não.”
Em Portugal, explica, muitas vezes é necessário construir “o fato à medida do cliente”, tendo em conta aquilo que cada empresa pode gastar. A Acessomatic trabalha para vários sectores da indústria, entre os quais o automóvel, o farmacêutico e o alimentar, sendo uma actividade transversal a diferentes áreas.
A empresa trabalha sobretudo na zona de Lisboa e Setúbal, embora tenha clientes em todo o país e também já tenha realizado trabalhos no estrangeiro. Uma equipa esteve recentemente no México a montar uma máquina que tinha sido desmontada em Portugal. A empresa também já trabalhou em Espanha e na China. Uma das dificuldades que mais sente actualmente é encontrar trabalhadores especializados. A Acessomatic tem actualmente cerca de 38 funcionários. Muitos estão na empresa há vários anos e alguns chegaram sem conhecimentos suficientes na área da automação. A empresa deu-lhes oportunidade de aprender e evoluir.
Também a facturação cresceu. A empresa começou com cerca de 500 mil euros e actualmente factura cerca de 10 milhões de euros. Mas Acácio Sousa faz questão de separar facturação de rentabilidade. “Eu vivi muito melhor há 20 anos, quando tinha seis pessoas, do que vivo agora com as 38 e com o volume de negócios que temos”. As margens são hoje muito mais pequenas e considera que a carga fiscal também é muito maior. Os clientes continuam a exigir que o trabalho seja feito e bem feito, mas a negociação dos preços tornou-se mais difícil. “Se fosse hoje, não teria feito a empresa”, desabafa.
A decisão que considera mais importante e mais difícil no percurso empresarial aconteceu em 2010. Na altura existia outra empresa e eram cinco sócios. Acácio Sousa acabou por ficar com outro sócio, enquanto os restantes três saíram. A partir daí, continuou o caminho com a Acessomatic. E nunca chegou a pensar seriamente em desistir. “Não gosto de perder. Tudo o que meto nas coisas é mesmo para elas acontecerem”, reafirma.
Uma das coisas que ainda o entusiasma é o lado técnico do trabalho e, sobretudo, o prazer de encontrar soluções. “É o prazer da descoberta”, diz. Dá o exemplo de uma fábrica onde lhe pedem para encontrar uma solução para uma linha onde trabalham 20 pessoas. Vai ao local, analisa o problema e procura uma forma de melhorar o processo. É essa parte do trabalho que continua a ligá-lo à Acessomatic. A área comercial, que exerceu durante anos, foi entretanto deixada para o outro sócio. Acácio Sousa dedica-se sobretudo à parte das máquinas.
Uma empresa que é como um filho
A composição da sociedade também mudou ao longo dos anos. Actualmente são três sócios: Acácio Sousa, o filho e outro sócio, que considera como sendo da família. O filho está profundamente envolvido na empresa e, segundo o fundador, chega a sair muitas vezes às dez e meia ou onze da noite. A sucessão está a acontecer gradualmente. Acácio Sousa já comunicou aos sócios que, a partir do próximo ano, pretende deixar de ir todos os dias. Não significa, porém, que queira desligar-se da empresa. Pelo contrário. Acredita que a Acessomatic continuará sem ele na presença diária e imagina-se ainda ligado ao negócio daqui a dez anos. A empresa é, para Acácio Sousa, mais do que um negócio: “É como se fosse um filho meu. Foi o desafio da minha vida em termos profissionais”.


