“Muita gente continua impreparada para a catástrofe que vai chegar”
Há trinta anos que Acácio Raimundo, um apaixonado pelo radio-amadorismo, coordena o serviço municipal de Protecção Civil em Arruda dos Vinhos. Quem o conhece sabe que é um comandante organizado e, acima de tudo, preparado para dar resposta ao pior que possa acontecer no concelho. O mau tempo do último Inverno foi o pior cenário que já viveu no cargo.
Apesar dos avisos e dos alertas, muita gente continua a não estar preparada para uma catástrofe que, mais cedo ou mais tarde, mas inevitavelmente, vai chegar. O alerta é de Acácio Raimundo, 67 anos, coordenador da Protecção Civil Municipal de Arruda dos Vinhos (PCM). “É preciso não continuar a dourar a pílula e é preciso dizer às pessoas, frontalmente e francamente, que tenham atenção e cuidado. Há gente que continua sem ter um kit de emergência nem reservas de alimentos em casa. Muita gente nem sequer combinou com a família um ponto de encontro em caso de emergência”, avisa a O MIRANTE.
Acácio Raimundo não sabe quando nem qual será a natureza da próxima emergência, mas depois de quase 30 anos a comandar a Protecção Civil Municipal não acredita que seja uma questão de “se”, mas de “quando”. Um sismo, uma tromba de água, um grande deslizamento de terras ou uma falha prolongada de electricidade ou de água: a sua preocupação é que a população esteja preparada quando algo acontecer.
“Eu pensava que com a Covid iríamos melhorar enquanto sociedade, sermos mais empáticos uns com os outros e não vejo melhoras nenhumas na população, isso entristece-me”, lamenta. Para o comandante a pandemia deveria ter deixado a sociedade mais consciente da sua vulnerabilidade mas isso não aconteceu. “Continua a haver pessoas que ignoram os avisos, que deixam os carros debaixo de árvores mesmo quando há previsão de vento ou de mau tempo”, critica.
Acácio Raimundo nasceu em Lisboa e foi ainda muito novo para Angola, onde viveu durante 15 anos. Essa experiência, diz, deu-lhe “um estofo bom para andar nesta missão”. Antes de se dedicar inteiramente ao socorro teve várias vidas profissionais. Passou pelo serviço militar, trabalhou numa empresa metalomecânica e foi motorista de camiões de mercadorias. Acabou por ser nos bombeiros que encontrou a sua verdadeira missão. A formação, a disciplina e as situações vividas deram-lhe o conhecimento necessário para assumir depois a coordenação da Protecção Civil Municipal.
Arruda aprendeu a conhecer os perigos
O último Inverno foi, para o responsável, o episódio mais difícil dos seus 30 anos de liderança. Não apenas pela dimensão das intempéries mas pelo impacto que tiveram na vida de dezenas de pessoas desalojadas. “Ver o trabalho de uma vida inteira a desaparecer e ficar sem casa foi uma imagem que me chocou imenso”, lamenta. Acácio Raimundo é um apaixonado por meteorologia e três dias antes dos temporais já Arruda dos Vinhos estava preparada para o que acontecesse, com geradores, casas de apoio e meios no terreno. “Temos a casa arrumada e uma rede de comunicações com repetidor que não depende exclusivamente do SIRESP para funcionar. Se chover, por exemplo, 40 litros por metro quadrado numa hora, sabemos que vai haver problemas”, explica.
O concelho tem zonas sensíveis identificadas pela Protecção Civil Municipal. O rio Grande da Pipa, por exemplo, é uma delas, com tendência para alagar a zona das Corredouras e da Várzea. Depois, como se comprovou no último Inverno, os deslizamentos de terras, causados sobretudo pela natureza argilosa dos terrenos, aliada aos declives acentuados, são outra fonte de preocupação. “No Lapão já existiam pequenos sinais de instabilidade naquela zona, mas ninguém imaginava a dimensão que o fenómeno acabaria por assumir. Ainda hoje monitorizamos aquela zona semanalmente e mesmo com o tempo seco continuamos a registar pequenos deslizamentos. Enquanto eles continuarem, as pessoas não poderão voltar a casa”, lamenta.
Quando chega a casa, em Arranhó, gosta de tratar das árvores de fruto e dos animais, passando depois algum tempo a falar com o resto do mundo através do rádio amador. Acácio Raimundo prevê um Inverno potencialmente chuvoso e sabe que não é preciso uma tempestade extraordinária para causar problemas em Arruda: basta chuva persistente durante vários dias para destruir uma zona ainda bastante fragilizada.
Bombeiros em Arranhó
O responsável olha com bons olhos para a futura extensão dos bombeiros em Arranhó. O edifício - que está em construção - poderá criar melhores condições de resposta naquela zona distante da sede de concelho, mas faltam pessoas. Uma secção operacional, avisa, precisa de 25 elementos, entre chefias e bombeiros. E uma equipa dessas não aparece de um dia para o outro. “Uma extensão do quartel dos bombeiros não é só um edifício ou um armazém, precisa de ter gente dentro. E é isso que ainda vamos ver como fazer”, conclui.


