Laura Cruz: “O minimercado é a rede social da nossa zona”
Aos 62 anos, Laura Cruz está à frente do minimercado fundado pelos pais em 1978, no Porto Alto. Entre fruta de produtores locais, produtos regionais e conversas ao balcão, procura manter vivo um comércio de proximidade que resiste à concorrência das grandes superfícies e à mudança dos hábitos de consumo.
Quando os pais abriram o Minimercado Norberto Cruz, na Rua 1.º de Maio, no Porto Alto, em 1978, Laura tinha 14 anos. Nascida e criada na localidade, ainda estudava e não imaginava que aquele espaço acabaria por marcar a sua vida profissional. “Imaginava tudo menos isto”, recorda. Na altura, havia três minimercados ou mercearias no Porto Alto e, no estabelecimento da família, chegavam a trabalhar seis ou sete pessoas ao balcão. “A população vinha aqui em peso”, conta.
Laura Cruz guarda desse tempo a memória de uma relação que ia muito além da compra e venda. Os clientes tornavam-se amigos, quase família, e as datas importantes eram comemoradas em conjunto. Muita coisa mudou, mas a proximidade continua a ser o traço que mais valoriza. Há clientes que entram apenas para conversar ou dizer bom dia, como é exemplo uma senhora de 96 anos que continua a frequentar o espaço comercial.
A comerciante estudou inicialmente até ao nono ano e completou mais tarde o 12.º. Conciliou o minimercado com outras actividades de vendas, numa época em que eram comuns as vendas por catálogo, sobretudo de têxteis para o lar. Tem hoje, como refere, 45 anos de trabalho. Dos pais herdou a forma de lidar com quem entra pela porta. Se um produto faltava, explicava-se ao cliente quando voltaria a estar disponível, muitas vezes nessa tarde ou no dia seguinte. É uma atenção que considera decisiva. O bairro também se transformou. Alguns dos clientes mais antigos foram desaparecendo e chegaram novos moradores. A proprietária diz que os imigrantes, em particular de nacionalidade brasileira e de origens africanas, procuram e apreciam particularmente este tipo de comércio.
A composição das vendas mudou igualmente. Os produtos tradicionais de mercearia perderam peso e a fruta tornou-se o centro do negócio, representando, segundo Laura Cruz, cerca de 80% das vendas. A loja aposta ainda nos frescos e nos produtos regionais, com vinhos e mel da região, enchidos do Alentejo e, sempre que possível, produtos comprados a produtores locais, como batata-doce ou ameixa. É na qualidade que procura disputar clientes aos supermercados. Diz que quem compra no minimercado nota diferenças no sabor e no cheiro dos produtos. “A minha fruta tem uma fama desgraçada”, afirma.
Hábitos de consumo mudaram
Os hábitos de consumo já pouco têm a ver com os de outros tempos. “Desde 2020, não é nada daquilo que era”, afirma. Considera que as pessoas vivem cada vez mais do pronto a comer e recorda que desapareceram os grandes “avios”. Hoje, as compras são sobretudo do dia-a-dia, para resolver aquilo que falta em casa. As encomendas maiores continuam a existir, sobretudo para abastecer lares e restaurantes do Porto Alto.
Embora diga que só este ano começou formalmente com o negócio em seu nome, explica que desde há cinco ou seis anos assume grande parte da responsabilidade. Desde então procura renovar a oferta, encontrar novos queijos e enchidos e acompanhar os produtos da época.
Perante a proximidade de supermercados e grandes superfícies, resume a fórmula para continuar a competir em duas palavras: “qualidade e simpatia”. É essencial, diz, ouvir as pessoas e adaptar os produtos ao cliente. E o balcão transforma-se muitas vezes num lugar de conversa. “Costumo dizer que somos médicos, padres e psicólogos”. Há quem entre e aproveite para desabafar, numa altura em que, considera, as pessoas vivem cada vez mais em stress.
Manter uma pequena loja aberta é, ainda assim, “uma luta constante”. Além dos produtos alimentares, onde se incluem frutas, legumes, bebidas e congelados, vende artigos de perfumaria, higiene e pastelaria. Entre as maiores dificuldades aponta os custos de funcionamento e os impostos e considera que o comércio tradicional está esquecido. “Não está morto. Está esquecido. Sentimo-nos um pouco sozinhos e não há apoios”, confessa.
A ligação ao associativismo
Laura Cruz admite vontade de modernizar e diz que vai fazendo alterações, mas aos 62 anos pondera com cuidado os próximos passos. A continuidade familiar não parece estar no horizonte. Os filhos estão profissionalmente encaminhados e “não estão para aí virados”. Ela própria admite que houve alturas em que teve vontade de fazer outra coisa, antes de repensar e continuar.
Fora do minimercado, esteve ligada ao associativismo, passando por colectividades como a AREPA, a Comissão de Festas e a Comissão de Pais, incluindo a comissão instaladora que reivindicou a cantina para a escola. Quanto ao futuro da localidade, acredita que o novo aeroporto fará crescer a zona e diz que os efeitos já se notam nos preços das casas e dos quartos. No minimercado, as pessoas perguntam-lhe frequentemente por casas para arrendar. “No fundo, acabamos por ser a rede social da zona”, diz. Laura Cruz gostaria ainda de ver reabrir o posto médico que o Porto Alto já teve e considera útil a criação de uma Loja do Cidadão.


