Sílvia Brota encontrou nas telas um refúgio onde dá expressão aos sentimentos
Natural de Constância, Sílvia Brota trabalha há 27 anos na biblioteca municipal mas tornou-se pintora nas horas vagas, após começar a desenhar a carvão em 2010, numa fase difícil da vida. Hoje pinta a acrílico, já conta com seis exposições de sua autoria e prepara novos projectos que juntam pintura e literatura.
Sílvia Brota sempre gostou de arte, mas nunca teve formação na área nem imaginou que a pintura acabaria por ocupar um espaço tão importante na sua vida. Em 2010, numa fase pessoal particularmente difícil, começou a desenhar a carvão. Entre 2012 e 2014 surgiram as suas primeiras exposições. Depois parou durante alguns anos e voltou à arte em 2025, desta vez através da pintura a acrílico e a cores.
O que começou por ser um refúgio transformou-se num passatempo que hoje já lhe valeu seis exposições. Sílvia Brota, de 47 anos, pinta de forma autodidacta, partindo muitas vezes de uma imagem, mas transformando-a completamente através da sua própria interpretação. Trabalha há 27 anos na Biblioteca Municipal de Constância, como técnica de biblioteca. E é em bibliotecas que tem realizado parte significativa das suas exposições. Uma proximidade que considera natural, sobretudo por acreditar que podem ser importantes pontos de encontro entre diferentes formas de expressão artística. Foi também através desse trabalho que descobriu outros artistas na comunidade. Ao longo do último ano, conta ter encontrado sete pessoas da sua terra que, tal como ela, tinham actividades artísticas como passatempo e escape e que nunca tinham mostrado publicamente aquilo que faziam. Acabou por convencer alguns a expor os seus trabalhos na biblioteca.
Sílvia Brota não segue um tema único nem uma técnica rígida e considera precisamente essa liberdade uma das características das suas peças. “Sempre gostei de pintura, mas tinha receio de não saber fazer, porque não tenho qualquer tipo de formação na área”, conta. Durante anos teve até um estojo de pintura da Van Gogh que lhe ofereceram, mas que permaneceu guardado. Apenas após o sobrinho ter feito uso do material, durante a pandemia de Covid, é que acabou por ter a coragem de o experimentar. “Pensei, se ele consegue, será que eu não consigo?”, recorda, dizendo que a experiência acabou por ficar e continuar.
A passagem do preto e branco do carvão para a cor e pintura acrílica trouxe-lhe uma nova liberdade e hoje é uma das marcas do seu trabalho. “Estou totalmente outra Sílvia e na parte da pintura, quando fiz a primeira, pensei: afinal, não é difícil e sinto uma liberdade enorme”, afirma. Apesar de não querer transformar a pintura numa obrigação, reconhece que as telas lhe permitem exteriorizar sentimentos difíceis de colocar em palavras. Quando pinta, desliga-se do mundo e fica concentrada apenas naquele momento. “Os sentimentos que estão cá dentro, que por vezes é muito difícil de exteriorizar, mas na pintura torna-se mais fácil”, explica.
Pintar funciona como um espaço de introspecção, onde pode transformar emoções em imagens e deixar que cada pessoa faça depois a sua leitura. Não procura controlar a interpretação de quem vê os seus quadros e considera que uma mesma obra pode transmitir coisas diferentes a pessoas diferentes. A lua é uma presença frequente nas suas pinturas, tal como o sol, a figura feminina e, mais recentemente, referências africanas e asiáticas, tendo as cores quentes também um papel central. “O luar transmite-me muita calma, paz e serenidade”, explica, confessando que só mais tarde percebeu que a lua surgia em grande parte dos seus trabalhos.
Sem obrigação, mas com vontade de crescer
Embora não veja a pintura como uma profissão, Sílvia Brota admite que gostaria que ocupasse mais espaço na sua vida. Não acredita, porém, que consiga viver exclusivamente da actividade artística e prefere manter a liberdade que tem. “Não gosto muito de pintar com sentido de obrigação”, afirma, acrescentando que quando alguém lhe pede para pintar uma paisagem específica ou seguir uma determinada ideia, sente dificuldade em fazê-lo. A pintura continua a ser, acima de tudo, o seu espaço de liberdade.
Em apenas um ano, passou de uma experiência privada para uma actividade com seis exposições realizadas e actualmente está a preparar um projecto que pretende juntar pintura e literatura. A proposta passa por criar uma série de quadros subordinada ao tema ‘Para Além das Montanhas’, que depois será acompanhada por textos escritos por um autor, numa construção conjunta entre imagem e palavra. A experiência será um desafio novo. “Terá de haver uma interligação do que ele pensa e do que eu penso, para transportar para o papel. Que é difícil, mas gosto do desafio”, diz.
Além disso, há também um quadro que gostaria de fazer um dia: uma obra que reúna um pouco de tudo o que foi a sua vida, através de objectos, paisagens, símbolos ou até um olhar. Ainda não sabe quando surgirá essa tela, mas enquanto isso, continua a pintar, quase sempre acompanhada por música clássica ou bandas sonoras e a encontrar nas pinturas aquilo que encontrou inicialmente no carvão: uma forma de se refugiar, experimentar e expressar aquilo que sente.


