Identidade Profissional | 28-10-2026 07:00

Cristiana Cabral descobriu na farmácia uma forma de cuidar das pessoas

Cristiana Cabral descobriu na farmácia uma forma de cuidar das pessoas
IDENTIDADE PROFISSIONAL
Cristiana Severino é farmacêutica na Farmácia Varela, no Carregado, e acredita que ouvir e conhecer os utentes é tão importante como dispensar medicamentos - foto O MIRANTE

Cristiana Cabral é farmacêutica na Farmácia Varela, no Carregado, desde 2018. O gosto pela profissão nasceu ainda na adolescência, durante as visitas ao avô, técnico de farmácia, e acabou por lhe mudar também a personalidade. Acredita que ser farmacêutico vai muito além de dispensar medicamentos e que ouvir, aconselhar e conhecer quem está do outro lado do balcão faz toda a diferença.

Cristiana Cabral recorda-se de ser uma pessoa muito introvertida. Gostava de estar no seu canto, não procurava protagonismo e não imaginava que a profissão que escolheu a ajudaria a tornar-se mais desinibida. A experiência na Farmácia Varela, integrada no Grupo Varela, contribuiu para essa mudança e permitiu-lhe crescer a nível pessoal e profissional.
O interesse pela Farmácia começou a despertar quando tinha 13 ou 14 anos. Durante as férias da Páscoa e do Verão, passava algum tempo com o avô, que era técnico de farmácia, e foi ganhando curiosidade pelos medicamentos e pelo trabalho desenvolvido. O contacto com o público também a cativou, apesar da timidez. As pessoas deixam-na à vontade e as conversas fluem naturalmente. Desde 2018 trabalha na Farmácia Varela, no Carregado, e vive em Alpiarça. Ao longo do seu percurso encontrou uma profissão em que a componente humana tem tanto peso como a técnica. O Grupo Varela, sublinha, deu-lhe as ferramentas necessárias para se tornar na farmacêutica que é hoje e sempre acreditou nas suas capacidades.

Ouvir também faz parte do tratamento
O trabalho de um farmacêutico não se resume a entregar medicamentos. Quando alguém chega ao balcão a pedir um remédio para a gripe, por exemplo, é importante perceber primeiro quais são os sintomas e o que a pessoa está a sentir. Só assim é possível avaliar se aquilo que procura é a opção mais adequada ou se existe uma alternativa mais indicada. É essa atenção que procura colocar em cada atendimento. Considera que os utentes valorizam quando percebem que existe uma preocupação genuína em ajudá-los e não apenas em vender ou dispensar um medicamento.
A farmacêutica considera que essa essência se manteve desde que começou a trabalhar na área. Há pessoas que já não vivem no Carregado, mas continuam a deslocar-se à Farmácia Varela porque estão habituadas à equipa e à forma como são recebidas. A familiaridade, a disponibilidade de medicamentos e o cuidado no atendimento ajudam a construir uma relação de confiança que não se estabelece de um dia para o outro.
A facilidade de acesso à informação também trouxe novos desafios ao trabalho dos farmacêuticos. Cristiana Cabral conta que já recebeu utentes que chegam ao balcão convencidos de que sabem exactamente o que precisam, depois de pesquisarem na Internet ou recorrerem à inteligência artificial. Nessas situações, procura perceber os sintomas e alerta o utente de que nem toda a informação encontrada online é a mais adequada. “O ChatGPT nunca pode substituir o farmacêutico”, defende.
A tecnologia poderá facilitar tarefas e até automatizar alguns procedimentos, admite, mas não conseguirá reproduzir a relação pessoal que se constrói com os utentes. Recordar que alguém fez anos na semana anterior, perguntar pelo aniversário de um filho ou retomar uma conversa antiga são pequenos gestos que fazem parte de um atendimento próximo.
A pandemia de Covid-19 foi uma das experiências que mais a marcou profissionalmente. A necessidade de reorganizar a farmácia, gerir as exigências do momento e lidar com as preocupações das pessoas tornou aquela fase particularmente difícil. Foi também um período que, acredita, contribuiu para o crescimento dos profissionais.

Mais médicos de família e uma resposta de saúde mais próxima
Se pudesse mudar alguma coisa no Serviço Nacional de Saúde (SNS), admite que há muito por fazer. Considera que as pessoas se sentem perdidas perante as respostas disponíveis e aponta dificuldades no funcionamento da linha SNS 24, nomeadamente os tempos de espera e as falhas que os utentes lhe relatam. No concelho de Alenquer, particularmente no Carregado, identifica a falta de médicos de família como uma das necessidades mais importantes. Na sua perspectiva não basta garantir que uma pessoa consegue obter uma receita. É necessário acompanhar a sua situação clínica, avaliar os resultados das análises e perceber se a medicação continua a ser adequada.
A valorização da profissão farmacêutica é uma das questões que gostaria de discutir com a ministra da Saúde, também farmacêutica, a quem convidaria para um café. Cristiana Cabral entende que as farmácias já desempenham um papel importante no apoio ao SNS, nomeadamente através da vacinação e de outros serviços que ajudam a responder às necessidades da população. Mas diz que há margem para alargar as funções dos farmacêuticos, à semelhança do que acontece noutros países, onde podem intervir em determinadas situações de saúde comuns.
A farmacêutica define-se como uma pessoa que gosta de ter tudo “em pratos limpos”. No trabalho, procura resolver os problemas e garantir que a equipa funciona bem, embora reconheça que nem sempre é fácil manter tudo organizado quando a farmácia está particularmente movimentada.
Também na vida pessoal se preocupa com os outros, ainda que nem sempre demonstre essa preocupação de forma directa. Admite que tem dificuldade em esconder o que sente. Se alguma coisa não corre como gostaria, as emoções acabam por se notar. É com o marido, a família e os amigos que encontra alguns dos seus maiores motivos de alegria. Na farmácia, também a deixa feliz sentir que os utentes estão bem e que existe um bom ambiente entre os elementos da equipa.

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