“Vila Franca de Xira tem uma história de resistência e não deve esquecer esse papel”
Maria Odete Capucha, presidente da Associação Alves Redol, defende uma maior articulação entre o Museu do Neo-Realismo, a associação, a Câmara de Vila Franca de Xira e as colectividades locais. Lamenta um afastamento da população em relação aos valores cívicos e à memória antifascista, e por isso tem dedicado parte da sua vida à dinamização cultural e à divulgação do legado de Alves Redol.
Maria Odete Capucha condensa uma vida marcada pela consciência social, pela militância de esquerda e pela vontade de manter viva a memória de uma cidade que teve um papel importante na resistência ao fascismo. Aos 74 anos, depois de uma doença grave e de décadas dedicadas à família e ao trabalho, continua a acreditar que a cultura pode transformar vidas e que a história não se preserva sozinha. É preciso agir, insistir e, sobretudo, não desistir, diz a presidente da Associação Alves Redol, de Vila Franca de Xira.
“É lutando e fazendo as coisas, não deixar morrer estes valores fundamentais”, responde, quando lhe perguntam como se pode levar mais longe a mensagem de Alves Redol, não só em Vila Franca de Xira como no resto do país. A resposta é também um retrato da própria dirigente: alguém que reconhece o cansaço mas que acaba por regressar à luta porque sente que há coisas que não podem desaparecer.
Natural de Castanheira do Ribatejo, Maria Odete Capucha cresceu numa família de sete irmãos. O pai trabalhava na radiodifusão e todos os filhos estudaram. Em casa havia espaço para conversar, discordar e argumentar. Em criança sonhava ser arqueóloga. “Sou muito curiosa e tenho uma sede de saber coisas e de esmiuçar”, explica, usando uma expressão que traduz a sua vontade de compreender o que está para lá da superfície.
Casou cedo, teve filhos e precisou de conciliar as responsabilidades familiares com o trabalho. A sua consciência política começou a despertar ainda antes da Revolução de Abril, em parte graças ao padre Vasco Moniz, que frequentava a casa dos pais. “Ouvia as conversas dele e era um homem extremamente interessante, um humanista, que não separava a religião das condições concretas em que as pessoas viviam”, refere a O MIRANTE.
A guerra colonial foi outra das grandes inquietações da sua juventude. Tinha irmãos em idade de serem mobilizados e colegas de escola que partiam para a guerra. Foi nesse ambiente que se consolidou a sua visão política, assumidamente de esquerda. Depois do 25 de Abril, chegou a militar no Movimento de Esquerda Socialista (MES), o único partido em que se inscreveu. Entre os seus camaradas estiveram Ferro Rodrigues e Jorge Sampaio, de quem se recorda a propósito daquele período de grande efervescência política. O seu primeiro emprego foi como administrativa no posto médico da Castanheira do Ribatejo. Depois trabalhou toda a vida na Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo.
MNR devia colaborar mais com associação
Em 2016, no âmbito da conversão da cooperativa Alves Redol em associação, Maria Odete Capucha foi convidada para integrar a direcção, actualmente composta por Paulo Rodrigues, Anabela Oliveira, Maria Isabel Macedo, Jaime Reis, Carlos Reis, Hermínia Mesquita, Rodrigo Figueiredo e José Araújo. Para a dirigente, preservar a memória de Alves Redol não passa apenas por realizar homenagens ocasionais ou referências históricas. É necessário fazer com que o legado do escritor continue a ser conhecido, discutido e relacionado com a realidade contemporânea.
Quando olha para Vila Franca de Xira, reconhece a importância da cidade na resistência ao fascismo e na história do neorrealismo português. Mas sente que esse passado não está suficientemente presente na vida quotidiana. A cidade, diz, “reflecte aquilo que o mundo actual é: uma cidade que as pessoas estão mais viradas para a sua vidinha, para o consumismo exacerbado e esquecem-se dos valores”, lamenta.
O afastamento dos mais novos das referências históricas e cívicas, bem como dos antigos valores fundamentais, preocupa-a. Na sua opinião, a cidade tem uma responsabilidade acrescida por ter sido casa de figuras como Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes, escritores que denunciaram as desigualdades e escreveram numa época em que fazê-lo podia ter consequências. Gostava que Alves Redol tivesse uma presença mais forte nas escolas.
E também na relação com o Museu do Neo-Realismo identifica oportunidades de colaboração que poderiam ser melhor aproveitadas. Considera que o museu está a desenvolver um trabalho positivo, mas gostaria que existisse maior proximidade entre as duas instituições. “Gostava que eles falassem mais”, diz, referindo-se à comunicação com o museu. Gostaria que, em determinados momentos, o Museu do Neo-Realismo sentisse a associação como parte da mesma missão cultural e que a associação, por sua vez, pudesse sentir-se mais integrada no trabalho do museu.
“Isto não pode esmorecer, não pode morrer. Temos que continuar a lutar por melhores dias”, conta. É uma luta que não se resume à sobrevivência de uma associação, para a dirigente. Para a dirigente, trata-se de manter viva uma memória colectiva, de criar oportunidades culturais e de impedir que os valores da solidariedade, da liberdade e da participação cívica se percam num quotidiano dominado pelo consumo e pelos interesses individuais.
Novas instalações onde falta um palco
Com mais de 400 associados, a associação organiza apresentações de livros, encontros culturais e outras iniciativas destinadas a aproximar a população da cultura. Promove ainda actividades, como pintura e xadrez, procurando criar oportunidades para que diferentes pessoas participem na vida colectiva. Um dos sonhos da dirigente foi entretanto concretizado: a criação de um grupo de teatro, o Teatro dos Sete Lemes. Mas falta um palco para ensaiar regularmente e as novas instalações cedidas pela câmara não servem para isso na plenitude. No seu discurso na inauguração da nova sede a dirigente lembrou que a associação não está colada a partidos e está aberta a todos. “A obra de Redol deu voz a homens e mulheres, ao trabalho, às dificuldades, aos sonhos, às suas esperanças e às transformações da sociedade”, vincou.


