Linguista considera proposta de “Língua Geral” uma provocação literária
A reflexão ganhou destaque durante o Festival Remexe Rio, no Rio de Janeiro, onde José Eduardo Agualusa defendeu que a expressão “língua portuguesa” já não reflecte a diversidade cultural e histórica do idioma.
O linguista, tradutor e professor universitário Marco Neves considera que não existe qualquer perspectiva real de mudança da designação da língua portuguesa e interpreta a proposta do escritor angolano José Eduardo Agualusa de lhe chamar “Língua Geral” como uma provocação de natureza literária.
Em declarações à Lusa, Marco Neves explicou que a discussão sobre o nome da língua tem actualmente alguma expressão no Brasil, mas não encontra eco significativo noutros países de língua portuguesa.
“Do ponto de vista académico e político, não existe um debate generalizado sobre a alteração do nome da língua. O tema surge sobretudo no Brasil, onde há uma discussão mais visível sobre a possibilidade de o português falado no país passar a ser designado como brasileiro”, afirmou.
A reflexão ganhou destaque durante o Festival Remexe Rio, no Rio de Janeiro, onde José Eduardo Agualusa defendeu que a expressão “língua portuguesa” já não reflecte a diversidade cultural e histórica do idioma. O escritor propôs a designação “Língua Geral”, entendendo-a como um espaço comum de encontros, influências e afectos.
Segundo Agualusa, a língua foi sendo moldada ao longo dos séculos pelo contacto com diversos idiomas, entre os quais o árabe, o quimbundo, o guarani, o quicongo, o umbundo e o macua, entre muitos outros.
Para Marco Neves, contudo, a principal questão não reside no nome da língua, mas na preservação da sua unidade. O especialista reconhece que existe no Brasil uma corrente que defende a valorização de uma identidade linguística própria, chegando a comparar esse movimento a uma espécie de “grito do Ipiranga linguístico”. Ainda assim, considera que essa posição não tem força suficiente para provocar uma alteração oficial.
O linguista acredita que o português continuará a manter a mesma designação em todos os países onde é falado, reforçando a sua unidade simbólica, em grande medida devido ao peso crescente dos países africanos de língua oficial portuguesa.
Angola é apontada como um exemplo particularmente relevante. Segundo Marco Neves, o português está a expandir-se rapidamente no país e já é, muito provavelmente, a língua materna de mais de metade da população. Esse contexto, defende, reduz a probabilidade de surgirem iniciativas para substituir a actual designação da língua.
Relativamente à proposta de Agualusa, o professor considera que o objectivo foi sobretudo estimular a reflexão e o debate. Na sua opinião, o escritor demonstra preocupação com a manutenção da unidade do idioma e não pretende promover a fragmentação em várias línguas independentes.
Marco Neves observa ainda que fenómenos recentes, como o crescimento das redes sociais e o aumento da imigração brasileira para Portugal, têm intensificado o contacto entre falantes de diferentes variedades do português. Esse maior diálogo gera algumas tensões e debates, mas também contribui para um conhecimento mais profundo da língua comum.
“O que acontece é que estamos a comunicar mais uns com os outros. Isso faz surgir diferenças e discussões que antes passavam despercebidas, simplesmente porque havia menos contacto”, explicou.
O linguista recorda que coexistem actualmente dois padrões principais da língua portuguesa — o europeu e o brasileiro — e que as diferenças entre ambos devem ser encaradas com naturalidade.
“Escrever correctamente em português do Brasil e escrever correctamente em português de Portugal é, em ambos os casos, escrever bem. As diferenças existem, mas não devem ser vistas como algo dramático”, concluiu.


