Livros que São Vidas | 14-12-2019 18:00

Livro de Álvaro Ribeiro sobre a guerra para que a história não se apague

Livro de Álvaro Ribeiro sobre a guerra para que a história não se apague

“O tempo de todas as incertezas” foi apresentado em Almeirim. O livro é testemunho de um período negro da história portuguesa.

Se o presidente da Câmara de Almeirim pode ficar na história pelas decisões que já tomou ou vai tomar em prol do concelho, o pai do autarca já fez com que uma parte da história de Portugal não fique esquecida. Álvaro Ribeiro perpetua em 608 páginas as suas memórias da guerra no livro “O tempo de todas as incertezas”, que retrata 26 meses do batalhão de que fez parte nos combates em Moçambique, na guerra do Ultramar. Na apresentação da obra, editada pela Rosmaninho, uma chancela de O MIRANTE, no salão nobre da câmara, viveram-se momentos de emoção e reviveram-se tempos difíceis.

O livro foi apresentado perante um auditório cheio de pessoas da terra, convidados e camaradas de armas do autor, numa data que não foi escolhida por acaso. No dia 7 de Dezembro completavam-se 48 anos do desembarque de Álvaro Ribeiro e dos camaradas em Lisboa, no regresso a casa depois de dois anos no mato. Alguns não voltaram e é por eles também que este livro foi escrito, como homenagem aos que deram a vida pela pátria, como foi explicado na sessão de apresentação. Porque “a grande história também se faz de pequenas histórias, que a enriquecem e valorizam”, como disse na sua intervenção o professor, investigador e vereador da câmara, Eurico Henriques, que assinou o prefácio.

O filho do escritor esteve presente no público e interveio para dizer que desconhecia até à hora da apresentação qualquer frase do livro. Pedro Ribeiro considerou que esta é uma obra para dar respostas e manter a história viva. Para que “aqueles que dizem que algumas não aconteceram, percebam que aconteceram e foram vividas por cerca de um milhão de pessoas que participaram nessa guerra. E que ela sirva de exemplo para que as guerras possam ser evitadas”, salientou.

O autor, perante muita gente da sua terra e alguns companheiros de armas, contou alguns episódios que viveu, recordou os camaradas que tombaram em combate e salientou que a guerra foi um “jogo de sorte e de azar, um jogo em que se esteve e de repente se deixou de estar”.

Antes da sessão de autógrafos, os ex-combatentes presentes cantaram, acompanhados à viola, o hino da companhia, que é entoado nos encontros anuais em que se revêem os amigos que se fizeram na guerra para toda a vida. “Companhia há só uma. Companhia somos nós e mais nenhuma. E estamos aqui porque a amizade se repete. Somos de artilharia, CAC 2627”, diz o refrão da música.

Os tiques do salazarismo que perduram e as lutas perdidas

A intervenção de Joana Emídio foi aplaudida de pé por várias pessoas presentes na sala, pela força que as palavras tiveram ao retratar a época da guerra e os tempos actuais e pela emoção que causou.

Joana Emídio referiu que a intenção de Álvaro Ribeiro não foi a de escrever um livro sobre política. Mas para quem o lê é um livro onde estão “todas as lutas perdidas de muitas gerações, de muitos homens que perderam a vida e a família e de muitas pessoas que ainda hoje são vítimas daqueles que não foram à guerra, não sofreram com a guerra e não sabem respeitar o legado do 25 de Abril. E comportam-se com o seu país e com os seus concidadãos como os antigos colonizadores que se serviam da guerra em Africa para enriquecerem e manterem as suas fortunas pessoais”.

Para a representante da editora, o livro tem o mérito de “eternizar em letra de forma nomes de soldados que foram a uma guerra injusta, que a alguns decepou pernas, braços, deixou mazelas psicológicas para o resto da vida e a outros simplesmente roubou a vida fazendo deles carne para canhão”. Joana Emídio, referindo que não é do tempo de Salazar, salientou conhecer bem os tiques desses tempos, porque “quer queiramos quer não, a sociedade portuguesa ainda não recuperou desses tempos de obscurantismo, de isolamento do mundo, de liberdades condicionadas, de perseguição, de oportunismo e de protecção a certas classes mais abastadas”.

Com uma visão crítica da sociedade actual, a intervenção meteu o dedo na ferida em relação a alguns comportamentos dos políticos das novas gerações, que “não honram a liberdade que a revolução abrilista nos proporcionou”. Salientando que nos países desenvolvidos os políticos vão para os ministérios de bicicleta e em Portugal os socialistas e social-democratas vão em carros de alta cilindrada com escolta policial e sirenes, Joana Emídio comparou o estado do país aos países de África.

“Somos iguais a eles no que respeita à capacidade de sermos deputados na Assembleia da República e advogados, engenheiros, gestores de empresas privadas, quando despimos a fatiota de deputados e vestimos o fato de consultores de empresas ou de gestores de negócios familiares que são em tudo incompatíveis com o estatuto de deputados da Nação”, referiu Joana Emídio. Para quem “a mentalidade Salazarista ainda anda por aí em muita gente que usa cravos vermelhos na lapela do casaco mas tem coração e alma de fascista”. A intervenção terminou com uma citação do livro de um dirigente, em forma de exemplo de como cada um interpreta o mundo consoante os seus interesses: “Quando os brancos chegaram, nós tínhamos as terras e eles a Bíblia, depois eles nos ensinaram a rezar; quando abrimos os olhos, nós tínhamos a Bíblia e eles as terras”.

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