Livros que São Vidas | 20-12-2019 11:41

Ouro, Prata e Miguel Szymanski

Romance de um jornalista português, 53 anos, que trabalha na Alemanha e em Portugal. Uma investigação sobre gente corrupta, que retrata o país dos nossos dias, a cargo de Marcelo Silva, um jornalista nomeado para dirigir uma brigada anticrime em Lisboa.

Um jornalista conhecido em Lisboa e em Berlim, Miguel Szymanski, aventurou-se num romance cheio de intriga com personagens que retratam a vida portuguesa das últimas décadas. Só um jornalista conseguiria escrever um romance como este: "Ouro Prata e Silva" está cheio de génio de um romancista que não consegue esconder que domina bem a arte do escrita de reportagem. Um jornalista empenhado em deixar uma marca da sua passagem pela terra, um milionário desaparecido e uma mulher sem futuro; eis a minha apresentação sucinta do livro de Miguel Szymanski, que acabei de ler e que recomendo a quem gosta de uma boa história. O romance é obra de uma escrita desenvolta e culta, e o romancista escreve muitas vezes com a caneta do jornalista de investigação, profissão que pratica há mais de trinta anos. Gosto deste género de romance que mistura a ficção com a realidade dos nossos dias. São 200 páginas que se lêem a percorrer um país e a vida de uma elite política e financeira, gente de boas famílias, corruptos, milionários, gente que ganha vida na caneta de Miguel Szymanski, onde ele, aparentemente, também se retrata sem complexos.

A história de amor que o livro encerra é abafada pelos casos de corrupção e pelos inúmeros perfis de políticos que o autor trabalha ao longo do romance. Quase todos eles são identificáveis, para quem segue a vida política e económica à portuguesa, e isso é uma das maravilhas do romance. A personagem principal é Marcelo Silva, um jornalista nomeado para dirigir uma nova brigada anticrime em Lisboa.

“Em Portugal tudo é negociável. Até os assaltos”.

“O trocadilho é a ironia dos básicos”

“Os jornalistas só percebem metade daquilo que escrevem”

“O silêncio do Horácio era mais assustador que as técnicas de interrogatório da Judiciária”

“As torres das Amoreiras….inspiradas nos carrinhos de choque da Feira Popular”

“António Carmona…era um porco preto”

“Leis e salsichas são as duas coisas que ninguém deve saber como são feitas”

“Cinco minutos antes da hora, essa é a verdadeira pontualidade”

“Viviam com sabor a graxa de sapatos na língua”

“Gente como numa redacção só que mais retrógrada”

“Não era um homem corajoso, tinha um espírito fraco e, no limite, um esfíncter débil”

“Podia sentir aflição ao ver um carro ser riscado mas se os mesmos vândalos estivessem a rachar a cabeça de alguém não sentia nada”.

Gosto de sublinhar as frases dos livros que me prendem à história; livros aonde quero voltar um dia, nem que seja para confirmar as boas emoções da primeira leitura. Por isso gosto de coleccionar frases. Tenho o livro todo sublinhado, onde os diálogos e as situações que o autor criou me entusiasmaram e deliciaram. Não sou encartado em critica literária; sou leitor atento e exigente. Não tenho jeito nem motivação para crítico literário, e mesmo que tivesse não tinha onde publicar, porque os suplementos literários já são do século passado. Agora a crítica de livros é quase como a crítica de cinema; Se o autor é de boas famílias, e tem uma boa chancela, pode escrever qualquer merda que um dia destes vai ser capa de jornal, ou preencher as páginas de cultura de uma qualquer publicação; isso ainda é deste século e vem de outros tempos; enquanto a indústria da cultura render dinheiro o negócio vai-se reinventando. Mesmo que fique só nas mãos de meia dúzia de editores é sempre o negócio do livro e do cinema, as duas artes maiores do nosso tempo.

Ouro Prata e Silva

Miguel Szymanski

Edição: Suma de Letras

Março 2019

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