Vergílio Alberto Vieira: o poeta da palavra culta
Não há melhor forma de homenagear um poeta que divulgar a sua poesia, a sua arte de escrever, mas também de publicar obras de arte. Nos últimos dias saíram do seu baú dois livros imperdíveis para quem quer andar a par do que de melhor se publica em Portugal ao nível da poesia e da prosa. “Os campos As passadas Os sinais”, reúne quase toda a fortuna crítica sobre os mais de uma centena de livros publicados ao longo de uma vida; “Este refúgio só terei” reúne a poesia toda que assinala 55 anos de edição & vida literária.
Vergílio Alberto Vieira é um grande e conceituado poeta, mas antes é um extraordinário esteta, ou seja, aquele que sente e percebe, um escritor com grande sensibilidade para a beleza. Uma boa maioria dos seus livros têm a sua assinatura ao nível do grafismo, da escolha das capas, do papel e da letra, dos desenhos e das ilustrações. Não há melhor forma de homenagear um poeta que divulgar a sua poesia, a sua arte de escrever, mas também de publicar obras de arte. Nos últimos dias saíram do seu baú dois livros imperdíveis para quem quer andar a par do que de melhor se publica em Portugal ao nível da poesia e da prosa. “Os campos As passadas Os sinais”, reúne quase toda a fortuna crítica sobre os mais de uma centena de livros publicados ao longo de uma vida; “Este refúgio só terei” reúne a poesia toda que assinala 55 anos de edição & vida literária. Há pergunta sobre se rasgou muitos poemas da sua Obra, Vergílio Alberto Vieira responde: “sou mais da arte do palimpsesto (desde sempre escrevi a lápis): uso a rasoira como ferramenta; uma vezes sirvo-me da rebarbadora para desbastar, outras da podoa para eliminar frondes e fazer chegar a claridade ao tronco; e, por fim, confio no esmeril. Quanto ao irrecuperável, como diz o ditado: “Quem fez borrões que os leia”.
Como surgiu a ideia de reunir a fortuna crítica na edição da colectânea Os campos As passadas Os sinais? Ao contrário da poesia que se reúne para dar a conhecer o poeta que há em nós, não propriamente o que é, a compilação dos textos (estudos, ensaios, recensões) que a obra foi gerando da/ e pela parte de quem a leu, estudou, avaliou criticamente, ao longo de anos, remete para a cartografia da navegação solitária que é escrever/ inscrever no mar da descoberta de nós, e do mundo, o traçado da viagem que convocará os leitores (em devir) para a possibilidade de re/viver o passado e, porventura, demandar o futuro.
Acresce que, sendo a arte de escrever (a) crónica de ordem temporal a que o autor recorre para fazer (a) história, de dar testemunho da experiência (leia-se: empreendimento) que dele fez actor e espectador, senão da ilusão do espírito, da realidade que o discurso edificou, guardar memória do que sobre a obra foi dito é, acima de tudo, reconhecer o pouco que é nosso, descobrindo o muito que se não teve e, em última análise, não poderá ter.
De fora, terão ficado os textos que, sem desprimor em relação análise de quem passou a letra impressa abordagens de obras que se excluíram por si, e/ou pela base de sustentação que lhes faltou, levando a que, por critérios de vária ordem (de natureza estética, ideológica, histórico-literária) viessem a ser tragados pela civilização de palavras que lhes ditou a sorte. Ideia primordial, a várias mãos (por vezes, desconhecidas), se deve o legado que fez a fortuna crítica, doação de tantos que muito deram e pouco receberam.
Quem mais o marcou como leitor e crítico? Não necessariamente quem, mas o que: da antiguidade – oriental, helénica – ao renascentismo; das grandes correntes artísticas, filosóficas e literárias ao pensamento moderno e contemporâneo, aprofundadas no quadro de diferentes civilizações, desde as origens aos desenvolvimentos, que lhes deram continuidade, todas as vias interpretativas influenciaram, crítica, e selectivamente, o homo artifex, que me considero, sem excluir a tendência que, exercida através da elementaridade, qualidade primordial da alma, originou não uma estética, mas dinâmicas estéticas criativas, legados culturais multifacetados de todos os tempos e lugares, modelo de ancestrais culturas, clássicos, modernistas cujos expoentes se revelaram vectores de transcendência artística, via para as possíveis verdades perfeitas que a docta ignorantia por mim eleita, histórica e originalmente me aproximaram da explicitação do uno e da plenitude soberanos a que me converti como, e enquanto, poeta.
Já quanto à cumplicidade de/ e com outras literaturas, oriundas de meios literários potencialmente geradores de multiplicidades criadoras e padrões estéticos cuja influência ditou correntes e trajectórias de mudança inestimáveis, a integração valorativa não se fez esperar, tal como a intertextualidade, quer através da arte de ler, quer dos procedimentos discursivos instaurados nas chamadas “faculdades do começo”, discursos aliás representativos dos géneros literários que me propus formalizar na medida em que o legado fundacional das literaturas surgidas no pós-guerra vieram a ser determinantes no traçado seguido pela gerações da segunda metade do séc. XX e início do milénio.
Enquanto jovem escritor, não dispensei o que se identificou com as modalidades de pensamento e instrumentos verbais em curso que, mais adiante, vieram a responder pela lógica simbólica e inovação na continuidade do que, abusivamente ou não, ficou conhecido por pós-modernidade.
Pela parte que me diz respeito, toda a panóplia de influências externas (com as literaturas da Europa Central à cabeça: Kafka, Broch e Musil; Hölderlin, Rilke e Elytis, principalmente) e internas (de Miranda e Camões aos modernistas e, caso a caso, aos representantes das gerações seguintes) contribuiu construtivamente para formalizar uma topologia de escrita que adoptei, e se diversificou na(s) poética(s) que desenvolvi, e por extensão se alargaram à ficção, dramaturgia, diarística, texto de leitura infanto-juvenil e, de há uma década a esta parte, aos domínios da tradução de poesia: Eliot, Saint-John Perse, San Juan de la Cruz e, nos últimos tempos, Rimbaud.
Esses textos são todos de amigos ou também de apenas conhecidos? Eis uma questão pretensiosa, dado que os amigos, em matéria de leitura crítica não devam contar para as ocasiões, ou como diria Cinatti: assim como a vida não se mede (tão-só, digo eu) pela razão, pedir louvação aos mais próximos seria despudor, isto é: ser-lhes exigido que dessem no peditório da literatura que Deleuze rotulou de “espectáculo de variedades”.
Alguns signatários dos textos que prefaciaram/ posfaciaram, estudaram, recensearam, fizeram-no a meu pedido depois de terem assinado notas de leitura crítica em jornais e revistas de renome.
É que, em tempo da “amnésia prolongada”, antevista há décadas por George Steiner, subscrever textos sobre textos a troco de favor, ou por encomenda, seria denegrir a função da literatura, e conspurcar o meu nome da maneira mais abjecta, comprometendo a obra em literatura fechada, narcísica, submetê-la ao habitual processo de autofagia mediática que não perde ocasião de dar eco aos aboletadores de prémios literários.
Qual a importância da sua ligação à literatura brasileira e autores brasileiros? Toda a importância, desde que me conheço, como leitor, como poeta e ficcionista, como avalista de obras e autores brasileiros.
Isto porque, não sendo menor que o legado fundacional da língua galaico-portuguesa, comum às literaturas de expressão em língua portuguesa, e matriz de nacionalidades emergentes no último quarto de século, a língua portuguesa, idiomatizada, assimilada e tornada oficial para largos milhões de povos que, através dela, falam e escrevem, em particular no vasto território brasileiro, sempre constituiu pólo de atração mútua entre povos-irmãos, cruzando vozes, consolidando tradições orais e cultos que modelaram identidades, em partes iguais, e como diria Carlos Drummond de andrade se ficaram a dever, desde o séc. XVI: “Tudo o que lhes foi/ nos foi dado.”
A minha aproximação à literatura brasileira leva cinco décadas, enquanto leitor, enquanto colaborador de jornais e revistas, mercê da abertura proporcionada pela(s) mudança(s) de regime, de um e outro lado do Atlântico, formalidade aprofundada por regular correspondência e troca de livros que, desde o início dos anos 70, fortaleceu laços de fraternidade, intercâmbio de ordem geracional com escritores e artistas, trocas de conhecimento e experiências de escrita favorecidas pelo acolhimento editorial que a história proporcionou. Não passe à margem, porém, o estímulo recebido, tanto como leitor interessado, como destinatário (aprendiz, melhor dizendo) de obras de primeira plana, acessíveis, enquanto adolescente, em colecções da época, e por alguma razão estruturantes no meu percurso literário futuro, vindas de nomes tão importantes como Fábio Lucas que, em O Estado de São Paulo, logo após o 25 de abril assinalou o meu nome, ou de Nelly Novaes Coelho com quem troquei correspondência regular, ainda a partir de Angola, onde me encontrava a fazer serviço militar, Domingos Carvalho da Silva, fundador da revista Poesia e Crítica, e mais tarde Fernando Mendes Vianna, em Brasília. No final da década de 70 e nos anos 80, a convite da direcção do Suplemento Literário de Minas Gerais, sobretudo de Wilson Castelo Branco, e depois dos seus directores: Danilo Gomes e Paschoal Motta, seus directores, estímulo alargado, de resto, anos depois a poetas e ensaístas como Ivan Junqueira, Antonio Carlos Secchin, Alexei Bueno e, recentemente, André Seffrin, prefaciador de Os campos as Passadas Os sinais, créditos à obra de (...)”, editado em 2026.
Isto para não falar da abertura que me foi proporcionada por revistas tão importantes como Escrita, Ficção, e na imprensa sediada em vários estados e capitais como Correio do Povo, Jornal do Comércio, do Recife, etc.
Recorda-se de cada texto e de como eles tiveram efeito no seu espírito de poeta? Analisei, estudei, repetida, e reflectidamente, cada texto, no todo, e em parte, à medida que ia traçando as linhas de força da poética que me pareceu cor/responder ao paradigma da elementaridade (filosófica, linguística, simbólica, alquímica) cujo modelo fosse inclusivo da transcendência a/ de que o plano de imanência nela contido fosse inerente; e a estrutura conjuntural, base da unidade essencial perseguida a partir do Logos inicial (pensamento/ razão, linguagem, praxis) que enforma a re/posição ontológica da identidade originária que assegura a permanência na mutabilidade poética do ser-enquanto-ser, processo poético da plenitude a que se aspira.
Como se atreve a reunir a sua poesia nos últimos três anos por três vezes e quais as grandes alterações que deve ser assinalada? Não apenas nos três últimos anos, dado que A imposição das mãos/ Escolha poética (1999) e Papéis de fumar (2006), precederam em décadas as edições de: Todo o trabalho toda a pena (2016), Novos trabalhos novos danos (2021) e Este refúgio só terei (2026) que assinala 55 anos de edição & vida literária.
A principal justificação é que todas as recolhas poéticas (pleonasmo de: entregas) fica a dever-se ao facto de incluírem inéditos: Cidade irreal, Não é meu quanto escrevo, O cão que fuma, Arte de perder, O inventor de rios, Halo y tangência, Caput mortuum, Integrais, O templo em forma de montanha e, na edição de Este refúgio só terei/ Obra poética: Te loquor absentem, ocorridas entre 1995-2025, respectivamente, porque títulos como: Prontuário do corpo (1980), A paixão das armas (1983), Os sinais da terra (1984) e As sequências de Pégaso (1990), O caminho da serpente (1993), sofreram alterações de vária ordem, a ponto de me perguntar qual a última ocasião em que a exigência de reescrever livros completos ficou a dever-se à qualidade precipitada da obra?
Esta é a reunião definitiva de toda a sua poesia? Levando em linha de conta o princípio de que a arte, como reconheceu Nietzsche, nos prepara humanamente “para não morrermos da verdade” existencial, e que a experiência artística, e por extensão a(s) literária(s), não escapam à lei do valor de troca identificado por T.W. Adorno, desideratum perecível, uma vez que: “O valor de troca consome-se; o valor de uso troca-se”.
Assim sendo, cada edição da poesia reunida obedece a critérios histórico-geracionais cuja estrutura formalística, experiência estética, linguagem simbólica, e outras, se renovam ciclicamente segundo regras exegéticas, hermenêutica, percepção poética, natureza compositiva e unidade criadora nunca se dão por alcançadas, mesmo que: “tornasse o tempo atrás como a memória pelos vestígios da primeira idade (...)”, há 500 anos sinalizados por Camões.
Como se vê no espelho da sua poesia? Bem gostaria que as idas ao espelho me fizessem lembrar: “o repouso em movimento”, com que Nicolau de Cusa, em De Visione Dei (1453), entendeu a eternidade, mas discernimento me falta para igual proeza, porque acerca da imortalidade tudo que se disse não foi além do não-dito sobre a ida e/ou regresso ao que é sem-origem. Narcisismo à parte, a possibilidade do poeta fica-se, quando muito, pela rememoração do ser no desvelamento, que Heidegger enunciou sem re/colher fruto da experiência que, teoricamente, não passou de vislumbre, qual: “conjectural-espelho do Olhar Absoluto” que um estudioso da obra do erudito teólogo – falo do académico distinto que foi Miguel Baptista Pereira - assinalou como “iluminação-comunicação” vinda “do mais fundo da luz” que reconheceu com “muro e noite”. (cit. de J. Berhart a propósito da filosofia mística, introdução à obra De Visione Dei, Fundação Gulbenkian, 4.ª edição, 2012, tradução de João Maria André)
Quantos poemas rasgou da sua obra? Apesar de não pertencer à ordem da jarreteira literária portuguesa que se vangloria de destilar versões em cima de versões, de rasgar resmas de prosa até alcançar o nirvana romanesco, sou mais da arte do palimpsesto (desde sempre escrevi a lápis): uso a rasoira como ferramenta; uma vezes sirvo-me da rebarbadora para desbastar, outras da podoa para eliminar frondes e fazer chegar a claridade ao tronco; e, por fim, confio no esmeril, tão do ofício de um Carlos de Oliveira, a pertinência de limar arestas, porque escrevo, reescrevo, de edição para edição, quando não elimino o residual – a palavra, aprendizagem colhida na natureza que, depois da calamidade, recupera sempre o lugar que lhe pertence.
Quanto ao irrecuperável, como diz o ditado: “Quem fez borrões que os leia”.
Percebe que ainda o ignorem ou tentem ignorar como um dos poetas mais influentes da sua geração? Ou por outra, percebe as razões que levam o meio editorial a esquecer-se do seu labor poético, e da importância dos seus livros entre os novos poetas que o leram na altura da sua formação? E de que maneira?, não estivessem a literatura, em geral, e a poesia em particular, sujeitas à mercantilização para a qual a indústria da cultura (de que era?, da pós-industrial?) concorre despudoramente, à maneira do que acontece no mercado de sangue das sociedades saturadas de mediocridade art(r)ística cujo figurino fica a matar a editores expeditos juntos dos media, treinados para mergulhar – e de se movimentarem de escafandro, entre a fauna submarina - evocada por Pessoa , quando falava do “fundo do mar da vida” – estes, porém, sem temer as arremetidas da fauna capitalista que os subsidia para que editem os que insistem em escrever, não criando o seu público, mas para um público desavisado que continuará a contribuir para que o encaixe do espigão e mecha do oportunismo sustente a banca do mercado negro das chancelas de sucesso, em desfavor dos autores que não beneficiam do passeio dos telejornais, razão pela qual o reconhecimento jamais os contemplará, ou em acaso afirmativo – como aconteceu a Kafka, Melville, Joyce, por exemplo, ilegíveis na sua época – acontecerá como nos depósitos sedimentares e lacustres de passados remotos.
O meio editorial passou a esquecer-se – de mim como de todos os que no passado, relativamente recente, foram lidos - Ferreira de Castro, Namora, Branquinho da Fonseca, para citar apenas alguns, romancistas, não já poetas, dramaturgos, críticos influentes, e de fama - sobretudo se se apresentam com ex- críticos, jurados que foram de “antes quebrar que torcer”, entre outros argumentos se a obra que escreveram, e falo por mim, se apoia no cutelo da balança de duvidoso fiel para aferidores trapaças e moedeiros falsos.
Já sobre a influência dos meus livros nas gerações que se seguiram, acho que é uma não-questão. Optei por uma experiência literária, poética sobretudo sem distinção de género – Lispector acabou por confessar: “género não me pega mais” – experiência poética dos limites, como se lhe referiu Bataille, alicerçada nos clássicos e incatalogável do ponto de vista dessa coisa que dá pelo nome de pós-modernismo, e nada espero acerca da possibilidade da recepção da obra cujos pressupostos em processo a fazem depender dos caminhos de leitura que, vinda do passa tanto poderá ser determinante para o sufrágio universal como para o naufrágio pessoal.
Quanto às razões que, nos últimos anos, levaram o meio editorial a subestimar o labor poético, já não digo: importância da obra construída por mais de três dezenas de títulos incluídos, parte deles, nas melhores chancelas da época em que chegaram aos escaparates (Centelha, Limiar, Oiro do Dia, Afrontamento, Caminho, Campo da Letras, entre outras), talvez o facto de ter tido voz activa, durante largos anos, como crítico e jurado opositor acérrimo de lobbies, cenáculos, irmandades instalados na imprensa e nos meios mediáticos, tenha constituído a pedra no sapato dos decisores incomodados por ainda haver quem se autorizasse, como diria o autor de The Tempest: “dragar o lodaçal da alma” literária no redondel onde já poucos (ou ninguém) seriam capaz de trocar o reino por um cavalo.
Há quantos anos se retirou da vida literária (mundana) e deixou de participar em eventos? Como alegaria La Palisse, foi a vida literária que se retirou de mim, e a mundana do que se sentiu traído na sua fidelidade; custou-me aceitar que estava a contribuir (leia-se: a dar crédito) à cultura demissionária que Eduardo Lourenço identificou como fomentadora da literatura – pensava eu, não ele, de que - enquanto “arraial das letras”, segundo Oliveira Martins, o dos Vencidos da Vida, transmitindo pelos canais soezes de ontem, pelas cloacas televisivas de hoje, cúmplice do dramma giocoso em que, no papel de figurante, acabaria a viver na dorna como Diógenes, ou como se diz no sertão brasileiro: “se fugir, bicho pega; se ficar, bicho come”.
Mais de uma década após a deserção, cumpre-me reconhecer que o fiz tarde, que não escapei a tempo à cultura de domesticação que condecora, premeia, imortaliza em discursos políticos de ocasião quem já cá não está para ripostar, bem ao contrário dos que acabaram no hospício como Ângelo de Lima e António Gancho, lá fora como Nietzsche, Artaud, Van Gogh e outros.
Quer dar um exemplo de um escritor que lhe tenha servido de referência? Não um, porque seriam muitos, e por certo ficariam desempregados no passeio das virtudes literárias do País das Uvas. Enganou-se redondamente quem entreviu no que escrevi, editei, traduzi, o polígrafo que viu seu nome no espelho biselado da barbearia, onde o freguês – autor de Ombro na Ombreira - viu a mensagem de Boas festas da gerência escrita a sabão.
O rol de autores de referência, mesmo de ânimo leve citado e, de passagem, tornado público, deixar-me-ia em dívida com todos os precursores (poetas, filósofos, compositores, mestres da pintura, escultores) que contribuíram para constelar o universo que me envolve, e agrava a obsessão memorial traversiana de não saber como lhes pagar o tributo que lhes é devido, em tempos e lugares, em que a lei do reconhecimento nada fica a dever à lei da gravidade de os não ter citado – quem mais alto sobe...
O poeta é um deus de carne e osso ou é mesmo só um homem com todos os defeitos e virtudes? Pela parte que me toca, considero-me próximo das ordens mendicantes – tive tal intuição quando, há anos, visitei Assis – não me considerasse publicamente “poeta do pouco” (entrevista ao extinto Comércio do Porto), e fazendo jus a João Cabral de Melo Neto, um dos meus poetas de eleição: “Minha pobreza tal é que grande coisa não trago”, auto-de-pronúncia de Vida e Morte Severina.
Sem querer invocar o nome de deus em vão, e prestando culto ao oráculo que me falou em Delphos, quando lá estive, ensurdecido pela gralharia das cigarras estivais: homem de carne & osso, sim, destino revelado pela leitura, não das linhas da mão, mas nas nervuras duma folha de figueira braba, onde me foi dito que Deus não indica caminhos, aconselha a caminhar. De resto, não garantiu Ricardo Reis que: “Os deuses são deuses,/ Porque não se pensam.” - que poderei eu pensar de mim?
Para ser poeta tem que se ter a qualidade dos vaidosos e narcisos ou os poetas podem viver a vida toda numa redoma ou, quem sabe, à beira de um rio como por exemplo o Cávado, o rio da sua aldeia? Todo o cultor de vaidades é por natureza narcisista, sujeito, portanto, a que, mais tarde ou mais cedo, pagará o óbolo sem se livrar de sentir o estiolar d’alma dos presunçosos, grafado na Summa Bestiológica do destino que lhe coube em sorte, e que a experiência da (des)continuidade lhe conferiu.
Quanto à solidão, estamos falados, não fosse ela o rio em que ninguém se banha duas vezes. Eis a razão pela qual cada poeta sente correr nas veias o Cávado que o viu nascer, como Caeiro: “Nem sempre sou igual no que digo e no que escrevo.” Digo e escrevo sem procurar dizer “o que sinto”; sentindo, porém, sem pensar, sem sentir, apenas: “como quem sente a natureza, e mais nada.”
Escrever livros é como fazer filhos? Isso seria cometer crime perfeito, fazer da crónica da vida familiar: “História sem desejo nem paixão”, que o mesmo é dizer: tornarmo-nos vítimas de nós mesmos, esquecendo, como em Mémoires d’Hadrien, escreveu Yourcenar: “As lágrimas ficam mal às rugas dos velhos”; ignorar os amáveis dons das musas, tal como Arquíloco vaticinou aos amantes da poesia.


