Em memória de Alexei Bueno*
A morte do poeta, ensaista e crítico literário Alexei Bueno chocou a comunidade brasileira e alguma portuguesa que com ele mantinha afinidades. Arnaldo Saraiva, figura cimeira do estudo da literatura portuguesa contemporânea, o maior conhecedor e estudioso em Portugal da literatura brasileira, escreveu um texto que apresentou na ABL, onde faz o elogio do poeta e do intectual com quem privou de perto e era amigo e confidente. O MIRANTE publicou três livros com a assinatura de Alexei Bueno, dois deles com textos dedicados à romancista Ana Miranda, outro sobre o escalabitano Estácio de Sá, fundador da cidade do Rio de Janeiro, e um último dedicado a Camões, um texto com o titulo de "Camões, além do desconcerto", que serviu de base para a sua intervenção no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, na comemoração dos 500 anos do nascimento do poeta.
Disponibilizara-me há dias para fazer hoje aqui (Academia Brasileira de Letras) algumas reflexões sobre a língua portuguesa na atualidade; mas o inesperado falecimento de Alexei Bueno impõe-me que, três horas depois da celebração da missa de 7º dia, lhe preste nesta Academia, que por sinal ele serviu por alguns anos, uma homenagem modesta de leitor, de amigo, e também de português.
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Não vou repetir o que tem sido dito em numerosos e calorosos depoimentos que a sua morte já suscitou – sobre o poeta, o ensaísta literário, o autor de um “drama em dois atos”, o tradutor de poesia, o antólogo, o historiador, o crítico ou estudioso de cinema, de arquitetura e do património artístico do Rio de Janeiro (mas também da Amazónia, do Maranhão, de Minas e da Bahia). Aqui e agora limitar-me-ei a falar com brevidade sobre a sua grandeza humana e cultural e sobre a sua relação com a literatura portuguesa.
Alexei era facilmente reconhecido pela sua forte personalidade cívica e intelectual, de poeta e de criador extraordinariamente culto, de investigador e de crítico muito competente, honesto e exigente. Por prezar a verdade e a autenticidade não dissimulava os seus juízos, tão desassombrados como fundamentados, e por muito conviver com clássicos antigos e modernos não se incomodava que o qualificassem com o que designou “adjetivo-anátema de «conservador»”, fosse para desvalorizar o crítico fosse para diminuir o poeta. No caso do poeta, os que o tinham nessa conta talvez só ligeiramente reparassem no uso que fazia de formas fixas, da métrica e da rima, sem repararem na sua destreza e no seu vigor verbal, nos seus versos ou nos seus poemas livres, e às vezes amplos, e às vezes tão breves, densos e concisos como os haicais. Num tempo poético dominado pelo experimentalismo que estimulavam as teorias verbo-visuais do concretismo, e pelo gosto, típico da poesia marginal, por notações ligeiras ou anedóticas do quotidiano moderno, Alexei quis-se mais na linhagem de Jorge de Lima do que na de Oswald de Andrade e não receou parecer fora de moda com os seus poemas e versos solidamente discursivos, reflexivos e metafísicos.
Humanista por temperamento e formação, ele apreciava todo o tipo de convívio, até com mendigos e prostitutas, mas sobretudo em botequins, e, seguro do seu saber, não fugia à briga intelectual ou à polémica a que dedicou, com George Ermakoff, uma extensa e exemplar antologia (Duelos no Serpentário -Uma Antplogia da Polémica Intelectual no Brasil 1850-1950). Normalmente risonho e jovial, também podia ser muito áspero, irreverente e intransigente. Intransigente, por exemplo, com o mau português lido em jornais e ouvido em televisões e discursos, que podiam levá-lo a comentários ou exclamações em bom vernáculo, iguais às que também lhe mereciam os políticos autoritários, corruptos e ignorantes; e mais intransigente ainda com o que chamou “espírito de seita“ que, comandando algumas modas e vanguardas, arregimentava – dizia ele - “ legiões de acólitos que repetem ad nauseam as mesmas opiniões”.
Autor premiado, não se pode dizer que a sua extensa e diversificada produção tenha merecido sempre a devida atenção crítica. Admira como passou quase despercebida uma obra de referência histórica e crítica como Uma História da Poesia Brasileira; e admira que poucos tenham reparado no trabalho meticuloso do editor de obras completas de vários poetas, e de antologias da poesia brasileira, duas delas editadas no estrangeiro – em Santiago de Compostela e em Paris –, e outras tão especiais como a Antologia Pornográfica, que ele não quis chamar pudicamente erótica, e A Escravidão na Poesia Brasileira do século XVII ao XXI. Esta última, que lhe exigiu longas e duras horas de investigação, antes de ser editada em 2022 pela Record, com mais de 700 páginas, provocou-lhe um enorme desgosto e uma justa indignação: tendo-a apresentado inicialmente a um grande editor de São Paulo, este negou-se a publicá-la por não ser obra de um afrodescendente.
Ainda por cima, Alexei sabia que essa antologia poderia valer como boa prova de uma teoria muito do seu agrado, a da importância do poeta ou da utilidade da poesia, que no caso cumprira um relevante papel histórico na luta por uma causa muito nobre.
Tanto em fases de criação poética como em fases de investigação e organização, Alexei entregava-se ao seu trabalho com um frenesim que podia rondar o transe, e que podia levá-lo a compulsivas pesquisas em bibliotecas, livrarias e sebos, de que era frequentador assíduo, como o foi dos livreiros-antiquários (ou alfarrabistas) lisboetas, de que fala o poema “Em Lisboa” de As Desaparições. Sabendo que também eu o era, enviou-me um dia, em 2012, uma crónica de Ruy Castro em que este risonhamente identificava um sebo com o céu.
Mas é também como português que quero homenagear Alexei. Ele esteve por uma meia dúzia de vezes em Portugal, numa delas, lá por 1995, com alguma demora, e beneficiando, como o seu grande amigo Ivan Junqueira, da hospedagem num bonito palácio de Lisboa, o palácio do Marquês da Fronteira, que era um homem culto e um amigo do Brasil. Sei de outras viagens suas a Portugal, por iniciativa própria ou por convite para participar em colóquios - em 2000, em 2022, em 2024 e há exatamente um mês. Na longa ou nas curtas permanências em Portugal, sobretudo em Lisboa e no Porto, fez muitos amigos, empenhou-se no conhecimento da história, da cultura, da arte e da literatura portuguesa, que no entanto já havia muito frequentava, também porque já havia muito denunciara o seu amor à língua portuguesa e o seu gosto pela leitura de autores portugueses antigos e modernos. Lembremos entretanto que
- em 1993 publicou uma edição comentada de Os Lusíadas, que teve uma reedição ampliada em 2018;
- em 1995 organizou, introduziu e anotou a Obra Completa de Mário de Sá-Carneiro (cujo nome comparece no poema “As seis tábuas do caixão”do livro de estreia As Escadas da Torre);
- em 1996 publicou uma edição anotada de Sonetos de Camões;
- em 1887 organizou, introduziu e anotou a Obra Completa de Almada Negreiros;
- em 1998 foi o responsável pela primeira edição brasileira, anotada, da História Trágico-Marítima;
- em 1999 organizou e anotou, com Alberto da Costa e Silva, a Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea – Um Panorama, que incluiu 72 poetas nascidos entre 1900 e 1965;
- em 2011 organizou e introduziu a obra a que deu o título Um Manuscrito Inédito de Camilo Pessanha.
E não podemos esquecer que na sua Antologia Pornográfica incluiu vários autores portugueses, como António Lobo de Carvalho, Caetano José da Silva Souto-Maior (o “Camões do Rossio”), Bocage, Nicolau Tolentino, Guerra Junqueiro, António Botto; nem podemos esquecer que publicou textos avulsos sobre autores como Sophia Andresen, Eduardo Lourenço, ou Fernando Pessoa, que lhe mereceu este poema (esta quadra) de A Arvore Seca:
Venceste. O reino é teu. Torceste a sina.
Compraste a vida invicta com a outra vida.
Sem ter sido, ela é nossa. A sombra puída
Do teu corpo nos guia em cada esquina.
Mas se há um escritor que, mais do que nenhum outro, fosse o brasileiro Augusto dos Anjos, o inglês Shakespeare, o italiano Leopardi ou o francês Nerval, fascinou e mobilizou sempre a atenção e o trabalho de Alexei Bueno, esse escritor foi Camões. Já referi as edições de Os Lusíadas e dos Sonetos, publicadas quase no início da sua atividade literária (mas a primeira teve, como referi, uma reedição ampliada em 2018). Sem me ater às muitas alusões diretas e indiretas que fez a Camões épico e lírico, na sua obra crítica ou na sua poesia, lembrarei apenas que no último livro que publicou, há cerca de dois meses, a premonitória despedida que é A Chave Quebrada, vem este verso:
Salve, aquilino Dante, torturado Tasso! Salve,inditoso
Camões, apolíneo Goethe!
Notemos entretanto que as suas duas obras anteriores, ambas de 2024, foram integralmente ou exclusivamente camonianas. Com a primeira, o poema de 500 versos intitulado Camões em Nós, por Nós, quis celebrar simbolicamente os 500 anos do nascimento do poeta. Escrito em quadras, não em oitavas ou quintilhas, e não em decassílabos mas em versos de redondilha maior, com claras ressonâncias das redondilhas de “Sôbolos rios que vão”, é um monodiálogo com Camões, em que livre e concisamente evoca o “discurso dos seus anos”, suas viagens, amores, aventuras e sobretudo desventuras, valendo-se livremente de suas palavras e versos, que diz que reverberam e irradiam a luz-maravilha também assinalada por Drummond na poesia do poeta que se chamava Luís. Uma das quadras parece esclarecer luminosamente a paixão de Alexei por Camões:
Da língua, este magma estranho
Que nos funda, os que a fundamos,
Foste o supremo entre os amos,
Um corpo só, sem tamanho.
A outra obra, Camões, além do Desconcerto, publicada em Portugal - onde em 2007 foi publicado o seu livro A Árvore Seca e em 2017 saiu a ampla antologia que organizei e prefaciei da sua poesia, Des Aparições -, reproduz esse poema longo, junta-lhe um soneto extraordinário de 2004 e um poema em quintilhas de 2008, com o título que é também o do livro, e transcreve o discurso de abertura das comemorações brasileiras dos 500 anos de Camões, que Alexei proferiu no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro em 10 de junho de 2024.
O discurso começa por aludir à “sensação de quase espantosa perenidade, de presença quase física”, de Camões, “um artista inesgotável”, que justificou e justifica grandes “festejos”; alude em seguida à biografia do poeta, assinalando o “festival de bobagens” que já se escreveram sobre ele, e, focando a sua obra, defende que ela representa, como a de nenhum outro poeta internacional, “a suma de todos os géneros do lirismo renascentista”, dá-o como criador “do português moderno, a mesma língua literária que usamos hoje”, exalta com exemplos a qualidade da sua escrita ou da sua linguagem “intensamente viva, expressiva, flexível”, discorre sobre a sua qualidade de poeta nacional, lembra a estupidez de alguns dos seus críticos nacionais e internacionais, e define-o como um “poeta do pensamento”, de “grandeza moral” e de “invariável senso de justiça”, que chega a apelar “para a justiça divina contra os poderosos” ou que revela “perene empatia humana pelos fracos e os desgraçados”. E antes da conclusão em que o vê como “uma figura quase contraditória de contemporâneo nosso” , declara que “o amor pelo poema, implacavelmente, transforma-se em amor pelo homem, este homem-síntese que foi Camões”, e decide fazer esta confissão, este indesmentível “depoimento pessoal”:
“Desde que me dou por gente trago de cor toda a Proposição, a Invocação e a Dedicatória, bem como a maior parte do Velho do Restelo, o encontro com o Adamastor, a verdadeira sinfonia de topónimos que domina aventurosamente o Canto X até chegar às últimas oitavas do poema, entre vários outros trechos. A capacidade milagrosa de Camões de subjugar a língua ao sentimento que intenta descrever, de torná-la heróica, elegíaca, bélica, piedosa, indignada, é uma espécie de alegria eterna para todos os que leem português, e o nosso maior privilégio. /.../
Trago sempre de memória, por outro lado, um sem–número de versos que funcionam quase como aforismos em inúmeras situações da vida humana.”
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No dia 4 de junho falei com Alexei ao telefone. Eu estava no Porto e ele em Lisboa, onde viera para falar num colóquio de “Camões no Brasil republicano”. Desculpou-se por, como desejava e previra, não poder deslocar-se ao Porto. Pensei que a doença de sua mãe, de que me falara, o obrigava a retornar rapidamente ao Rio de Janeiro, mas notei alguma fragilidade na sua voz, como notara alguma enigmática melancolia nas duas fotos que dois dias antes – há exatamente um mês - me enviara, com a significativa legenda: “Caríssimo Arnaldo, No Largo de Camões e no Nicola, ontem “. (Nicola, o café de Bocage)
Nesta oportunidade, seria instigante lembrar alguns dos muitos e vibrantes poemas que Alexei escreveu sobre a morte ou sobre os mortos, como o poema “Helena” do livro Lucernário – um dos mais comoventes poemas que já se escreveram em qualquer língua-, ou os poemas, cada um com 3 quadras, do livrinho Decálogo Indigno para os Mortos de 2020. Mas na contingência do tempo limitar-me-ei a citar o verso de A Chave Quebrada
O que perdi, o que perdeste, o que perdemos...
e a transcrever o “soneto extraordinário” que há pouco referi, que por sinal tem o título emblemático “A última visão”:
É a hora de partir. Quão breve chega.
Tudo subitamente se amontoa...
Tejo, Mekong, Mondego, a musa grega,
O Rossio, os bordéis, Ceuta, Lisboa.
Naufrágios. Jogo. Oceano. A vista cega.
Bárbara. Dinamene. Uma coroa
Na areia. O mar. A praia que se entrega.
Os sinos de Sant´Ana. A praça em Goa.
Os versos. Prensas. Autos. Céus. Semblantes
De pedra. Os pais. Arruaças. Cães. Cadeias.
A espada sob o sol. Seios de amantes.
O Olimpo. O Letes. Náiades. Sereias.
Tudo passou em menos de uma hora.
Só Deus sabe o que principia agora.
*Comunicação apresentada à Academia Brasileira de Letras no dia 2 de julho de 2026


