Dois milhões de cheques-dentista para crianças nunca foram usados
Desde 2008, mais de dois milhões de cheques-dentista emitidos para crianças e jovens nunca foram usados, devido ao desconhecimento das famílias e à falta de promoção activa do programa. A Ordem dos Médicos Dentistas alerta para a necessidade urgente de desmaterializar os vales e relançar a política nacional de saúde oral.
Mais de dois milhões de cheques-dentista destinados a crianças e jovens nunca foram utilizados, em muitos casos porque as famílias desconheciam o programa ou não sabiam como utilizá-lo. Desde 2008, o programa oferece consultas e tratamentos dentários gratuitos.
O alerta é da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), que critica os médicos e as escolas por não conseguirem promover devidamente o programa.
Desde 2008, foram emitidos mais de 7,5 milhões de vales para crianças e jovens até aos 18 anos, mas apenas 5,1 milhões foram usados, segundo o mais recente relatório da OMD, que recolheu dados até Julho de 2025.
O número preocupa o bastonário da OMD, Miguel Pavão, que aponta vários motivos para a baixa utilização deste benefício, num país onde 22% dos portugueses não vai ao dentista por questões económicas.
"O grande problema dos cheques-dentista é que são emitidos mas a população não acede a eles, em grande parte por displicência e desconhecimento dos médicos de família e das escolas, que não têm mecanismos verdadeiramente activos para promover o programa", lamentou o bastonário em declarações à Lusa.
Uma das principais razões para a não utilização dos vales é o facto de perderem a validade. Pelo menos 23,1% das pessoas que não beneficiaram deste direito indicaram essa como a causa, segundo o relatório da OMD.
Para Miguel Pavão, a emissão dos cheques-dentista já devia ter sido desmaterializada, mas "esta é uma promessa que ainda não passou do papel".
O bastonário critica também a inação do Governo, lembrando que o Programa Nacional de Promoção de Saúde Oral terminou em Dezembro de 2025 e ainda não foi apresentado um novo.
Miguel Pavão aponta a falta de um estudo nacional actualizado sobre a prevalência das doenças orais, recordando que o último tem mais de uma década: "Como vão desenhar uma nova política se o estudo que deveria consubstanciar as necessidades e orientar o programa não é feito?", questiona.
"Este ministério da Saúde vai lidando com os assuntos numa estratégia mediática. Não é um Governo com uma visão reformista. Já deveria ter sido lançado outro programa nacional, era suposto acontecer dia 19, mas acabei de saber que a secretária de Estado não o vai lançar", lamentou.
A Lusa questionou a Direção-Geral da Saúde, o Serviço Nacional de Saúde e o Ministério da Saúde, mas nenhuma das entidades respondeu às perguntas.


