Nacional | 13-05-2026 14:56
Especialistas defendem Via Verde para travar atrasos no cancro ginecológico
Foto ilustrativa
Projecto da Nova Medical School recomenda referenciação prioritária, centros especializados e um registo interoperável que permita perceber onde se perdem dias decisivos no percurso das doentes.
A criação de uma Via Verde para o cancro ginecológico e de um registo capaz de identificar atrasos assistenciais estão entre as recomendações dos especialistas do projecto OncoGyn PT - Diagnóstico, Tratamento e Acesso no Cancro Ginecológico, da Nova Medical School, que são apresentadas esta quarta-feira.
As propostas incluem também a centralização do tratamento em centros de referência acreditados pela Sociedade Europeia de Oncologia Ginecológica (ESGO), de forma a garantir que a sobrevivência das mulheres não dependa do local onde residem.
Segundo explicou à Lusa Mariana Zagalo, gestora de projectos da Nova Medical School Scientific Services, a Via Verde OncoGyn permitiria fazer uma estratificação precoce do risco, assegurar referenciação prioritária, acesso mais célere a exames e uma comunicação estruturada entre médicos de família e hospitais.
“Embora os médicos de Medicina Geral e Familiar já disponham actualmente de mecanismos de referenciação hospitalar, a ausência de um circuito estruturado, diferenciado e prioritário para oncologia ginecológica faz com que muitas mulheres entrem num percurso assistencial indiferenciado, sujeito a múltiplos tempos de espera administrativos e clínicos”, afirmou.
Com a Via Verde OncoGyn, os especialistas pretendem reduzir recusas administrativas, duplicação de processos e o “reinício desnecessário de circuitos assistenciais”. Mais do que uma atribuição formal de prioridade, a medida criaria “um modelo integrado de referenciação rápida, alinhado com boas práticas internacionais”, acrescentou Mariana Zagalo.
A responsável defendeu ainda ser fundamental reforçar a interoperabilidade dos sistemas de informação, uniformizar circuitos diagnósticos entre regiões e aumentar a capacidade instalada em áreas críticas como Anatomia Patológica, Radiologia e Ginecologia Oncológica.
“Neste contexto, a implementação de uma rede nacional de telediagnóstico em Anatomia Patológica poderá reduzir desigualdades regionais e acelerar a confirmação diagnóstica através da partilha digital de lâminas e da avaliação por subespecialistas”, explicou.
O OncoGyn PT recomenda igualmente a modernização do acesso à Genética Médica e à “testagem em cascata”, permitindo o seguimento estruturado de mulheres com risco hereditário e o acesso atempado a estratégias de prevenção primária e vigilância personalizada em todo o território nacional.
“A evidência internacional demonstra que os melhores resultados em oncologia ginecológica dependem do acesso atempado a equipas diferenciadas, cirurgia especializada e centros com elevado volume assistencial”, sublinhou Mariana Zagalo.
A especialista recordou que Portugal continua a apresentar “assimetrias regionais relevantes” no acesso a Ginecologia Oncológica, cirurgia minimamente invasiva e robótica, ensaios clínicos e capacidade cirúrgica diferenciada.
Essas diferenças fazem com que o código postal “continue a influenciar prognóstico, acesso à inovação e probabilidade de sobrevivência das doentes”, advertiu, defendendo ser essencial “proteger a janela terapêutica” através do reforço da capacidade cirúrgica e da redução dos estrangulamentos em bloco operatório, anestesia, imagiologia e anatomia patológica.
Outra das recomendações passa pela criação de um Registo Oncológico Interoperável, uma vez que, segundo Mariana Zagalo, “os sistemas actualmente existentes não foram concebidos para acompanhar de forma integrada a jornada assistencial completa da doente”.
“Continua a existir uma limitação estrutural na capacidade de identificar com precisão onde ocorrem os principais atrasos ao longo do percurso assistencial”, afirmou.
De acordo com a responsável, muitos dos indicadores disponíveis avaliam apenas momentos isolados do processo, frequentemente já em contexto hospitalar, sem captar atrasos pré-diagnóstico, duplicação de procedimentos, tempos de espera intermédios ou desigualdades regionais no acesso aos cuidados.
Questionada pela Lusa, Mariana Zagalo reconheceu que a escassez de recursos humanos especializados é um dos principais constrangimentos estruturais à concretização das recomendações do OncoGyn PT, sendo uma limitação “particularmente crítica” em áreas como Medicina Geral e Familiar, Ginecologia Oncológica, Anatomia Patológica, Radiologia e Genética Médica.
Os especialistas lembram ainda que tratar a doença em estado avançado pode custar até três vezes mais e sublinham a necessidade de reforçar a literacia em saúde, com campanhas diferenciadas para o cancro do ovário e o cancro do endométrio.
Entre as propostas está também a integração da saúde feminina nos currículos escolares, incluindo conteúdos sobre autoconsciência corporal, saúde pélvica, ciclos menstruais e risco ginecológico.
Mais Notícias
A carregar...


