Arcebispo de Évora denuncia “asfixia” da comunicação social no interior
D. Francisco Senra Coelho alerta que sem imprensa regional livre e sustentável a democracia fica mais pobre e mais vulnerável à manipulação da verdade, incluindo pela inteligência artificial.
O Arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, deixou um forte alerta sobre a fragilidade da comunicação social no interior do país, defendendo que a falta de sustentabilidade económica dos órgãos regionais compromete a liberdade de informar, a representação dos territórios e a própria qualidade da democracia.
Na mensagem associada ao 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, o prelado afirmou que “quem consegue fazer uma comunicação com qualidade no interior é herói”, sublinhando as dificuldades enfrentadas pelos profissionais e empresas de informação fora dos grandes centros urbanos.
D. Francisco questionou como podem as regiões ter voz e protagonismo se não forem ouvidas, acrescentando que isso só é possível com uma comunicação social “sustentável e sustentada”. Para o arcebispo, a dependência exclusiva da publicidade deixa os órgãos de informação vulneráveis a pressões económicas e limita a sua independência editorial.
“A comunicação social que depende pura e simplesmente da publicidade é uma comunicação social que se compra e se vende”, afirmou, defendendo que a liberdade regional só existe quando a imprensa regional tem condições para “dizer o que pensa e o que sente”.
O responsável católico criticou também a forma como o interior é muitas vezes tratado pelos grandes meios nacionais, acusando-os de olharem para os territórios apenas em momentos de tragédia, crime ou acidente. “Não pode ser um país feito de comunicação a partir de Lisboa e do Porto”, declarou, defendendo um jornalismo enraizado nas comunidades e capaz de interpretar a realidade local com profundidade.
Na sua intervenção, D. Francisco Senra Coelho alertou ainda para os perigos da inteligência artificial, em particular para a manipulação de vozes, rostos e discursos. O arcebispo considerou “aflitivo” que se possa ouvir uma entrevista ou declaração e descobrir que a pessoa afinal nunca disse aquelas palavras.
“Pegar na voz de alguém e pô-lo a dizer aquilo que nunca disse é aflitivo”, afirmou, classificando essas práticas como uma degradação ética grave e uma ameaça à confiança pública. Para o prelado, proteger a autenticidade das vozes e dos rostos é também proteger a própria sociedade.
D. Francisco concluiu com um apelo à recuperação da credibilidade, independência e qualidade da comunicação social portuguesa, lembrando que uma democracia sem verdade e sem jornalismo livre corre o risco de se transformar numa caricatura de si própria.


