Nacional | 18-05-2026 17:33

Arcebispo de Évora denuncia “asfixia” da comunicação social no interior

Arcebispo de Évora denuncia “asfixia” da comunicação social no interior
foto Agência ECCLESIA

D. Francisco Senra Coelho alerta que sem imprensa regional livre e sustentável a democracia fica mais pobre e mais vulnerável à manipulação da verdade, incluindo pela inteligência artificial.

O Arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, deixou um forte alerta sobre a fragilidade da comunicação social no interior do país, defendendo que a falta de sustentabilidade económica dos órgãos regionais compromete a liberdade de informar, a representação dos territórios e a própria qualidade da democracia.
Na mensagem associada ao 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, o prelado afirmou que “quem consegue fazer uma comunicação com qualidade no interior é herói”, sublinhando as dificuldades enfrentadas pelos profissionais e empresas de informação fora dos grandes centros urbanos.
D. Francisco questionou como podem as regiões ter voz e protagonismo se não forem ouvidas, acrescentando que isso só é possível com uma comunicação social “sustentável e sustentada”. Para o arcebispo, a dependência exclusiva da publicidade deixa os órgãos de informação vulneráveis a pressões económicas e limita a sua independência editorial.
“A comunicação social que depende pura e simplesmente da publicidade é uma comunicação social que se compra e se vende”, afirmou, defendendo que a liberdade regional só existe quando a imprensa regional tem condições para “dizer o que pensa e o que sente”.
O responsável católico criticou também a forma como o interior é muitas vezes tratado pelos grandes meios nacionais, acusando-os de olharem para os territórios apenas em momentos de tragédia, crime ou acidente. “Não pode ser um país feito de comunicação a partir de Lisboa e do Porto”, declarou, defendendo um jornalismo enraizado nas comunidades e capaz de interpretar a realidade local com profundidade.
Na sua intervenção, D. Francisco Senra Coelho alertou ainda para os perigos da inteligência artificial, em particular para a manipulação de vozes, rostos e discursos. O arcebispo considerou “aflitivo” que se possa ouvir uma entrevista ou declaração e descobrir que a pessoa afinal nunca disse aquelas palavras.
“Pegar na voz de alguém e pô-lo a dizer aquilo que nunca disse é aflitivo”, afirmou, classificando essas práticas como uma degradação ética grave e uma ameaça à confiança pública. Para o prelado, proteger a autenticidade das vozes e dos rostos é também proteger a própria sociedade.
D. Francisco concluiu com um apelo à recuperação da credibilidade, independência e qualidade da comunicação social portuguesa, lembrando que uma democracia sem verdade e sem jornalismo livre corre o risco de se transformar numa caricatura de si própria.

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