Custos com habitação disparam taxa de pobreza em Portugal para os 27,6%
O documento apresentado em Santarém revela ainda que o impacto da habitação tem vindo a agravar-se de forma acelerada. A diferença entre a taxa de pobreza geral e a taxa pós-habitação atingiu os 66% em 2024, o que prova a asfixia crescente que estas despesas representam no orçamento dos portugueses.
Se os encargos com a habitação fossem contabilizados no cálculo oficial, a taxa de risco de pobreza em Portugal daria um salto drástico, passando de 16,6% para 27,6%. A conclusão é de um estudo da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN Portugal) divulgado hoje no Instituto Politécnico de Santarém.
Os dados oficiais de 2024 apontam para cerca de 1,76 milhões de pessoas em risco de pobreza (os referidos 16,6%). Contudo, a organização alerta que este indicador ignora o peso da habitação. Ao incluir estas despesas no orçamento familiar, o número de pessoas vulneráveis dispara para quase três milhões — mais um milhão do que os dados oficiais aparentam.
Em declarações à Lusa, Paula Cruz, do Departamento de Investigação e Projetos da EAPN Portugal, defendeu uma mudança urgente na forma como a pobreza é medida.
"Actualmente, a taxa de risco de pobreza não contabiliza os gastos com a habitação. Se retirarmos esse valor, percebemos que as pessoas ficam com menos rendimento disponível e mais vulneráveis.", afirma.
Para a investigadora, integrar os custos habitacionais permitiria obter uma radiografia "mais fiel" do país, evidenciando o rendimento que sobra verdadeiramente às famílias para subsistir.
O documento revela ainda que o impacto da habitação tem vindo a agravar-se de forma acelerada. A diferença entre a taxa de pobreza geral e a taxa pós-habitação atingiu os 66% em 2024, o que prova a asfixia crescente que estas despesas representam no orçamento dos portugueses.
A EAPN deixa o aviso: o modelo actual de medição, focado quase exclusivamente no rendimento mediano, é limitado e "não abrange outras dimensões" vitais para o bem-estar, acabando por camuflar e excluir muitas situações de pobreza real.


