Nacional | 16-10-2026 13:00

Mais de 85% das unidades de saúde familiar continuam à espera de incentivos financeiros

Mais de 85% das unidades de saúde familiar continuam à espera de incentivos financeiros

Mais de oito em cada dez Unidades de Saúde Familiar têm incentivos financeiros em dívida ou ainda por disponibilizar, apesar de terem cumprido os objectivos que lhes dão direito às verbas. Associação Nacional de Unidades de Saúde Familiar denuncia falta de autonomia, excesso de trabalho e problemas estruturais que continuam sem resposta.

Mais de 85% das Unidades de Saúde Familiar (USF) têm incentivos institucionais em dívida ou ainda não disponibilizados e 63,6% foram informadas de que as verbas relativas a 2025 só seriam entregues este ano. Os dados constam de um relatório da Associação Nacional de Unidades de Saúde Familiar (USF-AN), apresentado esta sexta-feira, 16 de Outubro, que revela um crescente descontentamento dos profissionais com o funcionamento dos cuidados de saúde primários.
Os incentivos são atribuídos às unidades que cumprem determinados objectivos de qualidade e destinam-se a melhorias nos serviços, formação e outros investimentos. O presidente da USF-AN, André Biscaia, denuncia que há unidades que conquistam o direito às verbas, mas ficam impedidas de as utilizar pelas respectivas Unidades Locais de Saúde (ULS). Em alguns casos, acusa, o dinheiro acaba por ser aplicado noutros investimentos. “A autonomia existe na lei mas acaba por não ser posta em prática porque as verbas não são distribuídas”, critica.
O relatório, que contou com a participação de 541 coordenadores de um universo de 712 USF, revela também uma perda de confiança nos mecanismos de avaliação e contratualização. Apenas 23,6% consideram que o processo tem melhorado e 80,9% entendem que os prazos estabelecidos não são cumpridos. A percentagem de profissionais que vê na contratualização um estímulo à melhoria da qualidade desceu de 64,5% para 56,6% num ano.
A sobrecarga de trabalho é outra das principais preocupações. Cerca de 76% dos coordenadores consideram que a dimensão das listas de utentes prejudica o acesso atempado aos cuidados de saúde. A dificuldade em conciliar a vida profissional com a familiar, as falhas de comunicação entre sistemas informáticos e os obstáculos na referenciação hospitalar continuam entre os problemas mais apontados.
“A carga de trabalho não está a ser sustentável”, alerta André Biscaia, lamentando que os mesmos problemas se repitam há vários anos sem soluções eficazes.
Apesar das dificuldades, 61,7% dos coordenadores consideram que a qualidade dos serviços é actualmente a melhor de sempre, embora esse valor tenha recuado face ao relatório anterior. A associação defende maior autonomia financeira e de gestão, valorização dos profissionais e, sobretudo, a concretização de reformas já previstas. Para a USF-AN, o principal problema do Serviço Nacional de Saúde não é a falta de legislação ou de diagnósticos, mas a incapacidade de transformar decisões em melhorias concretas.

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