Nacional | 05-11-2026 12:31

Mais de 40% dos cuidadores dizem que Estatuto não melhorou as suas condições de vida

Mais de 40% dos cuidadores dizem que Estatuto não melhorou as suas condições de vida

Quase metade dos cuidadores informais enfrenta dificuldades financeiras e de saúde mental, apesar da aprovação do Estatuto do Cuidador Informal em 2019.

Mais de 40% dos cuidadores informais inquiridos num estudo hoje divulgado consideram que o Estatuto do Cuidador Informal não teve efeitos positivos na sua saúde mental nem nos seus rendimentos.
Os resultados do estudo “Retrato da Saúde em Portugal no Pós-Pandemia: Percepções, Acesso aos Cuidados e Uma Só Saúde”, promovido pela Ordem dos Médicos, revelam também que 14,7% dos inquiridos dizem prestar regularmente cuidados a alguém com problemas de saúde prolongados.
Entre estes cuidadores, 34% afirmam dedicar 20 ou mais horas por semana a essa actividade, disse à agência Lusa o coordenador científico do estudo, Tiago Correia. O investigador lembrou que os sistemas de saúde europeus assentam muito nos cuidados informais, uma responsabilidade que está sujeita “muitas vezes a uma dimensão de género e, portanto, tende a recair sobre as mulheres”.
Apesar de o Estatuto do Cuidador Informal ter sido aprovado em 2019, mais de 40% dos inquiridos consideram que não teve efeitos positivos na sua saúde mental nem nos seus rendimentos. Para Tiago Correia, este resultado merece particular atenção, tendo em conta o papel desempenhado pelos cuidadores informais na sociedade.
O investigador aponta três questões que devem ser discutidas: perceber se o Estatuto está a ser devidamente implementado, avaliar se é necessário “expandir os apoios, porque efectivamente não estão a cobrir as necessidades dos cuidadores” ou repensar o próprio modelo, assente nos cuidados informais e na permanência das pessoas em casa.
Na perspectiva de Tiago Correia, este modelo tem custos para quem cuida, traduzindo-se numa elevada pressão psicológica e financeira, uma vez que o cuidador “está necessariamente afastado do mercado de trabalho e afastado da sua autonomia de vida”.
O coordenador científico do estudo alertou ainda que quase metade dos cuidadores informais considera encontrar-se numa situação de dificuldade, tanto ao nível da saúde mental como da situação financeira.
O estudo foi promovido pela Ordem dos Médicos e realizado pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa, através do Centro Colaborador da Organização Mundial da Saúde para as Políticas e Planeamento da Força de Trabalho em Saúde.
Segundo o bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, o estudo integra a iniciativa “Um Rumo para a Saúde”, que visa preparar o sistema de saúde português para as próximas décadas, através de uma reflexão aberta à sociedade e sustentada em informação científica.
“O projecto cruza as perspectivas da população, dos médicos e dos estudantes de Medicina para identificar necessidades e fundamentar propostas concretas de transformação”, explicou o bastonário numa nota escrita enviada à Lusa.
De acordo com Carlos Cortes, a iniciativa pretende definir, perante o envelhecimento, as desigualdades no acesso e as mudanças científicas, tecnológicas e sociais, que cuidados a população vai necessitar, que profissionais Portugal deve formar e como devem ser organizados os serviços para garantir respostas em tempo adequado, com qualidade e segurança.
“A ambição é colocar o futuro da saúde na agenda do país e construir compromissos duradouros que protejam quem precisa de cuidados hoje e as gerações que se seguem. Este trabalho pretende ajudar a sustentar a reforma profunda que é necessária para o SNS”, sublinhou Carlos Cortes.
O estudo decorreu entre Setembro e Novembro de 2025 e envolveu 700 entrevistas telefónicas a adultos residentes no Continente e nas regiões autónomas.

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