Nacional | 13-03-2022 13:12

Dinheiro dos emigrantes enviado para Portugal é quase tanto como o dos fundos europeus

Dinheiro dos emigrantes enviado para Portugal é quase tanto como o dos fundos europeus

Velha emigração portuguesa envia mais remessas, mais novos nem pensam nisso.

As maiores remessas das comunidades portuguesas são de países onde há mais tempo existem mais emigrantes e não dos novos fluxos, protagonizados por jovens para quem o projecto emigratório não passa por estas transacções, segundo o Observatório da Emigração.

A interpretação é do sociólogo e coordenador científico do Observatório da Emigração, Rui Pena Pires, para quem “há diferenças entre os objectivos das remessas do passado e hoje”.

Em declarações à Lusa, o sociólogo sublinhou a dimensão das remessas enviadas pelos emigrantes para Portugal – 3.677,76 milhões de euros em 2021 – que é semelhante à dos fundos europeus.

Mas ressalvou: “A grande diferença é que as transferências comunitárias contribuem directamente para o desenvolvimento e as remessas só indirectamente contribuem”.

“Não quer dizer que as remessas não contribuem para o desenvolvimento do país, mas contribuem independentemente do objectivo que têm. Contribuem porque aumentam o poder de compra dos países para onde são enviadas as remessas, para melhorar as reservas cambiais do país e podem ser usadas para investimentos”, disse.

Em rigor, prosseguiu, “as remessas são transferências que visam objectivos privados, particulares, não objectivos colectivos. Podem ser familiares, do próprio, mas são sempre privados”.

Para Rui Pena Pires, as remessas devem ser 50% maiores do que vemos nas estatísticas. “As remessas baixam subitamente com a introdução do euro e vão recuperando. Mas não é uma recuperação, uma vez que aquela queda não aconteceu, porque a entrada no euro implica que alguns movimentos cambiais deixam de ser registados como movimentos cambiais”.

Por essa razão, “parte de remessas que aconteçam na zona do euro tem um défice de registo”, sendo as oriundas da Suíça as que se mantêm com um registo mais elevado.

Em 2021, os emigrantes portugueses na Suíça voltaram a ser os que mais remessas enviaram, totalizando 1.051 milhões de euros durante o ano passado. Mas a França – o país com mais emigrantes portugueses – provavelmente enviou mais remessas, mas que não foram contabilizadas por falta de registos, indicou.

Os emigrantes mais antigos são os que mais remessas enviam, porque “é a maneira de terem confiança de realização das suas poupanças”.

“Temos histórias de emigrantes portugueses que continuam a construir as suas casas para um dia voltar ou para as férias e continuam a fazê-lo como faziam há 30 anos”, afirmou.

Uma realidade em sintonia com a origem das remessas, “mais relacionada com o ‘stock’ do que com o fluxo”, pois nesse caso os valores maiores encontrar-se-iam nas novas saídas, protagonizadas por emigrantes mais novos e mais diferenciados, para países como o Reino Unido, do Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo).

Sobre os incentivos ao envio de remessas, Rui Pena Pires reconheceu que, dentro da zona euro, não há grandes incentivos a que haja transferências, uma vez que existe um sistema bancário europeu.

“No limite, eu posso comprar uma casa em Portugal, estando a trabalhar no Luxemburgo e com um empréstimo num banco no Luxemburgo. Não preciso de vir a Portugal pedir um empréstimo”, indicou.

Uma realidade “mais facilmente apreendida pelas novas gerações, porque não conheceram outra, do que as dos emigrantes mais antigos, com mais dificuldade em mudar hábitos que adquiriram quando iniciaram o seu processo emigratório”.

Portugal foi o país da União Europeia (UE) que apresentou o valor mais elevado de remessas recebidas, segundo o Banco de Portugal.

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