A Palavra dos Leitores | 28-06-2022 14:59

Os médicos “tarefeiros”, a Ordem que não os defende e os jornalistas preguiçosos

Não sou médico, mas também não sou estúpido. Quando leio notícias e opiniões a desvalorizar os médicos que trabalham à hora nas urgências dos hospitais, chamando-lhes acintosamente tarefeiros e sugerindo que é o dinheiro que recebem pelo seu trabalho, que arruina o Serviço Nacional de Saúde, sinto-me insultado.

Não sou médico, mas também não sou estúpido. Quando leio notícias e opiniões a desvalorizar os médicos que trabalham à hora nas urgências dos hospitais, chamando-lhes acintosamente tarefeiros e sugerindo que é o dinheiro que recebem pelo seu trabalho, que arruina o Serviço Nacional de Saúde, sinto-me insultado.
Os tais tarefeiros são médicos. Fizeram o curso como os outros médicos, nas mesmas universidades, e fizeram o ano de formação geral, vulgarmente designado ano comum. Estão inscritos na Ordem dos Médicos (condição obrigatória para poderem exercer) e têm a sua cédula profissional.
Alguns são especialistas. Outros só não tiraram ainda uma especialidade ou porque não conseguiram ter nota para entrarem na especialidade que queriam ou porque é sua opção trabalharem na urgência. Não é por acaso que está em preparação a especialidade de Emergência Médica a que muitos deles irão certamente concorrer.
Alguns desses tarefeiros têm muitos anos de prática (por vezes décadas) naquele tipo de medicina e, sem desprimor para os colegas que estão nos centros de saúde ou hospitais e vão fazer horas nas urgências, estão mais adaptados que eles àquele tipo de resposta médica. Não é justo desvalorizá-los profissionalmente, como já vi elementos da Ordem dos Médicos (entidades que os autoriza a exercerem) fazerem. Claro que há bons médicos e há maus médicos mas não é por serem tarefeiros ou não tarefeiros.
Quanto à remuneração, também é simplista e injusto dizer que ganham mais à hora que os médicos do quadro e que saía mais barato recorrer a estes pagando-lhes horas extra. Os tarefeiros, mesmo quando contratados directamente pelos hospitais, só ganham as horas que efectivamente fazem enquanto os outros médicos trabalham onze meses e recebem catorze ordenados (não trabalham o mês de férias e recebem esse mês para além do subsídio de férias e de Natal).
E os tarefeiros também não recebem subsídio de refeição, ou outros, nem horas extra (recebem geralmente a mesma remuneração sejam horas diurnas ou nocturnas ou aos sábados, domingos e feriados). E têm que pagar os seus seguros nomeadamente de acidentes de trabalho. E também pagam mais para a Segurança Social (21,4% sobre 70% do que ganham), por exemplo.
E o que os tarefeiros recebem à hora não é igual para todos. Pode haver quem receba 50 e até 100 euros como já li, mas há quem receba 23 ou 27 ou 30, dependendo do Hospital onde presta serviço.
Finalmente, a maioria das urgências, na actual situação (que não vai alterar-se de um dia para o outro, como já se percebeu), teria de encerrar se não houvesse os tais tarefeiros. E não era apenas no Verão, era todo o ano!
Não percebo porque é que os jornalistas e comentadores que escrevem sobre estes assuntos não fazem o seu trabalho e esclarecem esta situação em vez de se limitarem a amplificar informações deturpadas ou incompletas de grupos organizados de interesses ou de pessoas que não sabem do que estão a falar.
Fernando de Carvalho

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