O MIRANTE dos Leitores | 28-08-2022 14:59

Quando Abel Pereira me convidava a interpretar os rótulos do peixe congelado

Sou um soldado raso do jornalismo. Nunca serei director de nenhum jornal mas essa situação ocorreu em 1963 em Vila Franca de Xira quando na Escola Comercial fui director do jornal de parede «Velas do Tejo».

Sou um soldado raso do jornalismo. Nunca serei director de nenhum jornal mas essa situação ocorreu em 1963 em Vila Franca de Xira quando na Escola Comercial fui director do jornal de parede «Velas do Tejo».
Eram feitos à mão os textos e os desenhos desse jornal que, na arte final, se colava a uma folha de cartolina. Tudo era efémero, tudo se perdeu nas emboscadas do esquecimento, a cartolina, os textos, os desenhos, a paixão, o título, os leitores no corredor entre as salas.
É essa memória, são essas as memórias que eu quero invocar não para mim (que não sou ninguém) mas para Abel Pereira. Abel Trindade Pereira de seu nome completo, nascido em 22-3-1925 na cidade da Guarda, freguesia da Sé, eterno chefe de redacção do «Diário Popular» mesmo quando foi director de «O Ponto» e director-adjunto do «Diário Popular».
Claro que a palavra eterno é relativa de modo absoluto e basta um olhar mais atento para os livros da casa onde passei férias no Verão de 2022 para perceber que a sua morte física em 8-1-1985 (tinha só 59 anos) foi replicada na página 212 do livro «Portugal Contemporâneo» organizado por António Reis para a Selecção do Readers Digest.
Nessa página do terceiro volume Abel Pereira é referido como Abel Fonseca e passado o primeiro momento de repúdio pelo erro crasso que regista o nome (Abel) mas lhe atribui outro sobrenome (Fonseca) lembrei-me de uma hipótese. Se um assunto similar lhe passasse pela honrada banca de trabalho do jornal da Luz Soriano é possível que a sua bonomia avançasse com uma piada parecida com «Esta coisa vai acabar no Poço do Bispo».
De facto a sua sagacidade poderia tê-lo levado a perceber de imediato a ligação entre os nomes Abel Pereira (correcto) e Abel Fonseca (errado) pois tudo junto pode dar Abel Pereira da Fonseca que é o nome dos estabelecimentos de vinho e seu derivados que Fernando Pessoa frequentou quando o mesmo saía a meio da manhã da firma Moitinho de Almeida para praticar o seu «flagrante delitro».
Mas é óbvio que isto não aconteceu em 1985 quando o Registo Civil regista a sua morte em 8 de Janeiro. Está a surgir no meu pensamento não como desculpa do erro tenebroso mas como possível ou provável explicação para o desvio onomástico.
Num outro registo lembro a bonomia de Abel Pereira quando aos sábados de manhã na Cooperativa dos Bancários ali ao Arco do Cego ele me convidava a interpretar os rótulos do peixe congelado. Outras vezes falávamos da frases feitas como por exemplo «Todas as horas nos ferem, a última mata-nos» ou «A única medida do amor é amar sem medida.».
A primeira foi lida por Baptista-Bastos numa igreja das Ardenas, a segunda é de Santo Agostinho e está no livro «Consolação número três» de Santos Fernando, colaborador do «Diário Popular» com a crónica «Os grilos não cantam ao domingo». Abel Pereira sabia tudo, era uma Wikipédia antes do tempo. Hoje a Wikipédia nada diz sobre a sua trajectória de jornalista.
José do Carmo Francisco

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