O MIRANTE dos Leitores | 28-11-2025 15:34

Declaração à vida

Declaração à vida
CULTURA E CIDADANIA

Falamos todos os dias. Horas a fio, sobre sonhos, sobre nós. Falamos de palavras como se nelas vivêssemos juntos.

Falta-me o teu corpo no calor do mundo.

Estou numa praia que parece saída de um sonho antigo. A areia, tão fina, escorre pelos meus dedos como um segredo velho; o mar, tão quente, dissolve as fronteiras do meu corpo até eu já não saber onde acabo e onde começa a água. O sol pinta o céu com um dourado líquido, e a brisa tímida, quase envergonhada sopra apenas o suficiente para lembrar que a vida continua a mover-se à minha volta.

E, ainda assim, falta-me tudo.

Faltas-me tu.

É estranho sentir-me rodeada de tanta beleza e, ainda assim, carregar este vazio que cresce dentro de mim como uma sombra de sal. Penso em ti constantemente. O teu nome, que me chega sempre doce e inteiro, ecoa no silêncio que se deita ao meu lado todas as noites. Tento não me perder nessa ausência, tento não permitir que a saudade se transforme em tristeza, mas como impedir isso quando a alegria chega sempre acompanhada da tua falta?

Falamos todos os dias. Horas a fio, sobre sonhos, sobre nós. Falamos de palavras como se nelas vivêssemos juntos. Rimos. Rimos até a alma ficar mais leve. Hoje falámos do Santo Nicolau, e por um instante fomos crianças outra vez, duas almas a inventar um mundo onde a bondade tem mãos quentes e abraços largos. Vi-te ali, naquela figura protetora, e senti que há gestos teus que são quase milagres.

Às vezes pergunto-me: será que o que temos é feito de carne ou de espírito? Porque há dias em que te sinto mais perto que o sol na minha pele, mesmo estando tão longe. E há outros, como agora, em que o peso da tua ausência me atravessa como uma onda que não cessa. Fico a olhar o mar e imagino-te a caminhar até mim, com os pés descalços, o sorriso aberto, e essa serenidade que parece sempre saber o caminho. Mas não vens. E o mar devolve-me apenas o seu vaivém incansável.

Esta praia é linda, mas incompleta. Sem ti, todos os lugares são quase. Tudo é metade.

Ainda assim, levo-te comigo. Nas conversas infinitas. Nas gargalhadas partilhadas. Nos silêncios que dizem o mesmo. No cuidado com que me escutas. No “estou aqui” que tantas vezes me salva. É um amor estranho, o nosso: tão feito de palavras que parece ter nascido num livro, e tão vivo que talvez tenha sido escrito nas nossas almas antes de nascermos.

Queria que estivesses aqui. Para veres como a luz dança sobre o mar. Para sentires a areia quente comigo. Para caminharmos lado a lado, sem pressa. Para partilhar o que é belo com quem dá sentido à beleza.

Enquanto isso não acontece, escrevo-te. Escrevo como quem constrói uma ponte, como quem não desiste. Porque sei, numa certeza antiga e sem nome que este verão há de ser mais do que ausência. Há de ser memória. E depois desencontro.

Até lá, deixo que a saudade se sente ao meu lado. E espero. Com o coração aberto, como um lugar onde nunca deixaste de estar.

O que me liga a ti não é apenas a saudade. É a forma como me entendes. O riso partilhado no meio dos dias difíceis. O teu jeito de me dizer a palavra certa na hora exata. Há laços que não se explicam apenas se reconhecem.

E se nunca for… se o destino insistir em manter-nos longe… ainda assim valeu a pena. Porque o que vivemos já existe no sítio onde tudo é eterno: o que sentimos.

Mas, no fundo, há em mim uma voz antiga que diz que sim. Que os caminhos se hão de encontrar. Que os sonhos não mentem quando nascem de um amor tão verdadeiro.

E assim fico, à beira-mar, com o coração sereno…

e a chamar por ti.

Uma declaração à vida.

E a ti, que és parte dela.

Irene Queiroga

Escritora e pintora.

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