A Barca: uma vergonha local, municipal e nacional
A Barca da Amieira é pretexto para uma carta de um leitor a recordar velhos tempos e a apelar ao sentimento dos autarcas para que conservem o património que conta a história da região.
Acudam-me, tirem-me daqui, sou a Barca!!!
Acordei sobressaltado com estas palavras, pouco audíveis, mas suficientemente nítidas para me inquietarem.
Esta manifestação aflitiva foi, provavelmente, despoletada pelo receio de sentir a água subir assustadoramente, ameaçando arrastá-la rio abaixo.
Soube depois que tal perigo, afinal não existia, graças à feliz e louvável iniciativa do conterrâneo António Júlio Marçal, que teve o cuidado de a amarrar.
Convencido de que tudo não passava de imaginação, virei-me para o outro lado e voltei a “ferrar o galho”.
Mas, pouco tempo depois, o sonho recomeçou, agora com queixas atrás de queixas.
E, de entre o que ouvi, fixei e registei, sem garantir rigor absoluto na ordem:
• Estou aqui há mais de 30 anos. Certamente já se esqueceram de mim;
• Não me tratam, não me pintam, não me cuidam;
• Nunca fui vaidosa, mas até me sinto mal quando olham para mim;
• Durante décadas fiz a ligação entre as duas margens do rio;
• Comigo em funcionamento, a EN 359 não estava interrompida;
• Transportei de tudo: camionetas, carroças, animais, pessoas, cães, ovelhas…;
• Naquele tempo não se falava em férias nem feriados;
• Trabalhava de sol a sol, o ano inteiro, e ainda de noite, sempre que necessário;
• Ouvia as conversas dos chamados “ratinhos da Beira”, que iam para a ceifa, com os burros carregados de pão e o conduto – toucinho, azeitonas e algum queijo – para 30 ou 40 dias de trabalho duro;
• Ao fim de mais um dia sob sol abrasador, comiam o pouco que restava e dormiam tendo por tálamo a terra quente e por dossel o céu estrelado;
• No regresso vinham cansados, mas felizes, trazendo os burros carregados de pão para garantir mais um ano de sobrevivência.
E terminou, num lamento que ainda ecoa:
— Sinto-me isolada, abandonada, esquecida, humilhada…
Falou a Barca. Agora falo eu.
A Barca em seco, desde a Grande Cheia de 1979 até hoje, constitui, sem rodeios, uma vergonha local, municipal e nacional, por múltiplas razões:
• Durante décadas assegurou a ligação entre margens, transportando pessoas, animais, veículos e mercadorias;
• Numa Europa sem fronteiras, mantemos aqui uma barreira interna absolutamente injustificável;
• A EN 359 continua oficialmente existente, mas amputada da sua continuidade natural;
• Com a Barca parada, o Tejo transformou-se numa fronteira física, social e económica, ultrapassando o aceitável e entrando no domínio do intolerável;
• A Câmara Municipal de Nisa tentou resolver o problema, merecendo reconhecimento por essa iniciativa, mas as variações frequentes e inesperadas do caudal impediram o sucesso da solução encontrada;
• Cabe agora, de forma clara e inadiável, às Câmaras Municipais de Mação e de Nisa assumirem plenamente esta responsabilidade histórica, tal como aconteceu no passado;
• Para além de suprir uma necessidade básica, a Barca constituirá um atrativo turístico singular, de elevado valor patrimonial, cultural e identitário;
• Por tudo isto, é justo, desejável e até obrigatório que a Barca seja classificada como Património de Interesse Municipal;
• Utentes, Juntas de Freguesia de Envendos, União de Freguesias de Arez e Amieira do Tejo, e sobretudo as Câmaras Municipais de Mação e Nisa, por ordem crescente de responsabilidade, não podem continuar a admitir a existência desta fronteira dentro do nosso próprio país.
Quando o querer é forte, as dificuldades tornam-se superáveis.
Recolocar a Barca a funcionar não é apenas uma necessidade: é um imperativo moral, histórico e institucional.
Assim desejamos, consideramos e esperamos!!!
Manuel Luís Matos Cristóvão


