Quem decide quando a história termina
Carlos Carvalheiro volta à encenação com uma peça que escreveu, encenou e vai levar à cena dia 29 de março nas ruas de Tomar. "Paixão não é uma peça sobre o passado. É uma peça sobre quem decide quando a história termina. E sobre quem ousa continuar". Excerto de um texto de Alexandra Azevedo de Carvalho que pretende fazer um pouco de luz sobre um texto e uma arte que promete surpreender.
A cruz era linguagem política.
A ressurreição foi contra-linguagem.
E esta disputa ainda se mantém.
Escrita e encenada por Carlos Carvalheiro, Paixão é contada em dez cenas, espalhadas pelas ruas, largos e edifícios de Tomar, no próximo dia 29 de março.
A história regressa ao espaço público — como regressam sempre as narrativas fundadoras. Porque elas nunca nasceram em abstrato. Nasceram sob ocupação.
Sob tensão. Sob disputa de poder.
A condição humana move-se entre dois limites incontornáveis: a morte e a incerteza.
A primeira lembra-nos que somos finitos.
A segunda recorda-nos que podemos estar errados, e até ser manipulados.
Entre o desaparecimento e o engano possível, erguem-se histórias. São elas que estruturam comunidades, legitimam sistemas e organizam o sentido do mundo.
Nenhuma civilização se sustenta apenas sobre factos. Sustenta-se sobre interpretações partilhadas, histórias repetidas, ensinadas, celebradas. São elas que integram o sofrimento, reorganizam o trauma coletivo e mantêm coesa uma identidade.
A vulnerabilidade nunca desapareceu. Apenas mudou de forma.
É nesse intervalo que esta peça se situa.
Antes do milagre, houve impostos.
Antes da teologia, houve soldados.
Antes da ressurreição, houve um território ocupado.
A Judeia do século I não era um cenário místico suspenso fora da história. Era uma província sob domínio romano, atravessada por tensão política, fragmentação religiosa e expectativa messiânica intensa. Jerusalém organizavase em torno do Templo, centro espiritual, económico e simbólico.
Roma organizava-se em torno do controlo.
A crucificação não era apenas execução. Era linguagem política.
Não pretendia convencer, pretendia dissuadir.
Exposta à vista de todos, afirmava um princípio antigo: a força decide o desfecho.
A história pertence a quem domina o corpo do outro.
Mas a proclamação que se seguiu desloca esse eixo.
Se a cruz afirmava que a força encerra a narrativa, a ressurreição sugeria que a força não tem a última palavra. Não negava o poder. Reinterpretava-o. Transformava um instrumento de dominação num símbolo de continuidade. Onde o império dizia “termina aqui”, a comunidade respondia: “não terminou”.
Este gesto é antropologicamente decisivo. Não é apenas consolo. É reorganização. Introduz a possibilidade de que a verdade não coincida com a
força. De que a legitimidade não dependa apenas da superioridade física ou institucional. De que o significado possa sobreviver ao esmagamento.
Mais tarde, essa mesma narrativa tornar-se-ia também estrutura de poder.
Organizaria impérios, legitimaria autoridades, moldaria leis. Mas isso é outra história.
A ressurreição é, assim, também uma disputa pelo significado.
E onde há disputa de significado, há disputa de poder.
Naquela época, movimentos messiânicos surgiam e desapareciam com regularidade. Líderes eram seguidos, presos, executados, esquecidos. O
império confiava na pedagogia da morte pública. Imagine-se o silêncio depois da execução.
O corpo exposto.
A sensação de que tudo terminou.
Num horizonte saturado de expectativa escatológica, um Messias morto parecia a negação do próprio sentido.
É precisamente aí que emerge a afirmação inesperada: Ele vive.
Não como teoria abstrata, mas como recusa de aceitar o fim.
Não como consolo íntimo, mas como proclamação partilhada.
O que faz uma comunidade quando aquilo que lhe dava sentido é esmagado?
Aceita a dissolução?
Ou reconstrói significado?
Quando a realidade contradiz violentamente a expectativa, instala-se uma fratura. Algo precisa de ser reorganizado. A derrota pode ser abandonada, ou
reinterpretada.
A ressurreição nasce nesse intervalo.
Antes de ser dogma, é reorganização do trauma.
Antes de ser metafísica, é mecanismo de coesão.
A morte transforma-se em passagem.
A humilhação em exaltação.
A derrota em confirmação.
Este movimento não é exclusivo de uma tradição. É humano. Sempre que uma comunidade enfrenta ameaça existencial, produz narrativas capazes de
restaurar continuidade.
É assim que emergem os mitos fundadores.
E é assim que perduram.
A Paixão concentra arquétipos universais:
o inocente injustiçado,
o sofrimento que ganha sentido,
a morte que não é definitiva,
a derrota que se converte em vitória, e
a afirmação mais inquietante de todas: o vínculo pode ser mais forte que a força.
Não se trata de sentimentalismo.
Trata-se de reorganização do poder.
A força impõe.
O amor sustenta.
A força governa pelo medo.
O vínculo governa pela escolha.
Independentemente da dimensão biológica da ressurreição, há um facto histórico incontornável: esta crença produziu comunidade, ética, arte, direito,
filosofia, música, teatro, impérios e revoluções.
O acontecimento pode ser debatido.
O impacto civilizacional, não.
Mas os medos mudam de forma.
Se no século I a angústia dominante era a morte, hoje é a manipulação.
Vivemos num ambiente saturado de informação, fragmentação de autoridade e suspeita permanente. Tememos não apenas desaparecer, mas confiar na
narrativa errada.
A força continua, apenas mudou de roupa.
Quando decide o que é verdade.
Quando determina o que deve ser lembrado e o que deve desaparecer.
Quando define quem é legítimo e quem deve ser silenciado.
Paixão não é uma peça sobre o passado.
É uma peça sobre quem decide quando a história termina.
E sobre quem ousa continuar.
Não oferece conclusões.
Expõe mecanismos.
Coloca o espectador dentro deles.
Não afirma possuir a verdade.
Coloca perguntas onde o silêncio pareceu, por vezes, mais confortável.
Interessa-lhe algo mais inquietante do que o milagre ou a estratégia: como nasceu, naquela época, uma comunidade que se recusou a morrer.
Mesmo com cálculo ou estratégia, a decisão coletiva de continuar exigiu algo que nenhuma engenharia simbólica produz sozinha: confiança na continuidade.
Esperança de que a força não tem que ter a última palavra.
O que escolhemos sustentar - juntos - torna-se história.
O que estamos dispostos a sustentar agora?
O que escolhemos sustentar – juntos - torna-se história.
O que estamos dispostos a sustentar agora?


