Estudante semi-deslocado: já não sinto que tenho as mesmas 24 horas*
Os passes de transporte ferroviário a vinte euros mensais e o Passe Navegante gratuito a jovens até aos 23 anos de idade são bens justos. O alívio financeiro existe e funciona. O verdadeiro preço que pagamos por não vivermos perto dos polos universitários e da metrópole não é cobrado em dinheiro, mas sim em tempo de vida.
Fala-se do atual estudante deslocado, que muda de cidade para estudar, e do estudante que vive perto da faculdade. Fala-se menos de uma terceira condição: a de quem não muda de casa, mas passa mais de quatro horas por dia em transportes públicos. Infelizmente, essa é a realidade em que me encontro atualmente, a quem chamam de "semi-deslocados", e é sobre essa condição que quero refletir.
Às 5h55 ainda é de noite, e já saio de casa. O comboio parte às seis da manhã; seguem-se o metro e o autocarro da Carris, e só por volta das oito horas é que chego à minha faculdade. Quando a primeira aula começa, já levo duas horas de viagem.
Esta condição obriga-me a uma escolha diária que não é verdadeiramente livre. Se regresso logo após as aulas, chego a casa entre as 15h e às 16h, mas abdico do convívio, dos grupos de trabalho e das conversas informais onde a vida universitária se constrói. Se fico, chego por volta das 22h, e às cinco da manhã do dia seguinte já estou de pé. Sinto que deixei de ter as mesmas 24 horas de antes, e é difícil de explicar a quem não vive esta rotina e que ache que os estudantes que protestam (ou que até simplesmente comentam) estão a exagerar. É difícil de explicar a desconexão que sinto: chegar mais tarde que toda a gente, ter de partir a meio de convívios.
Os dados não mentem, mas por vezes escondem realidades: os Censos de 2021 do INE indicam que a população empregada gasta, em média, 43,5 minutos por sentido em transportes públicos. A rotina de alguém que faz a travessia do Ribatejo para o lado oeste da capital ultrapassa frequentemente mais que o dobro desta estatística.
Importa fazer um contraponto essencial: os passes de transporte ferroviário a vinte euros mensais e o Passe Navegante gratuito a jovens até aos 23 anos de idade são bens justos. O alívio financeiro existe e funciona. O verdadeiro preço que pagamos por não vivermos perto dos polos universitários e da metrópole não é cobrado em dinheiro, mas sim em tempo de vida.
Temos visto as ruas e as notícias encherem-se, e com toda a razão, de jovens a manifestar-se contra o preço insuportável dos quartos nas grandes cidades. É uma questão estrutural para o país e para o acesso ao ensino superior. Contudo, paralelamente à questão do preço dos quartos, existe esta outra dimensão silenciosa, vivida por quem optou - ou foi forçado - a ficar nas suas terras de origem e, por vezes, a ficar mais tempo em carruagens e autocarros do que numa sala de aula. O recente reconhecimento legislativo das distâncias e tempos de viagem nos apoios da ação social é um passo importante, mas o debate sobre a coesão territorial tem de ir muito além dos regulamentos oficiais.
Mais do que apontar falhas, importa refletir profundamente sobre o modelo de integração que estamos a construir. A universidade deve ser um espaço pleno de vivência coletiva. e não uma constante corrida contra o tempo e os horários dos transportes.
A distância não nos devia deixar de fora da verdadeira vida académica. No fundo estas viagens diárias provam-nos que, no ensino superior, nem todos temos as mesmas 24 horas
*Santiago Maria Paulos Vargas, estudante do ensino superior, residente em Vale de Santarém.


