“Tento libertar-me da escrita dos jornais e escrever sem cair na literatice”
Falar com António Valdemar é colocar em prática o provérbio: “a conversa é como as cerejas”. Com 83 anos, tem histórias, aventuras e intrigas para contar que não cabem nas páginas de um jornal, muitas das quais devem ver a luz do dia nas suas memórias, que já começou a escrever e a que deu o título de “A Décima Ilha”. Natural dos Açores, António Valdemar ainda exerce o jornalismo, nomeadamente no jornal Expresso e em vários jornais regionais. A conversa com O MIRANTE decorreu na sua casa de Torres Novas.
Lembra-se do seu primeiro dia de trabalho como jornalista?
Perfeitamente. Um automóvel perdeu os travões na Mouraria e foi parar ao Martim Moniz, esmagando duas mulheres. Não tinha prática de fazer notícias de trânsito e, pior, não sabia como é que se fabricava o pânico. Ainda estava muito verde e o texto saiu um bocado seco para a confusão que aquilo deu na altura. Safei-me porque estava mesmo em cima da hora de fecho. Eu trabalhava no jornal República. Tinha 20 ou 21 anos.
Jornalismo é arte ou é só um trabalho como outro qualquer?
Jornalismo é vocação e profissão a tempo inteiro. Pode ser um trabalho das nove às cinco, mas também é possível fazer-nos acordar às quatro da manhã.
O seu avô teve influência no seu gosto pelo jornalismo?
O meu avô era um funcionário das Finanças, uma pessoa ponderada e discreta e um homem muito culto. Foi ele que me ensinou a ler e a escrever e os seus livros mostraram-me o que era o mundo. Comecei cedo a ir à sua colecção de livros. Havia uma enciclopédia com imagens, livros do Eça, do Antero de Quental, do Basílio Teles e de Ernest Renan. Aí perdi a fé.
Perdeu a fé?
O principal livro de Renan é A Vida de Jesus, onde se questiona a sua divindade. A minha avó e a minha mãe diziam: “ele está a ler coisas do Diabo”. Assim teve início o meu desassossego. Comecei a querer ser jornalista e a ser mau estudante. O meu pai escrevia no Correio do Açores e levava-me com ele à tipografia. Fiquei com o cheiro das tintas.
Que jornalistas lhe ensinaram a profissão enquanto tarimbou?
Ninguém ensinava nada a ninguém. E se a pessoa tinha tentações literárias, como aconteceu comigo, era maltratada. Aprendia-se lendo jornais e comparando as notícias nos diferentes títulos. Durante muito tempo o meu trabalho em Lisboa foi fazer análises comparativas. Ver como se escrevia n’ O Século, Diário de Notícias, Diário de Lisboa e Diário Popular. Era importante saber os adjectivos certos.
E escrevia sobre tudo?
Tive a sorte, o privilégio e a honra de ter tido o patrocínio e a amizade de Alfredo Guisado [director-adjunto do República, fundador do Orpheu com Fernando Pessoa e Almada Negreiros. Ele começou a dar-me trabalhos para a página literária, mas sempre fiz de tudo. O chefe e o subchefe de redacção eram desagradáveis e tinham gosto em humilhar. Manuel Alpedrinha foi um dos primeiros a quem deixei de apertar a mão.
Qual o primeiro trabalho a ter destaque de primeira página?
A primeira capa que fiz foi uma entrevista ao escultor Canto da Maia. Depois fiz uma grande campanha sobre o prémio Nobel. Estava em Lisboa Marcel Marceau e eu, que lia o Le Figaro e o L’Express pedi-lhe uma entrevista que fez primeira página. Os ódios começaram e um dia o Guisado sugeriu-me sair para O Século ou para o DN. Entrei no DN e ali também fiz agenda. Segui o conselho de um velho anarquista, o Cristiano Lima, que dizia para não me pôr em bicos dos pés para ter trabalhos de literatura ou arte. “Isso vai parar-lhe à mão”, dizia, advertindo-me, contudo, que teria que me preparar para as notícias religiosas. Só pus uma condição. Que esses trabalhos não fossem assinados. Sou agnóstico.
Depois de ter convivido com vultos como Aquilino Ribeiro e Almada Negreiros como se adapta aos dias de hoje?
Agradeço que faça o favor de acrescentar António Sérgio, Vitorino Nemésio, Jorge Barradas, Ferreira de Castro, Mário Cesariny, Jaime Cortesão, Vieira de Almeida e António Pedro, pelo menos. O 25 de Abril mudou quase tudo. As tertúlias tal como eram desapareceram. Hoje insulta-se ainda mais do que antes. Nas redes sociais instalou-se a mentira, o anonimato e tudo o que há de pior. Hoje em dia não encontro pessoas pelas quais tenha grande admiração.
A sua iniciação no jornalismo coincidiu com a ressaca das eleições em que o general Humberto Delgado foi candidato à Presidência da República. O que representava esta figura para si?
Apanhei a ressaca da campanha e o terror. São presos António Sérgio, Jaime Cortesão, Vieira de Almeida e Mário de Azevedo Gomes, apenas porque queriam realizar no país algumas conferências. O Delgado espalhou o desassossego, fez perder algum medo. Queria demitir o Salazar e fazer a primeira limpeza ao salazarismo. Queria rebentar o regime por dentro. Tinha escrito contra a República, tinha sido da Legião Portuguesa. Estava agitadíssimo depois de ter vivido na América e era a pessoa ideal para desencadear uma tempestade.
Na altura era realmente um desassossego.
Era um tipo louco. Isto não obsta a que se constitua em Torres Novas o Centro de Estudos Humberto Delgado com toda a literatura e história da República e da Resistência. Como fechou em Lisboa o Museu da República, até poderiam ser acolhidos em Torres Novas, temporariamente, os livros encaixotados do seu espólio.
Que outras figuras da região lhe merecem destaque?
O João Moreira, o António Cacho e o Virgílio Arruda. Mas há duas figuras admiráveis: Eduardo Figueiredo, colega do meu pai, no curso de Direito (1920-1925), um grande advogado e anti-fascista; e Joaquim Veríssimo Serrão, amigo extraordinário.
Quem foram os políticos que mais o marcaram como jornalista?
Os que contribuíram muito directamente para a minha formação foram António Sérgio, Raul Proença e Mário Soares (meu professor no secundário), a leitura muito atenta de Pierre Mendès France (A República Moderna), Paul Hazard, o homem da construção da Europa, e, naturalmente, o Orwell e o Koestler (O Zero e o Infinito).
Consegue resumir o que de substancial mudou no jornalismo de há meio século até hoje?
Escrever com censura e sem censura foi a maior alteração. Depois havia chefes que, bons ou maus, agradáveis ou desagradáveis, sempre orientavam qualquer coisa, quer tivessem ou não o secundário. Hoje são quase todos licenciados e um estagiário não admite que se lhe mexa numa vírgula. A maioria dos chefes e sub-chefes não têm nem competência, nem autoridade para dar indicações. O ambiente da redacção é mau hoje, mas também o era antes.
Nunca se sentiu inferiorizado por não ter uma licenciatura ou um doutoramento?
Senti-me sempre bem e hoje em dia sinto-me orgulhosamente bem. Julgo que tinha tudo o que era preciso para exercer a profissão com dignidade. Fazia a agenda do dia-a-dia sem discutir. Apenas me faltou tratar de desporto e economia.
Como é que chegou a sócio da Academia das Ciências de Lisboa?
Fui presidente da Academia de Belas Artes em dois mandatos e fui escolhido e eleito por unanimidade, nos anos 90, para a Academia das Ciências, por já pertencer à Academia de Belas Artes. Entrei por escrever muito acerca de património e defesa do património, antes e depois do 25 de Abril.
Lembra-se de quando veio pela primeira vez a Santarém e ao Ribatejo?
Em 1960 quando estava no DN, o director, Augusto Castro disse-me “você escreve muito bem, com gramática, mas há uma coisa terrível consigo, não conhece Portugal. Vai começar pelo Ribatejo”. É nessa altura que tenho contacto com as figuras que mencionei há pouco. Fiquei fascinado pelo Ribatejo.
Deu aulas no Politécnico de Santarém. Como era a cidade nesses tempos?
Como o jornalismo dava pouco dinheiro, dei explicações ao 1º e 2º ciclo. Tinha alguma experiência como professor quando o Veríssimo Serrão me convidou para dar aulas de comunicação no Politécnico. Santarém era uma cidade muito acolhedora. Fiquei aterrado no primeiro dia quando vi que se tinham inscrito no curso de comunicação social figuras notáveis de Santarém que faziam parte da tertúlia do café Central, como António Cacho, o Eng. Mourão, o padre Poças, José Brás, Eduardo Leonardo, crítico tauromáquico, e jovens como o José Miguel Noras e António Carreira. Criou-se um clima admirável.
Como é que um homem que escreve há muitos anos sobre os Painéis de São Vicente e é um crítico de arte reconhecido também se perdeu durante anos a fazer reportagem sobre, por exemplo, festivais de gastronomia?
Em 1961 comecei a escrever os textos sobre o concurso Construções na Areia. Percorri as praias de Norte a Sul do país e assim fui também conhecendo a gastronomia. O Eurico Braga (agente da Amália) apresentou-me duas suas amigas: Amália Rodrigues e Bertha Rosa Limpo, autora do livro de culinária Pantagruel. Comi quase todo o Pantagruel. Há uma edição ilustrada com fotografias do Gageiro. Ela punha a mesa, ele fotografava e um grupo de amigos, do qual eu fazia parte, comia. Estava preparado para substituir o Melo Lapa na gastronomia no DN.
Joaquim Veríssimo Serrão foi seu amigo e confidente. Segundo sei tratavam-se de forma familiar.
Conheci-o em 60 e poucos em casa de Nuno Simões, quando lhe encomendaram um trabalho sobre o Brasil. Tive sempre o fascínio do Brasil por causa dos livros do meu avô e comecei a dar-me bem com ele. Tratei-o sempre por professor. Ele a partir de certa altura começou a tratar-me por tu e eu tinha muita honra nisso. Acompanhei situações muito complicadas da sua vida. Serrão confidenciou-me muitas ingratidões.
É conhecido por ser um homem de feitio difícil. Nasceu consigo?
É muito possível que tenha uma carga genética, os meus pais eram muito independentes. Gosto fundamentalmente das pessoas que gostam de mim. Não gosto de pessoas que dizem mal de mim pelas costas e de quem tenho agravos.
Como está a correr a escrita das suas memórias? Disse-nos há tempos que falar nos tempos passados é cair no saudosismo deplorável. Não receia cair neste saudosismo?
Começo pelo fim. De saudosismo só gosto, e por vezes cada vez mais, de Teixeira de Pascoaes. Quanto às minhas memórias, luto em várias frentes. Luto para me libertar da escrita dos jornais para escrever sem nunca cair na literatura e muito menos na literatice. Luto contra a irresistível tendência para uma auto-biografia. Luto pelo equilíbrio de conseguir o texto das memórias que já têm título: “A Décima Ilha”. Escrever para mim é, como ensinou o mestre Paul Hazard, ir separando a palha das palavras do ouro das sementes.
Vai ajustar contas com alguém?
Ajustar contas é fazer reviver pessoas que devem ficar ignoradas.
O chá que nos ofereceu é o responsável pela sua memória prodigiosa ou há outro segredo por trás dessa capacidade de que poucos homens com a sua idade se podem gabar?
Entre outros privilégios posso gabar-me de aos 83 anos ser uma pessoa conhecida, mas que nunca esteve na moda. Quem está na moda e deixa de estar fica desgraçado. Vive numa terrível solidão e possivelmente cheio de ódios. A primeira pessoa da minha geração a quem isto aconteceu foi Artur Portela. Durante muitos anos, no Diário de Lisboa, no Jornal do Fundão, na Capital, no DN, a classe política e a classe literária aguardavam a crónica do dia seguinte. Não conseguiu adaptar-se ao 25 de Abril. Desapareceu. E teve uns obituários frios. Quanto ao chá é, como só podia ser, Gorreana (da ilha de S. Miguel, nos Açores).
Vai muito à Internet procurar sinónimos de palavras?
Não. Recorro ao dicionário de sinónimos de José Inácio Roquette que era do meu avô, passou para o meu pai e que eu trouxe para Lisboa. Uso também o Houaiss do Círculo de Leitores, tem sinónimos e antónimos.
O seu último artigo no Expresso sobre Gomes Leal levou quanto tempo a escrever?
Escrevo rapidamente. Levo mais tempo é a emendar. A tirar o que está a mais, a escanhoar. Escrevo de uma assentada e depois leio e releio quatro, cinco, seis vezes, rasuro, reescrevo à mão.
Escreveu que quando Gomes Leal morreu os jornais estavam de greve. Alguma vez fez greve?
Nunca. Mas assinei, quando entendi, manifestações de solidariedade, antes e depois do 25 de Abril. Com a classe e com causas humanas, políticas e sociológicas.
Como se sente na pele de açoriano a viver em Lisboa.
Nunca se deixa a terra de origem. Muito menos uma ilha. O Almada Negreiros escreveu em Mito, Alegoria Símbolo que “uma ilha é sempre exacerbante”.
Prefere essa citação à de José Saramago “é preciso sair da ilha para ver a ilha”?
Trabalhei com o José Saramago durante dois anos, na formação de A Capital. Tanto quanto calculo ele não sabe nada de ilhas e muito menos dos Açores. Lazarote foi para o Saramago uma casa para trabalhos forçados. De escrita, entenda-se. (risos)
Tem saudades de São Miguel ou vive lá permanentemente em imaginação?
Os meus amigos queridos já morreram todos. Silva Júnior, Manuel Ferreira, Rui Guilherme de Morais, Gustavo Moura, Hermano Mota e outros. Ir lá sem os ver é mais terrível do que imaginá-los aqui na minha décima ilha.
O seu nome é José Stone de Medeiros Tavares. Porque adoptou o pseudónimo António Valdemar?
O António Valdemar apareceu pela primeira vez em 1955. Salvo erro, acerca do escultor Canto da Maia. Vivia ainda nos Açores. Foi publicado no semanário A Ilha. Antes disso assinava com o nome de família, mas muita gente dizia que era emendado ou escrito pelo meu pai, José de Medeiros Tavares.
Sessenta anos de profissão e muito ainda por escrever
António Valdemar conta mais de sessenta anos como jornalista. No seu percurso profissional conviveu com figuras maiores da sociedade portuguesa, algumas de origem ribatejana como o historiador Veríssimo Serrão. Homem ligado à cultura e às artes continua a escrever e a fazer capas de revistas e de jornal com textos sobre Amália Rodrigues ou sobre os Painéis de São Vicente de Fora.
A notícia da distinção de O MIRANTE foi recebida com “emoção, surpresa e agrado” por significar mais uma ligação ao Ribatejo, além da relação com Teresa Rodrigues Bento, uma ribatejana do Entroncamento, com quem está casado em segundas núpcias há mais de 30 anos.
A honra é ainda maior, confidencia, por ser incluído num prémio que distinguiu aquele que considera uma das mais notáveis figuras da sua geração: Francisco Pinto Balsemão.
Quando Balsemão foi eleito primeiro-ministro, António Valdemar era jornalista no DN. Foi ele que escreveu o artigo “Um jornalista em São Bento”. “Tive a honra de ser solicitado pelo Expresso para fazer o texto sobre Francisco Balsemão entre as 100 personalidades que moldaram o século XX em Portugal, propu-lo para sócio da Academia das Ciências, mas o presidente Adriano Moreira não aceitou”.
A escrita, jornalística ou literária, continua a fazer parte dos dias de António Valdemar. “É um bom exercício para não recorrer muito ao livro dos sinónimos”, assegura.


